Você pode ser fã de um artista com quem não concorda

É possível consumir arte só de pessoas com quem você se identifica política e ideologicamente?

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27 abril 2018, 2:00pm

Em dezembro de 2016, Kanye fez uma visita à Trump Tower que levantou as sobrancelhas de todos os que conheciam o rapper.

O Kanye West, como antes de todo disco novo que tem lançado desde o My Beaufitul Dark Twisted Fantasy, de 2010, está causando no Twitter novamente. Porém, se há uns anos o lance dele era fazer livestreams de mais de uma hora e twittar sobre garrafas de água num avião, dessa vez o Kanye está investindo num jeito não tão carismático de divulgar seu próximo trabalho (que, segundo ele, será lançado no dia 1º de junho): mostrar seu apoio ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Não é a primeira vez que o rapper declara estar do lado de Trump. Em dezembro de 2016, ele fez uma visita à Trump Tower que levantou as sobrancelhas de todos os que conheciam a visão de Kanye sobre assuntos como racismo, desigualdade social e pobreza. Em 2005, o mesmo Kanye criticou o presidente George W. Bush em rede nacional pela sua resposta ao Furacão Katrina, na frase que se tornou o famoso bordão "George Bush doesn't care about black people" ("George Bush não se importa com negros.")

Com essas declarações de Kanye surgindo à tona em tempo recorde, a internet se divide como o Mar Vermelho para tomar uma posição sobre os posicionamentos polêmicos do rapper. O mais comum deles sendo, talvez, o de "como vocês continuam sendo fãs desse cara?" Posicionamento este que surge até dos próprios fãs — que, como reportado, não ficaram nada felizes com os tweets do Kanye.

Mas vamos ser claros aqui. A minha opinião sobre essa questão não é imparcial. Eu sou fã do Kanye West desde os meus 15 anos. Eu acho que todos os álbuns dele são alguns dos melhores das respectivas décadas em que foram lançados. Eu considero ele um dos maiores artistas vivos. Eu tenho a capa do 808's and Heartbreak tatuada no meu braço esquerdo. Dito tudo isso, eu não sou direita. E eu certamente não concordo que o Kanye West apoie um político machista, racista e imperialista como o Donald Trump.

Mas aí é que está: será que eu realmente tenho que concordar?

Um tempo atrás, eu escrevi um texto sobre a polêmica da música "Surubinha de Leve", em que eu formulava uma máxima com a qual ainda concordo com todo o meu coração: as mulheres consumidoras de cultura pop, em geral, têm de balancear o dilema de ter que lidar com o machismo tido como "aceitável" ou "menos agressivo." A essa sentença eu adicionaria que qualquer pessoa ao redor do globo que consome cultura, pop ou não, têm de lidar com outra grande questão discutida extensamente ao longo dos últimos anos: artistas são pessoas.

Pessoas com valores, morais, culturas e criações completamente diferentes das suas. Pessoas que nasceram em outros países, foram criadas de outras maneiras e passaram por experiências que você, talvez, nunca chegue a saber ou compreender. Pessoas com quem se você tivesse que trocar uma ideia no bar, você talvez preferisse ir embora. Pessoas muitas vezes criminosas, assassinas.

Pense de quantos artistas na sua biblioteca do Spotify você nunca ouviu alguma declaração pública ou não faz ideia de suas posições políticas e ideológicas. Isso acontece porque, no fim, o consumo da arte não é um encontro pessoal e profundo com as experiências de um artista em si, e sim com a estetização das mesmas — como aquele artista pega todas aquelas experiências das quais eu nunca ouvi falar, opiniões com as quais eu posso não concordar, e as transforma numa obra de arte que eu aprecio profundamente.

E, claro, o sentimento de identificação pode ser — e é — muito importante no consumo da arte. Talvez principalmente no rap, e talvez principalmente de pessoas negras com artistas negros, ou de mulheres com artistas mulheres. Mas talvez insistir no consumo da arte somente de pessoas com quem nos identificamos em níveis muito pessoais também coloque em xeque o objetivo da fruição da arte (e aqui eu incluo não só a música, mas também o cinema, os games, as artes visuais, e qualquer outro tipo de arte); que, afinal, não foi feita apenas para agradar ou nos segurar na nossa zona de conforto, mas justamente para incomodar e nos tirar das caixinhas em que nós nos colocamos tão frequentemente e, por vezes, sem pensar muito a respeito.

O próprio Kanye tratou desse assunto em alguns tweets:

"Sempre que alguém me diz a palavra 'fã',é de um jeito super manipulador. É tipo 'não diga ou faça isso por causa dos seus fãs.' Meus fãs são fãs deles mesmos."

"E todo fã meu quer que Ye seja Ye mesmo quando eles não concordam, porque eu represento o fato de que eles podem ser eles mesmos mesmo quando as pessoas não concordam com eles."

Kanye pode estar falando besteira quando comenta seu apoio de Trump, mas com esses tweets ele pode estar certo. Ser fã de um artista que dissemina opiniões com as quais você não concorda não necessariamente significa disseminar essas mesmas opiniões, a não ser que você mesmo tome essa decisão. E, por fim, consumir arte que não representa seus posicionamentos políticos e ideológicos quer dizer, no máximo, que você está aberto o bastante para passar por uma experiência estética que esteja fora da sua bolha.

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