Uma seleção de música estranha pra entender o Festival Música Estranha

Tentando fugir um pouco do conceito de "música experimental", o compositor e curador do evento Thiago Cury comenta sete atrações do festival, que acontece até o sábado (26) em São Paulo.

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nov 25 2016, 8:09pm

Kassin + Mitch & Mitch. Foto: Divulgação

A quarta edição do Festival Música Estranha começou nesta quinta-feira (24) e ocupou o espaço JazzNosFundos, na região de Pinheiros (SP), com quatro apresentações de sete artistas diferentes, entre eles a banda francesa da jazz improv/eletroacústica Hubbub. Foi o primeiro dia de shows do festival, que se estende até o sábado (26), espalhando mais de 17 grupos de música "estranha" brasileiros e gringos por vários pontos da cidade de São Paulo.

Idealizado pelo compositor e produtor paulistano Thiago Cury, o Música Estranha nasceu de uma inquietação do curador como artista. "Sempre pendulei minha carreira artística no processo de misturar gêneros musicais. Numa temporada que fiquei na Europa, encontrei esse espaço do que eu chamo de 'música exploratória' e voltei de lá com vontade de fazer um festival que tratasse a questão da música pós-gênero/além do gênero", explicou curador. "Uma parcela do público jovem hoje não quer só ir a um show de rock, com o trio baixo-guitarra-bateria. Ele quer uma experiência mais imersiva. E é isso que o festival vem trazer."

Desde 2013, a ideia principal do evento é "forçar" uma colaboração entre artistas que tenham diferentes históricos de referências musicais. E, ainda por cima, fazer com que esses encontros aconteçam em lugares inesperados. "O festival não tem um quartel general. Ele propõe a saída da música de dentro do teatro para explorar outros lugares. Às vezes, os artistas tocam no chão, ou fazem a apresentação durante percurso, por exemplo", explicou Thiago. Nesse ano, os concertos vão acontecer tanto em lugares mais clássicos, como a Sala Conservatório da Praça das Artes, quanto em lugares mais pop, como a balada Trackers. "A intenção também é fazer com que haja uma mistura dos públicos do festival com os frequentadores desses espaços."

O Thiago chama o festival de "música estranha" justamente para afastar seu o conceito do já desgastado termo "experimental". "De uns tempos pra cá, quando falamos em 'experimental', automaticamente associamos à turma do noise, à música ruidosa, o que acabou restringindo a experiência experimental a um gênero", disse Cury. Segundo ele, o termo 'estranho', que pode se referir a 'estrangeiro' e a 'de fora', vem com a intenção de dar uma provocada na galera. "É que a música estranha/exploratória se refere a artistas que querem construir música nova e diferente, mas não necessariamente ruidosa. Tá mais ligada à improvisação livre e à quebra das barreiras dos gêneros".   

Pra tentar entender o que seria essa "música estranha", eu pedi pro Thiago selecionar uma música de cada artista e explicar mais ou menos a trajetória dele e por que ele se encaixa no line-up do festival. Saca só essa lista abaixo:  

Tatsuya Yoshida (Japão)

É o mais headliner da nossa edição 2016. Faz parte da cena avant-rock japonesa, flertando com a cena punk e com o rock progressivo. Ele fundou o grupo Ruins. "É o polvo humano". Improvisação livre. Colaboração, pela segunda vez, com o grupo polonês LXMP." Muito energético. Flertando com 

LXMP (Polônia) 

Duo (e às vezes trio) formado pelo Macio Moretti e que tem um histórico de coletivos musicais. Flerta com diversos estilos musicais. Já fizeram umas releituras de hits pop, só que sempre trazendo mais elementos e texturas pra essas músicas. Eles são da Polônia, onde a cena de música experimental/improv é muito forte. Os poloneses não tem uma linha mais específica de pop/rock/jazz, eles têm a mistura com o ingrediente fundamental. O LXMP já lançou material em diversas mídias, como cassete, vinil, vinil com corte direto. E eles têm essa filosofia também de ocupar uma cena que não é de teatro. Essa tour que o duo está vindo fazer aqui é de um disco novo que eles vão lançar em 2017 chamado 'Women At Work'. 

Kassin + Mitch & Mitch (Brasil + Polônia)

Mitch & Mitch é outro projeto do Macio Moretti , do LXMP. O Macio já esteve no Brasil diversas vezes e conheceu o produtor carioca Kassin num show na Audio Rebel, há mais ou menos uns três anos. A partir daí, eles começaram a conversar e agora em 2016 os dois estão gravando um disco juntos. E é esse repertório do álbum colaborativo, que mescla referências de canção polonesa com brasileira, que eles estão apresentando no festival. Esse projeto simboliza bem um eixo que o festival busca fomentar, o qual é: dar apoio a muitos artistas que trabalham com música pop e que estão querendo sair um pouco do esquema guitarra-baixo-bateria para fazer algo mais experimental. 

God Pussy (Brasil)

O God Pussy é uma espécie de DJ, só que ele não é exatamente DJ. Ele pilota vários pedais e traz umas ferramentas de serralheria pra experimentar nas músicas, fazendo um som bem ruidoso e noise. Ele é do bairro de Belforte Roxo, na periferia do Rio de Janeiro, e não da Zona Sul ou do Leblon, o que torna mais interessante.

Sequenze (Brasil)

É um projeto de live cinema do Raimo Benedetti, que mistura música clássica contemporânea com cinema. "Sequenze" é o nome de uma obra do Luciano Berio, um compositor italiano importantíssimo da música contemporânea. Então, ele é muito cultuado, mas só dentro desse quadrado fechado na academia. O Raimo, que é um vídeo-artista, trabalha com cinema experimental e conhece muito de música clássica contemporânea, montou uma série de micro-documentários que falam sobre o Berio e a obra "Sequenze". Na verdade, "Sequenze" é um conjunto de pequenas peças para instrumentos solos. Então, o Raimo apresenta (e manipula em tempo real) esses filmes, ao mesmo tempo que artistas tocam as peças do Beri no palco. 

Jessica Rosen (Estados Unidos)

A Jessica vai apresentar o seu show Abrindo Portais, que ocupa um espaço entre performance e música. Ela combina argila, cristais, mantras. Então, tem todo um ritual, uma meditação, cristais, mantra. Junto com a Jessica, vai se apresentar também a curitibana Julia Teles, tocando Theremin e sons eletrônicos pré-gravados. A ideia é criar camadas sonoras que vão se sobrepondo, fazendo com que a sonoridade seja fluida, ritualística e reflexiva.

Michael Schmid (Alemanha)

O Michael é um alemão, que trabalha com música contemporânea experimental, e veio trabalhar com o Al-Rèves, um grupo e selo brasileiro que trabalha com sensores que eles prendem no corpo e com pedais. A gente está propondo um encontro entre eles. Além disso, eles vão também trabalhar uma oficina que está sendo promovida pelo Instituto Goethe de música e módulos de respiração. O Michael é flautista, então ele já explora essa questão da respiração e do sopro. O Al-Rèves também fazem experimentações com voz e "arte vocal".  

Festival Música Estranha 

24/11, quinta-feira
21h > Jessica Rosen e Julia Teles
21h30 > Hubbub
22h15 > Para Leila Khaled
Local: Jazz nos Fundos

25/11, sexta-feira
20h > Ateliê Contemporâneo
20h45 > Sequenze
Local: Praça das Artes – Sala Conservatório

26/11, sábado
16h/18h > Experimentações sonoras para crianças: Improvisação e eletricidade (Sala de Ensaio 2)
18h30 > Prêmio meLAB: editais Música & Política e Mulheres Criadoras (Anexo Adoniran Barbosa e Sala Jardel Filho)
21h > Kassin + Mitch & Mitch (Sala Adoniran Barbosa) Local: Centro Cultural São Paulo
23h30 > DJ Hidráulico apresenta Áudio Insurgência
00h30 > Tatsuya Yoshida + LXMP
01h45 > Maria Beraldo
02h30 > God Pussy (abertura da casa às 23h30) Local: Trackers
*Programação sujeita à alterações sem aviso prévio