Trocamos um ideião com o Oi Polloi, clássica banda anarco-punk escocesa

Chutando a bunda dos reaças desde 1981, eles acabam de lançar o álbum ‘Saorsa’, um poderoso manifesto street crust pela autonomia individual e coletiva.

|
18 agosto 2016, 12:00pm


Fiquei muito contente com a realização da entrevista a seguir, que fiz com o Deek Allen, vocalista da banda anarco-punk escocesa Oi Polloi. Junto de nomes como o Submission Hold, Flux of Pink Indians e Anti-Cimex, desde minha adolescência, quando conheci o som, considero o Oi Polloi como um dos grupos mais éticos e espertos da música anti-sistema. Seus integrantes são ativos militantes de movimentos como Anti-Fascist Action e Earth First, além de praticarem ação direta contra a caça de animais selvagens. Fora isso, nunca participaram de festivais patrocinados por marcas e geralmente até bancam gastos básicos pra tocar em eventos beneficentes.

O Oi Polloi está na ativa chutando a bunda dos reaças desde 1981. Começou como uma banda Oi!, mas ao longo do tempo foi absorvendo outras pegadas do punk e do hardcore. Alguns sons também bebem na fonte da cultura folk gaélica, com direito a várias letras cantadas em gaélico, que é a língua dos índios nativos célticos. Com isso, eles buscam peitar a opressão do governo local em sua saga para erradicar o idioma e outras heranças nativas de lá. "Até os anos 1970, as crianças escocesas ainda levavam tapa se falassem gaélico na escola, e mesmo hoje, as comunidades que falam gaélico sofrem com a falta de direitos humanos básicos em relação a quem fala inglês", explicam eles. O nome do conjunto, no entanto, não vem desse idioma, não. É, na verdade, uma corruptela do antigo termo grego "hoi polloi", que significa algo como "o povo", "as massas".

Fui atrás de trocar ideia com o Deek depois que escutei o álbum novo deles, Saorsa. Bom demais, como a sede da TFP em chamas!

Noisey: Conta um pouco sobre o envolvimento dos membros da banda com os movimentos skinhead, punk, anarco-punk, e também sobre as experiências musicais e políticas que vocês tinham antes de formar o Oi Polloi, no início dos anos 1980. Enfim, quais são as suas raízes musicais e contraculturais?
Deek Allen:
Quando formamos a banda em 1981 éramos apenas uns moleques de escola, na faixa dos 14 anos. Nenhum de nós tinha estado em nenhuma banda punk antes, então o nosso único conhecimento verdadeiro a respeito de punk e skinhead vinha basicamente daquilo que escutávamos no rádio ou descobríamos indo atrás dos discos e fitas. A maioria de nós sequer tinha colado em gigs punks, já que nem havia tantos lugares naquela época para quem era menor de idade frequentar. E também não tínhamos ideias políticas tão sólidas. Como resultado de termos começado a dar rolê no visual punk/skinhead, começamos a ser assediados pela polícia na rua e coisas do tipo, e isso nos tornou imediatamente anti-polícia, mas nada que, no palco, tivesse o respaldo apropriado de alguma filosofia política — especialmente levando-se em conta que a maioria das bandas que escutávamos no começo pendiam mais para o Oi!, em oposição às bandas anarco-punks, realmente politizadas, que começamos a curtir depois.

A única experiência musical que a banda tinha era da minha passagem pela fanfarra da escola tocando gaita de fole. Eu até cheguei a fazer algumas turnês por outros continentes com a banda da escola, além de um monte de apresentações locais, quando estava com uns 12 anos. Mas isso é obviamente bem diferente de fazer parte de uma banda punk. Se você quer saber, a primeiríssima vez que viajei com a banda de gaita foi pra me apresentar pela Costa Leste dos Estados Unidos, onde tocamos em vários eventos de jogos nativos escoceses , alguns estádios de futebol e até na Casa Branca! Já com o Oi Polloi a gente só toca geralmente nuns squats cagados e nuns centros culturais anarquistas — que diferença!

