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No novo clipe do Senzala Hi-Tech todo baile black tem um pouco de terreiro

O clipe de "Baile da Meia-Noite" foi gravado pelo Instinto Coletivo numa antiga fazenda de escravos.

Eduardo Ribeiro

Eduardo Ribeiro


Foto: divulgação

“Baile da Meia-Noite”, o novo clipe do Senzala Hi-Tech, tirado de seu EP de estreia, recorre a uma bonita mistura de crônica do cotidiano, realismo fantástico e figurinos afro-futuristas para propor um mergulho à ancestralidade negra. Sucessor de “Pegada do Vampiro”, chega com um clima imposto pelos cineastas Gabriel Ribeiro e Ciro Neves, do Instinto Coletivo, que fica no limiar entre o terreiro e a pista de dança. As cenas retratam a cidade de São Paulo como pano de fundo, a exemplo da Avenida Paulista e o Terminal Vila Madalena, mas os takes que impactam rolaram na Fazenda Roseira, em Campinas, interior do estado. O local, que hoje acolhe a Comunidade Jongo Dito Ribeiro, nos idos de 1850 era um ambiente de opressão. Lá, operava uma antiga fazenda de café movida pela escravidão. A casa grande, agora nas mãos dos descendentes escravizados, virou casa de cultura. Segue novos rumos, ditados pela própria comunidade negra, que descobriu sua força e a capacidade de criar narrativas.

A história do lugar inspira o conceito do vídeo, cuja mensagem central é estimular a ocupação do povo preto na cultura e na sociedade, subvertendo os preceitos excludentes que ainda imperam em diferentes esferas. O roteiro abre com o protagonista vivendo um dia comum, tomado pela anestesia da rotina. De repente, ele se vê tomado por uma viagem interna, reflexiva, mística e onírica. Quando retorna da experiência, desperta mais consciente de sua condição. “Depois de abandonada, a Fazenda Roseira deu origem ao bairro de periferia chamado Jardim Roseira”, contextualiza o percussionista Junião. “Mas seu casarão permaneceu intacto e o terreno pertencia à prefeitura. Para barrar o ímpeto imobiliário que estava crescendo na região e preservar o patrimônio histórico, grupos culturais locais e o movimento negro, liderado pelo Grupo do Jongo Dito Ribeiro, ocuparam a sede da fazenda para impedir o desmonte e destruição que já estavam ocorrendo por parte das construtoras.”

Daí que a mobilização conseguiu o tombamento material e imaterial do lugar pelo Iphan, determinando a fazenda como espaço do Jongo Dito Ribeiro. Depois de batalhas judiciais e mobilizações na câmara de vereadores, o pessoal conquistou a licença de uso do espaço junto à prefeitura, e o casarão virou um equipamento de cultura em Campinas. “Eu e o Diogo [Silva, lutador de taekwondo e integrante da banda] frequentamos muito o local, pois somos de Campinas e minha prima, a Alessandra Ribeiro, neta de Dito Ribeiro, refundou o grupo de jongo criado pelo avô e exercia a prática do jongo na casa dela, que fica no Jardim Roseira, antes da ocupação”, conta Junião. Alessandra é atualmente presidente do grupo.

Todo o desenrolar da produção é fruto de um esforço conjunto. Na criação cênica, os bailarinos ficaram livres para se ambientar, criar seus personagens e construir suas coreografias. O mesmo vale para os figurinos, produzidos pela Daniele Arruda. “Procuramos colocar as pessoas negras nos postos chaves: diretor negro, atores negros, músicos negros, para contar uma história do povo negro”, observa o percussionista. As referências estéticas, por sua vez, foram as mais variadas, segundo o músico: “Os brainstorms para construir o enredo começavam nos clipes vibrantes e psicodélicos do Flying Lotus, passavam pelo nosso misticismo e caldeirão cultural afrobrazuca, e chegavam nos filmes de Matrix. Uma mescla da nossa vontade de fazer as coisas, vontade black power, cultura urbana, de terreiro, atitude punk, baile black e demais afrociberdelias. A gente não se preocupou em ficar no chão não.”

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