‘Golpe de Vista’, segundo disco de Douglas Germano, é uma peça-chave do samba torto paulistano

Guiado pelo violão e pela caixa de fósforo, o músico que é o elo perdido da cena samba-punk do Metá Metá, Passo Torto e confluências, lança um álbum que já nasce clássico.

|
15 setembro 2016, 4:43pm

Foto por Stela Handa.

Golpe de Vista, segundo disco solo de Douglas Germano foi lançado nesta segunda (12).  A obra é São Paulo, é bairro da periferia, é violão e cuíca, é da Boca do Lixo, é o arrebento da corda sol do cavaquinho. É João Antônio, é macumbeiro, é samba torto, é de uma malandragem paulistana rara. Segundo a música que abre e batiza o álbum, o seu samba é a sua maneira, seu samba é do jeito que dá. Ele explica. "'Golpe de Vista' não é um samba que você senta pra tomar uma cerveja. É isso, é literal. Não carrega paixões antigas, não tem a bandeira de nenhuma escola de samba. Ele não pede pra entrar, eu me ajeito aqui e é o que eu faço."

Com 12 curtas canções, Douglas Germano é certeiro. Só pedradas, conduzidas por um violão vaidoso, de uma linhagem um tanto Baden Powell, uma caixa de fósforo abusada como a de Cyro Monteiro. "O conceito do Golpe de Vista é esse. É se defender com as armas que se tem à mão. Às vezes eu pego caixa de fósforo e gravo uma percussão com vários andamentos. Quando eu componho, eu uso essas gravações pra tocar junto, decidir andamento. Esses sons são o que eu tenho. Tenho isso aqui. Meu violão é esse, minha percussão é essa. Sou eu que canto e essa são minhas músicas", ele traduz.

Vamos fazer assim: você ouve aqui enquanto a gente dá uma esticada nesse chiclete:

O disco mal nasceu e já apresenta clássicos. "Golpe de Vista" é um. "Maria de Vila Matilde" (porque a da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde), gravado por Elza Soares no álbum A Mulher do Fim do Mundo é outro. Ele fala das minas fortes da zona leste. "Essa história rolou, porque dentro da Nenê de Vila Matilde foi onde eu percebi os exemplos de poder femininos mais claros pela primeira vez na minha vida. Eu via mulheres, e algumas continuam lá até hoje, com um poder absoluto naquele negócio", comenta o músico, que desde os 12 anos participa da bateria das escola de samba.

Outra coisa muito rica na obra de Germano são as personagens e uma direta homenagem à João Antônio. Em "Guia Cruzada", por exemplo, ele fala de Xogum, um dos lendários nomes do samba paulistano. "Esse senhor existe ainda. É uma coisa meio melancólica. É um senhor que trabalhou a vida inteira na prefeitura. Tem lá os netos e os filhos. No domingo almoça com a família e quando chega cinco e meia da tarde ele pega a cuíca e vai pro ensaio da escola. Essas figuras estão acabando."

E como qualquer samba que se preze, Germano recorreu a muitos coros, a outras vozes para deixarem seu som mais grandioso. "Sempre que eu componho, tenho um coro de muitas vozes na cabeça. É arrogância de compositor", explica o músico, que não curte a ideia de ser chamado de sambista. "Eu detesto ser chamado de sambista. Detesto, cara. Porque eu acho que o próprio sambista joga uma pá de cal no pé diariamente. Eles cristalizam, eles comemoram o tombamento do gênero. Deus me livre. Ele é o meu suporte artístico, a minha tela em branco é o samba. Se você zoa minha tela em branco como eu vou pintar?"

Foto por Rafaela Netto

Olhe bem. Ouça com atenção. Douglas Germano é o elo perdido para compreender a cena que envolve o Metá Metá, Passo Torto e adjacências. Canções inesquecíveis como "Rainha das Cabeças", que tem essa versão pesadíssima com a Juçara Marçal cantando, são de sua autoria. Dá para reconhecer no Golpe de Vista uma similaridade com o primeiro disco de Rodrigo Campos, São Mateus não é um lugar assim tão longe, de 2009, ou com Padê, de Juçara Marçal e Kiko Dinucci.

Ele faz parte disso, e muito. Era do Bando Afromacarrônico, aquele bang que nasceu no Ó do Borogodó. Inclusive, faça um favor a si mesmo e ouça o Pastiche Nagô (que em breve será relançado em vinil). Junto com o Kiko Dinucci, em 2009, ele lançou o Duo Moviola. Ele expllica este recorte musical paulistano. "Esses trabalhos acabam fazendo as pessoas entenderem isso como uma cena", ele explica. E dá um dos caminhos possíveis para tal pensamento. "Não faz sentido a gente fazer, criar, fazer arte se a gente não tiver um olhar pro nosso tempo, cara. Senão a gente faz uma farsa."

Douglas Germano é genuíno. É raro em seu talento, seu violão e sua caixa fósforo. É desses personagens que nos agradam ao desentocarem suas obras e que precisam ser mais celebrados, comentados e ouvidos.