Como as diferentes formações da banda ajudaram a moldar o estilo musical do grupo nos dias de hoje?
Acho que cada pessoa traz algum elemento novo, mas basicamente todos nós curtimos punk Do It Yourself, crust, D-beat e Oi! anti-fascista, então nunca rolaram grandes mudanças, mesmo com as diferentes formações. Acho que, de tempos em tempos, talvez tenhamos ficado ora mais metalizados ora mais experimentais, mas o substrato básico sempre será o mesmo — punk DIY político, de um jeito ou de outro.

Vocês são por vezes associados ao som Oi!, outras vezes ao peace-punk e o crust, e também ao punk gaélico escocês. Mas, pessoalmente, como vocês gostariam de ser percebidos pelo público?
Penso que gostaríamos de sermos percebidos como uma banda cativante ao vivo, que toca música punk de qualidade e que tem algo interessante e pensativamente provocador a dizer, e que faz isso de um jeito positivo, seguindo a ética do faça-você-mesmo. Falando por cima, essa é a proposta. Lógico que tocamos bastante sons com pegada de Oi!, outras coisas mais crust, e também temos várias músicas em gaélico, então as pessoas inevitavelmente tentam nos enquadrar em alguma dessas nomenclaturas, mas o nosso objetivo é realmente tentar combinar tudo o que a gente gosta. De vez em quando funciona muito bem, mas em determinados casos isso pode soar como se não fôssemos crusty o suficiente para alguns adeptos desse estilo, assim como alguns skins acham que somos muito cabeludos para tocar Oi! — gostamos de pensar que as pessoas legais de verdade sacam qual é a nossa onda.

Vocês têm ou tiveram contato com bandas ou coletivos anarco-punks do Brasil nesse tempo todo de banda? É uma curiosidade pessoal que tenho. Porque descobri o som do Oi Polloi por meio dos anarcos daqui, na época dos rolês nos anos noventa. Era uma das bandas que sempre vinham nas fitas k7 que o pessoal duplicava e passava pra frente...
Acho que já tocamos uma ou outra vez com bandas brasileiras nesses anos todos, e respondemos entrevistas para fanzines também, mas nunca rolou nenhum contato próximo ou direto com pessoas do Brasil — nenhum split com bandas brasileiras, por exemplo, tampouco tivemos a chance de tocar no Brasil ou qualquer lugar da América do Sul. Por isso fico contente em saber que, mesmo assim, a galera manja da nossa música. Muito legal!

Existe uma marca de roupa que também se chama Oi Polloi, vocês devem saber disso. Por que você acha que pegaram esse nome, uma vez que o significado parece não ter nada a ver com um nome de marca?
Sim, estamos ligados nessa marca de roupas masculinas e suas lojas. Não sabemos porque eles pegaram esse nome, mas eles claramente devem ter algum conhecimento da cena punk, já que uma vez chegaram a usar umas artes chupinhadas do Crass — se pá escutaram o nome da banda e acharam que cairia bem pra uma loja, achando que a banda não existisse mais. Acho que eles começaram quando a internet ainda não era uma ferramenta avançada, e nós nem tínhamos nenhuma página, MySpace, Facebook ou qualquer coisa assim, então eu suspeito que eles não se ligaram que ainda estávamos na ativa. É muito nada a ver usar um nome sabendo que alguém já o escolheu, e isso já rendeu algumas confusões. Fiquei sabendo que vira e mexe eles são contatados por gente atrás de nós ou das nossas coisas e nós também temos uns fãs de moda curtindo nossa página no Facebook. Acho isso muito engraçado. Agora, o mais ridículo que acontece às vezes é quando surgem uns punks que nos escrevem loucos de raiva, reclamando de termos lançado uma marca de roupas! achamos interessante essa ideia de que algumas pessoas realmente consideram que estaríamos vendendo roupas transadas de dia e tocando nos shows de crust vestidos em trapos pretos à noite — brilhante!

Queria que você falasse sobre o processo criativo e de gravação em estúdio desse novo álbum, o Saorsa. Vocês gastaram muito tempo trabalhando nas faixas antes de entrar no estúdio para o registro definitivo?
Bem, o álbum que fizemos antes do Saorsa foi um pesadelo de se gravar e consumiu mais de três anos para ficar pronto — sem entrar em todas as razões que justificam o ocorrido, foi tudo muito chato, então nós estávamos determinados a não deixar isso acontecer novamente. Daí no Saorsa a gente gravou tudo em apenas dois dias e meio num ótimo estúdio em Helsinki, e então o engenheiro de som mixou tudo sozinho nos outros dois dias seguintes seguindo as orientações do que basicamente queríamos. Foi um sentimento maravilhoso conseguir terminar tudo tão rápido e estamos muito contentes com isso — a produção ficou poderosa e ainda conta com um impacto de som ao vivo, já que gravamos tudo junto — até os vocais. Os únicos overdubs que colocamos foram os solos de guitarra e os backing vocals. São os melhores sons que já fizemos, então é muito recompensador sair com um resultado plenamente satisfatório — usualmente pinta algo que você sente que poderia ter feito melhor, mas dessa vez ficou, honestamente, o melhor que poderíamos ter feito.

Com relação ao processo anterior à entrada em estúdio, bem, nosso guitarrista criava a maior parte da música e gravava a levada em casa com uma bateria eletrônica. Daí eu pegava os MP3s dessas faixas e usava para adaptar as letras. Ele mora em Berlim, por isso enviava os MP3s pra todo mundo pra galera tirar as músicas. Aí nós fomos pra Berlim fazer alguns shows e aproveitamos pra ensaiar por alguns dias, deixar as músicas redondas. Daí pra frente os shows e as sessões de gravação rolaram de boa. É ótimo ser capaz de trabalhar sem perda de tempo já que andamos muito ocupados ultimamente, então pretendemos fazer tudo igual da próxima vez.

Este novo álbum tem uma proposta, um conceito, ou uma ideia particular que conecta todos os temas e a estética das faixas?
Olha, ele não foi propriamente composto como um álbum conceitual, mas a palavra "Saorsa" significa "Liberdade" em gaélico, e é possível afirmar que, num certo sentido, todas as músicas versam sobre liberdade — sobre nos livrarmos do fascismo, do sexismo, da destruição ambiental, das coerções e numerosos outros sintomas do sistema capitalista que estão arrasando com o planeta — essa é uma temática que conecta todas as músicas.

Vocês acreditam nos princípios anarquistas para a sociedade atual, especialmente em um contexto dominado pelo terror, o hiper-consumismo e a crueldade?
Uma sociedade anarquista seria o ideal dentro daquilo que buscamos, mas essa é uma luta de longo prazo — naturalmente o obstáculo que precisamos transpor é como atingir esse objetivo a partir da nossa brutal sociedade capitalista. Mas vemos que muitas ideias anarquistas já estão sendo absorvidas para uma nova direção. Dava pra ficar aqui trocando ideia por horas sobre esse assunto — basicamente precisamos escrever um livro para responder a essa questão apropriadamente — e algumas pessoas já fizeram isso.

O que vocês acham das ideias de pensadores libertários contemporâneos, como o David Graeber?
Tenho que admitir que David Graeber é um nome novo para mim. Vamos atrás para conhecer.

Dá pra ganhar a vida a partir da cultura underground/punk ou vocês precisam recorrer a "trabalhos comuns"?
[RISOS!] Você tem um ótimo senso de humor! É impossível viver da cultura punk quando você opera num esquema underground e DIY, igual a gente faz. Obviamente algumas bandas punks maiores e comerciais, como o Exploited, conseguem fazer algum dinheiro, mas uma banda pequena como a nossa não tira nenhum centavo de lucro. Não temos grandes selos nos bancando, então pagamos do nosso bolso todos os custos com gravação em estúdio e conseguimos fazer isso com a grana da venda dos próprios discos, quando saem. De vez em quando conseguimos guardar alguma coisa a mais da venda de camisetas, mas acabamos tendo que investir esse lucro em outras coisas, como realizar um vídeo, pagar ensaios e cobrir eventuais gastos que temos nos shows em que não nos pagam o suficiente para cobrir todos os custos com a viagem — algo que acontece com bastante frequência, já que tocamos em muitos eventos beneficentes para levantar fundos para grupos políticos, pedindo só o que puderem dar ou de graça.

