Orgulho Cismado: A Criação do Afropopfuturismo Brasileiro em ‘Corpura’, Novo Disco do Aláfia

Por que o recém lançado disco da banda paulistana é uma obra-prima da música negra contemporânea.

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11 setembro 2015, 4:01pm


Da esquerda para direita: Jairo Pereira, Eduardo Brechó, Gabriel Catanzaro, Lucas Cirillo, Fábio Leandro, Xênia França e Alysson Bruno.Todas as fotos por Guilherme Santana.

Atrás da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos uma ama de leite alimenta seu menino, também negro. A estátua da Mãe Preta, um dos mais conhecidos marcos da cultura negra na cidade de São Paulo, está lá há 60 anos sob o desinteresse diário de milhares de pessoas no Largo do Paissandu, no centro. O verso de Ciro Costa rasga o mármore. “Mãe Preta: na escravidão do amor a criar filhos alheios, rasga, qual pelicano, as maternais entranhas e deu à Pátria livre, em holocausto, os seios”. E diante da matriarca estão posados Eduardo Brechó, Xênia França, Jairo Pereira, Lucas Cirillo, Alysson Bruno , Gabriel Catanzaro e Fábio Leandro, sete dos 11 integrantes do Aláfia. Completam o grupo Gil Duarte, Pipo Pegoraro e Filipe Gomes.

Na tarde da última terça (8), ainda no bode do feriado e debaixo de raios, trovões e uma chuvona pesada que ia e vinha, encontramos a trupe do Aláfia na Praça das Artes, ali pelo Anhangabaú. A foto diante da figura da Mãe Preta, na real, foi sugerida ali na hora, até meio por conveniência. E é impossível não ver nessa quase-coincidência algo de poético e que representa de alguma forma o que o Aláfia é, faz, pensa e simboliza. Uma sucessão de fatos e imagens que são um símile do que é ser hoje no Brasil um artista negro sem medo de ser nem negro, nem pop, nem crítico. MUITO crítico.

Mas esse resumo petulantemente literário não dá nem 10% da ideia da banda. Pra começar, Aláfia significa, em Iorubá capenga, que vai dar tudo certo, que os caminhos estarão livres. “Essa palavra veio até nós pelo candomblé. Lá quando a gente confirma alguma coisa falamos aláfia. Um dos resultados do jogo de búzios, o odu de felicidade, de prosperidade, de que você vai conseguir realizar o que você quer se chama aláfia também”, explica Eduardo Brechó, um dos três cantores do grupo.

Para o Aláfia, esse caminho começou a ser trilhado há quatro anos, com a criação da banda, e que teve sua primeira mão de ladrilhos no primeiro e auto-entitulado disco, lançado em 2013. As questões que o grupo levantou nesse trabalho já eram quentes, mas algo ainda faltava, por que sobrava — apontava para muitos lados e no máximo divisor comum, acabou soando muito nova MPB. Mas o espectro que rondava toda a América, a nova consciência afro histórica que é ordem do dia hoje, ficava cada vez menos cinza, graças à tomada do pop pelo hip-hop com Emicida, Criolo, à forte militância negra online, a redescoberta do afrobeat pelo circuito universitário classe média, ao relativo fracasso das eternas promessas da tal nova MPB, as Jornadas de Junho, as rearticulações do movimento negros em diversas partes do Brasil e mais um monte de coisa. O tal espectro foi ganhado corpo e cor: preta.

“A gente faz parte do som que o Pharrell (Williams) tá fazendo, mas é muito diferente. Mas se você pegar na essência ele escolheu usar timbres eletrônicos em tal lugar, nós escolhemos outros, mas é um caldo que vem da mesma panela”, conta Brechó. O que para os mais antigos (racistas? roqueiros?) pode soar como uma incongruência artística — o lance de ser militante e pop ao mesmo tempo — é na verdade, justamente o pulo do gato do nosso tempo: a militância É O POP, e o Aláfia sabe disso. Tanto que o disco conseguiu apoio financeiro da Natura via edital.

