Uma entrevista com Serralheiro, o lendário DJ de reggae do Brasil

Nos anos 70, entre uma lambada e outra, Edmilson Tomé da Costa foi um dos pioneiros na introdução do ritmo na cena musical de São Luís, hoje a Jamaica brasileira.

|
24 março 2017, 12:00pm

Várias lendas sobre os DJs de reggae correm pelas bocas da cidade de São Luís, no Maranhão. Um dia me contaram sobre pessoas que trocavam carros por discos. Em outra, ouvi dizer também que rolou um tiroteio por conta de um mp3, e ouvi várias vezes a história de um DJ conhecido apenas como Serralheiro que, nos anos 70, embarcava em viagens às cegas para Kingston ou para Londres em busca da música que seria a pedra das pedras e que, quando encontrava tais discos, ele riscava os vinis que ficavam na loja para manter a exclusividade.

Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro, é um dos grandes responsáveis pela a introdução e estabelecimento do ritmo caribenho no Maranhão quando, nos anos 70, meio que a força, ele e alguns poucos DJs começaram a tocar música Jamaicana em meio a uma lambada e outra. Hoje, ele é considerado um dos DJs mais zica da maior cena musical do Estado.

Uma lenda viva e uma figura única, fala pouco. Sempre ressabiado com jornalistas e desconfiado a todo tempo, mesmo assim ele topou uma conversa com o NOISEY durante as gravações do vídeo "Por Dentro da Jamaica Brasileira, em 360º".

Apesar da saúde debilitada e da idade avançada, a memória e a língua afiada continuam muito bem. Saque aqui, na íntegra, o papo que batemos com um dos maiores DJs do Brasil:

NOISEY: Serralheiro, por que São Luís se identificou tanto com reggae?
Serralheiro: Quem começou o reggae aqui foi: Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo. Eu tentava tocar reggae nas festas e ficava todo mundo "Tira essa porcaria daí, rapaz". O pessoal botava uma lambada, um merengue e ficava assim. De vez em quando tocava um reggae, eu fui incentivando, Natty Nayfson e Ribamar Macedo foram incentivando também. Deu muito trabalho, mas quando pegou, compadre… Não acaba mais. Reggae aqui é uma doença.

Quando foi a primeira vez que o senhor ouviu uma música de reggae?
A primeira música de reggae, eu nem acredito, foi do Jimmy Cliff. Eu fiquei doido por reggae. Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu.

Nas sua primeira viagem, você foi só com o endereço do hotel pra Jamaica?
Não falava nada do inglês. Sou o cara que tem mais coragem do mundo.

Foi com a cara e com a coragem.
É. Eu fui para Londres também. Todo mundo aqui falou. Falou na rádio: "O Serralheiro foi pra Londres. Não volta mais."

Mas não fui só uma vez fez, fui 28. E larguei uma mulher e ainda tenho um filho lá.

Jura?
É.

E para Jamaica, você foi quantas vezes?
Para a Jamaica eu fui 17.

Onde você achava os melhores discos, em Kingston ou Londres?
Londres é incomparável, ali tem muita coisa. Tem mais discos de reggae que na Jamaica. Porque na Jamaica tem som ruim. E lá eu me fiz. Trouxe discos demais, cara.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Quantos discos o senhor tem hoje?
Tenho uma faixa de 500 discos, só.

O senhor guardou os melhores?
Só a nata, é só coisa boa.

E esses 500 discos que o senhor tem, mais alguém tem?
Não. Acho que não tem, não. Quando eu vou tocar, vai um monte de DJ escutar.

O que o senhor mais gosta de tocar?
Eu só gosto de tocar é reggae.

Nas festas, o senhor gosta de tocar só os reggaes antigos ou o senhor já chegou a tocar uns reggaes eletrônicos?
Reggae eletrônico nunca toquei. Eu tenho a radiola, mas as festas que eu ia tocar tinha um DJ que tocava bate-lata e depois eu tocava só roots. Mas nunca toquei, porque nunca gostei.

E a música de São Paulo, eletrônico, tem perna lá?

Tem, tem bastante.
Quando toquei lá, tinha mais ou menos 20 mil pessoas. É um lugar muito desgraçado de grande. Mas o reggae que os cara tocaram lá foi só rocksteady.

Serralheiro na Virada Cultural de São Paulo de 2011.

E os outros DJs de São Luís?
Aqui tem DJ igual bosta de coelho na Amazônia. Pior que todo mundo quer ser DJ. Aqui tem DJ demais, mas para ter nome é difícil. Para arranjar nome que nem eu, é difícil.

São quantos anos de estrada já?
Ah, eu tenho quase 30. Logo quando eu comecei com o radiola, até as minhas músicas aqui ninguém não tinha.

Já tentaram roubar músicas do senhor?
Eu sou o cara mais roubado. Eu quase que não dormia por causa disso. Aí, pensei: eu vou fazer um prefixo e bota no meio da música, aí acabou, eles não roubaram mais. Entrava no meio da música: "Serralheirooooo". Na época, a rádio dizia: "O Serralheiro está doido!". Hoje, todo mundo usa isso.

Dá o play nesse link para sacar o que é um prefixo de responsa.

E o que faz das músicas que o senhor escolhe serem melhores que as de todo mundo que toca aqui?
A quantidade de gente que vai nas festas que eu toco e não vai nas outras. Aqui, se tem uma festa e tá tocando um tipo de música, você vai bem ali, na outra festa está tocando o mesmo tipo de música. Eu consigo a diferença. O povo daqui gosta muito de reggae e entende.

E tem gente que chega: "Ô, Serralheiro, bota essa música de novo". E eu digo: mais tarde. Mais tarde eu não boto mais. Nunca gostei de repetir música.

O senhor frequenta as festas de hoje em dia por aqui?
Eu vou nas festas de rua quando a casa é cheia. Só de casa cheia.

E o senhor pretende continuar tocando por quanto tempo?
Enquanto aguentar. Sou fã do reggae.

O que significa o reggae na vida do senhor durante todos esses anos?
Os discos que tenho sempre vão estar na minha história. Lá na rádio, tinha uma festinha e eles colocaram Natty Nayfson, Ferrerinha, só a nata do reggae. Toda sexta-feira quando eu chegava lá, eles me falavam: "Quando você morrer, eu vou pegar aquela caixa de discos". E eu dizia: está bom. Um dia, fui fazer uma festa no interior e disse: "Pega essa caixa aqui e deixa lá no quintal". A caixa tinha 300 discos embalados, só filé. Perguntaram o que ia fazer. Eu disse: vou dar uma limpeza nos discos. Quando eles foram embora, fui na quitanda e comprei um bocado de álcool, peguei os discos e toquei fogo. Trezentos e poucos LPs.

Depois disso, eu me arrependi. Levantou um fumação preto que parecia fumaça de pneu. O povo da rua ficou tudo contra mim. Eu apago isso e não toco mais. Eu sou muito problemático.

E os discos que ficaram com o senhor até hoje?
Esses meus eu não vendo não, é a minha sequência.

Colaboraram Bruno Costa e Daniella Pimenta.

Leia mais sobre a cena reggae de São Luís, a Jamaica Brasileira: