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As bandas brasileiras de minas estão sendo compiladas numa só lista

Nanda Loureiro, Hannah Carvalho e Letícia Tomás estão colocando “all girls to the front”.

Amanda Cavalcanti

Amanda Cavalcanti

Rakta.

Parece que, de uns anos pra cá, vivemos num paradoxo quanto à presença feminina na música. Todo mundo está cansado de saber que as mulheres são, em grande parte, menosprezadas (ou completamente excluídas) nos espaços que dizem respeito à música ou arte no geral, de grupos no Facebook a lineups de festivais. Me lembro de uma passagem no livro da Kim Gordon, A Garota da Banda, em que ela comenta que sentia como se o papel dos homens — os trangressores — no mundo era o de pensar pra fora da caixa, inovar; enquanto o das mulheres — as contidas, cuidadosas — era o de zelar pelo mundo como ele é, não perder o controle. E assim a baixista do Sonic Youth conclui que o pensamento comum seria de que a arte, por ser inerentemente transgressora, não é coisa de mulher.

Todo mundo sabe que isso é preconceituoso, certo? Por isso nunca é demais falar sobre a inclusão de mulheres nos festivais, ou reportar os protestos contra os abusos que as mulheres sofrem nesse meio, assim como é fácil entender por que repercutem tanto alguns tweets da Grimes e a entrevista da Björk à Pitchfork. No entanto, parece que a tão almejada inclusão acontece, ainda, só da boca pra fora. E não apenas nos grandes meios, como também nos pequenos.

Posso falar por mim mesma e pelos rolês que frequento: apesar de estar envolvida com uma parte da cena de rock independente de São Paulo, é relativamente raro que eu veja uma mina subir no palco pra tocar, ou mesmo veja o som de alguma delas ser lançado por um selo popular entre a meninada. As minas Nanda Loureiro, dona do selo Banana Records, Hannah Carvalho e Letícia Tomás, ambas da produtora Trama, notaram a mesma coisa nos rolês delas (em Fortaleza/Recife) e resolveram tomar uma atitude sobre.

Com a ajuda de uma divulgação em alguns grupos de música no Facebook, as três começaram a compilar uma lista de bandas e projetos só de minas, ou com pelo menos uma mina, espalhadas pelo Brasil inteiro. “Nós sempre ouvimos que falta mulheres na cena, mas a lista já conta com quase cem bandas! Queremos dizer pra todos que sim, existem mulheres na cena e não são poucas”, comenta Nanda.


Ema Stoned, por Rodrigo Gianesi/Indie.Art.

A lista começou com uma ajudinha da discussão que rolou no grupo do selo Sinewave sobre a tal da cena denominada ironicamente (ou não, ainda não consegui descobrir) de “rock triste”, em que o desdém pelas mulheres foi apontado veemente em alguns comentários, mas desconsiderada por muitos dos caras. “Nós estamos com a ideia faz um tempão, na verdade, mas nunca botávamos pra frente. Aquela discussão foi um ‘empurrão’”, conta Nanda. “A lista deixa bem claro que o discurso de que não existe mulher nesse meio é errado, serve para que as pessoas conheçam trabalhos lindissimos e é uma lista imensa para que os produtores tenham um norte na hora de procurar ótimas bandas femininas.”

A lista também é útil para as próprias Nanda, Hannah e Letícia, que constantemente organizam e produzem shows e festivais lá pelo Nordeste. Apesar de ter começado como uma lista apenas de bandas de shoegaze, hardcore e emo, a proposta da lista já se expandiu: “Queríamos fazer algo da cena que fazemos parte, mas, no final das contas, não ficou restrito apenas a esses gêneros; já colocamos até metal e eletrônico”, diz Nanda.

A lista não pode ser editada diretamente, então, se tiver alguma contribuição, você pode mandar um inbox para a Banana Records ou Trama e deixar que as minas editem.

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