Marielle Gigante

Evento no Circo Voador reuniu rappers e ativistas para celebrar e divulgar a memória de Marielle Franco.

por Matias Max; fotos por Matias Max
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30 abril 2018, 8:51pm

Enquanto as autoridades desvendam os responsáveis pela execução da vereadora Marielle Franco a passos de tartaruga, a sociedade civil se manifesta. Na noite de quinta (26), uma faixa com os dizeres “Marielle Gigante” foi estendida nos arcos da Lapa, convocando pro evento homônimo no Circo Voador, com apresentações de Heavy Baile, Filipe Ret, Flora Matos, BK, Planet Hemp, Bloco Apafunk e vários outros poetas e rappers periféricos.

A verba arrecadada foi destinada a quatro organizações, o Coletivo Maré Vive, o Coletivo Fala Akari, A Casa das Pretas e o Pré Vestibular Comunitário do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré. Mesmo com shows espetaculares, o clima passou longe de ser apenas festa, resistência e denúncia pontuaram todos os shows, chegando ao ápice com a intervenção das Mães de Manguinhos durante o show do Planet Hemp.

Conversamos com alguns dos artistas e ativistas presentes no evento, questionando como é sobreviver numa cidade que assassina uma vereadora por defender direitos humanos.

Faixa do festival em homenagem à vereadora.
Marcelo D2 no palco de Marielle Gigante.

Marcelo D2

"Essa violência não é de agora né? Isso é de quinhentos anos, é triste ver. Em 2018 a gente ainda ter que fazer um evento como este é triste, mas é obrigatório. A gente tem que estar aqui, resistindo, falando, fazendo. Me senti honrado de estar aqui com uma porrada de amigo, 25 anos depois, vivo, contrariando as estatísticas. Somos a banda que fechou a parada. Poder botar todas aquelas mulheres lindas pra falar [no palco], mães filhas, mulheres ativas, foi especial pra caralho. Eu tou agora naquele momento exausto mas com aquela sensação de que vale a pena, vale a pena estar aqui, vale a pena resistir."

Neusa, da Casa das Pretas.

Neusa, Casa das Pretas

"Matar gente eles sempre mataram, na época do Samba, no Estácio sempre se matou muita gente, na Praça Onze, na Mangueira, na Portela. Agora, estão denunciando com a força deles, cada tempo no seu tempo, mas nós já morremos muito e sempre morremos. A galera do rap sempre chegou junto, sempre tiveram em todas as discussões contemporâneas, eles trabalham todas essas questões há muito tempo. Eles estão em determinados espaços que a gente às vezes não conhece."

B. Negão no festival.

B. Negão

"A gente foi convocado pra esse show. Quando rolou o lance da Marielle foi um dia péssimo pro Rio de Janeiro. Não precisa nem fazer essa pergunta, ‘Quem matou Marielle’. A gente sabe, eles achavam que a parada ia ficar por ali, que essa politica do medo ia dar certo, e na verdade a parada foi ao contrário pra eles, ficou gigante, porque Marielle é gigante. A felicidade da gente no meio de toda essa dor e tristeza é estar junto com a galera que ficou. Tem muita gente chegando de vários lugares diferentes, até de outros lugares de onde normalmente não chegariam, chegando pra somar. Basicamente essa que é a onda."

O rapper BK.

BK

"O que que tá acontecendo? Ao mesmo tempo que a gente fala muita coisa, a gente vive num mundo que se certos poderes não gostarem do que a gente fala. A gente morre, é um fato tá ligado? Tanto que morre vereadora, também morre o Coronel Cerqueira, Coronel negro da PM que lutava pelos direitos humanos, ele foi assassinado. O Rio de Janeiro é uma cidade que não quer que você pense. Ela é dos barões, dos ricos, dos brancos. Uma cidade que te faz ter medo do que você é, que te faz odiar o que você é, então a gente vai se virando com as armas que a gente tem que é o rap, um pouco da consciência que a gente aprendeu na rua e na vida vendo as coisas."

Marcelo Yuka.