Um exemplo: em nossa última turnê europeia, fizemos dez shows por menos de cinco mil euros no total, mas os nossos custos para a turnê, considerando gastos com avião, navio, van e motorista, gasolina e tudo mais, passaram de quatro mil. Então no final acabamos com seiscentos contos de lucro e tivemos que usar tudo para pagar débitos que acumulávamos de outros shows em que perdemos dinheiro. Claro, poderíamos parar de tocar em eventos beneficentes e tentar ingressar em mais festivais comerciais e clubes, e estipular preços mais altos pelos nossos discos... mas não foi pra isso que entramos nessa. Para nós, os meios contraculturais do faça-você-mesmo pelos quais atuamos integram parte da mensagem. Basicamente somos uns quebrados, mesmo que os discos e o merchandising cubram os custos de gravação e alguma turnê.

Ainda que não tenhamos feito um pé de meia nessa história, nos sentimos muito recompensados em conseguir realizar aquilo que tanto amamos e viajar para todos esses lugares malucos e conhecer tanta gente interessante — e comer tanta comida vegana que as pessoas cozinham pra nós! Claro que, pra garantir a sobrevivência, precisamos dar um jeito de levantar dinheiro, então, sim, a galera da banda também trabalha. Um de nós é guia turístico, o outro trabalha com mudanças e o outro trabalha ajudando pessoas com necessidades especiais, por exemplo.

Vocês integram ou apoiam diretamente algum movimento ou causa no momento?
Já tivemos um envolvimento mais forte em todos os tipos de militância, participamos do Anti-Fascist Action, fizemos sabotagens contra a caça, Earth First, além de várias ações diretas e atuações políticas, mas hoje em dia a maioria de nós tem filhos pequenos, então o contexto é um pouco diferente. Não sobra muito tempo. Ainda participamos de algumas coisas, como as ações do Reclaim The Streets, marchas e protestos, além de algumas lutas anti-fascistas, e, é claro, ainda apoiamos muitos grupos e causas com eventos beneficentes e colaborando com músicas em coletâneas para levantamento de fundos, etc. Mas não estamos mais em posição de fazer sabotagens três vezes por semana, coisas assim. Ainda temos as mesmas ideias, só que precisamos nos adaptar às circunstâncias.

Vocês sempre estiveram no controle de tudo relacionado à banda, do merchandising à organização das turnês?
Nós mesmos marcamos as nossas turnês — e até manufaturamos manualmente nossos patches e estampamos produtos como sacolas de pano e camisetas. Também somos nossos próprios gerentes e nunca tivemos um empresário. Nem sempre dá pra manter 100% o controle das coisas, especialmente quando tem gente lá fora querendo te passar a perna. Existem pessoas por aí estampando nossas camisetas sem permissão e fazendo dinheiro com isso, e também já prensaram músicas nossas sem permissão, mas, principalmente quando esse pessoal é de outro país, não há muito o que possamos fazer a respeito.

Aquelas músicas do Oi Polloi que estão disponíveis para streaming em plataformas como o Spotify, por exemplo, foram vocês que postaram ou os direitos pertencem a alguma gravadora?
Nunca postamos nada no Spotify por nossa própria conta, nem mesmo no iTunes, mas sabemos que tem coisa nossa lá, publicada por outras pessoas que nos deram o balão. Foda é que exige um empenho integral para resolver tudo isso. Preferimos pensar que a maioria da galera que curte o nosso som faz questão de nos apoiar diretamente, colando nos shows ou comprando coisas direto de nós ou de alguma distribuidora DIY, ao invés de financiar esses trapaceiros. Somos otimistas por natureza!

O Oi Polloi está no Facebook

Siga o Noisey nas redes: Facebook | SoundCloud | Twitter