Marcelo Yuka

"Tá difícil viver, mas eu ainda ouso pensar no que virá depois disso. Eu sou poeta, eu sou artista, então eu me alimento de poesia. O engenheiro pode trabalhar 14 horas por dia, eu trabalho 24 horas, eu nunca deixo de trabalhar. Quando eu estou dormindo, eu trabalho, porque eu uso o sonho como matéria prima. Quando a gente coloca os olhos sobre o que será depois disso, a gente pode botar o corpo e levar os outros. Ae a gente vive só a guerra, só a batalha, só o conflito, eu não sei se a gente pode pensar realmente em alguma coisa depois disso."

Josinaldo, organizador do canal de mídia independente Maré Vive.

Josinaldo, Maré Vive

"O Circo Voador é um local de resistência, desde sua história no Arpoado e a vinda pra Lapa, que é este lugar boêmio e que já foi muito criminalizado. Mas hoje não é pra ser lindo, não é mais uma noite pra tomar uma cerveja. É um ato politico, então quando a gente estica uma bandeira com o rosto da Marielle nos arcos da Lapa, não é pra divulgar o evento em si, é pra marcar aqui que a gente vai cobrar. A gente tá cobrando que os assassinos dela sejam presos e julgados, por essa justiça que a gente não acredita muito, mas é uma missão que a gente tem."

Tchelinho, Heavy Baile

"Para gente é uma grande satisfação participar deste evento, a gente como artista é o mínimo que pode fazer. Eu acho que as autoridades se prevalecem muito do poder que eles tem sobre o cidadão. Cada um contribui com o que tem para a sociedade, mas se prevalecer de uma autoridade que lhe foi dada por um estado, aí fica chato né? Porque a gente não pode fazer nada, senão a gente morre."

Felipe Ret também participou de Marielle Gigante.

Filipe Ret

"Quando eu fiquei sabendo do assassinato dos meninos de Maricá eu fiquei muito, muito triste, igual no caso da Marielle, e na hora eu já quis entrar em contato com os menor de lá, pra ver se eu conseguia ir lá, demonstrar apoio. O rap tem de fazer sua parte, por mais que às vezes a gente cante umas ideias que são pra juventude mesmo, tem muita linha ali que é pra melhorar a sabedoria. Essa molecada que tá aparecendo deve fazer o mesmo, demonstrar que tá sempre ligado nas coisas sociais, que também se preocupa."

Buba Aguiar, do coletivo Fala Akari.

Buba Aguiar, Fala Akari

"Todo dia em que a gente acorda e não morre, é resistência, é luta, é cor. Porém também tem um sofrimento, a gente vê nossos irmãos e nossos filhos serem assassinados pelo Estado — isso quando a gente mesmo não padece num hospital público — então é bem doloroso. O que aconteceu com a Marielle é um recado bem explicito, principalmente pra gente que além de ser mulher negra, favelada e periférica, ainda se coloca numa posição de quem denuncia os desmandos do Estado."

Aurea Carolina, Vereadora pelo PSOL em Belo Horizonte

"Essa desgraça é um acontecimento que extrapola demais as fronteiras do Rio, é uma acontecimento de repercussão na América latina, em vários países do mundo, porque fala sobre um momento de aprofundamento da violência estatal contra as maiorias sociais. Nós, mulheres negras, periféricas. Toda a repercussão que houve após a execução da Marielle mostra que as pessoas estão a ponto de destampar essa violência também, se dar conta do que está acontecendo e talvez criar novas formas de agir.

É um marco de mudança na forma de resistência, então eu me sinto assim como Marielle também, como uma lutadora que ajuda a puxar na linha de frente essas agendas tão subterrâneas por tanto tempo. A gente tá vivendo um momento histórico em que isso está dando uma virada e esses donos do poder que premeditaram a morte da Marielle estão se sentindo incomodados. A nossa presença está gerando neles também uma tentativa de repressão, de silenciamento que as pessoas estão percebendo. As pessoas entenderam que ela estava incomodando gente muito graúda, muito poderosa.

Mas não silenciaram Marielle, teve um efeito colateral pra eles. Ao invés de silenciados, a gente está mais vibrantes do que nunca."

Planet Hemp encerrou o festival chamando as Mães de Manguinhos e as famílias de outras vítimas da violência no Rio de Janeiro.

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