“A gente não recusa esse rótulo do pop, porque as nossas maiores influências são do pop. Todos os nomes que a gente cita são nomes que venderam um milhão de cópias.” E para falar de negros orgulhosos que já incomodaram muito em sua época, e que fizeram som a frente de seu tempo, eles enumeram algumas dessas inspirações como James Brown, Jimi Hendrix, Michael Jackson, Marvin Gaye, Stevie Wonder… só os caras que venderam pouquinho disco. “‘Salve Geral’ foi nosso primeiro single. Ela foi uma escolha pop? Pode ser e pode não ser. Há necessidade de ouvir aquilo agora. ‘Decapitaremos o seu capitão’ é uma mensagem que tem um apelo pop, mas musicalmente poderia ser ‘Corpura’, ‘Primeira do Ano’ ou outras músicas do disco que estão mais enquadradas nos clichês do rádio”, explica Brechó. E note, não tem pudor nem perdão, Corpura tem clichê de rádio também, mas não só.

Talvez possamos entender esse papo de “clichê de rádio” como uma preocupação especial com a parte técnica do disco, a produção, o som mesmo. Quem assina esse trabalho, ao lado de Eduardo Brechó, é o Alê Siqueira, responsável por produções com Caetano Veloso, Elza Soares, Ana Carolina, Tom Zé e talvez o mais chiclete de todos os discos brasileiros, o encontro de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, no álbum Tribalistas, de 2002. Foram mais de dois milhões de cópias. Porém, a experiência de Alê vai para muito além disso.

Formado em composição e regência pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), ele trouxe o pop, o erudito, mas trouxe ainda mais. Ele é um grande conhecedor das matrizes musicais africanas. “A escolha do Alê Siqueira como produtor contribui pra gente acessar esteticamente esses lugares que não estávamos acessando no primeiro disco sozinhos”, explica o gaitista Lucas Cirillo. “Ele surpreendeu a gente. Eu sei que ele foi o cara que fez o Tribalistas, mas ele foi o cara que mais gravou terreiros no Brasil, é o cara que produziu o quinteto do Letieres (Leite). Ele tava muito ligado à tradição de gravar tambor, ele sabe gravar tambor, ele ouve as vozes dos tambores. Ele conhece as claves dos toques”, conclui Brechó.

A união de um bom produtor e um grupo que sabia muito bem onde queria chegar resultou num disco cheio de ouros. O cuidado na produção e a consciência musical fizeram de Corpura um dos melhores lançamentos de 2015, pelo menos até agora. Em produção desde o final do ano passado, o grupo mergulhou no universo do funk e do soul, estudou a disco e pesquisou demais o pop. Sua base, diferente de grande parte da MPB, foi feito a partir do teclado e os músicos tocam os mesmos instrumentos da primeira à décima primeira faixa, “sem mudança de timbre no disco” como explica Brechó. Tem espaço para todas as vozes. Xênia chega linda em “Primeira do Ano” e “Nada Importante”, que parece saída de um disco do final dos anos 1970 do Caetano. Jairo Pereira chega pesadão em “Oxotokanxoxô e Uiratupã” e “Preto Cismado”, que lançamos com exclusividade aqui no Noisey, e Eduardo Brechó se destaca com “Proteja Seu Quilombo”, mas o bagulho fica ainda mais doido em canções como “Corpura”, “Adinkras” e na já clássica “Salve Geral”. “No primeiro disco a voz tava na base. Agora decidimos destacá-la um pouco mais. Isso também é uma decisão política”, conta Brechó.

O disco completo está disponível em todas as plataformas digitais e também aqui:

A estética preta e o cuidado com a produção já estava no primeiro disco, mas agora ele é muito mais nítido. Da primeira foto de divulgação, na casa da mãe do Eduardo Brechó em Ribeirão Preto, até o último acorde de Corpura, essa preocupação mapeia todo o trabalho — nada está ali por acaso. É no pop que ela desagua, mas até chegar lá tem muita teoria, muito estudo e muitas camadas a se decifrar. Uma delas é a ordem das músicas, que respeitam o xirê, a convocação dos orixás no candomblé. A primeira canção, “Salve Geral”, representa Exú e uma faixa após a outra traz, seja nas claves da percussão ou no discurso, características desses orixás. “É necessário esmiuçar. Vai ter gente que vai escutar “Preto Cismado” e vai se ater só à letra. Vai ficar naquele papo de que essa letra é foda, estamos vivendo isso aqui, eu quero ir lá e dar um tiro em todo mundo e ela nem vai perceber o que tá rolando embaixo. E já é legal pra caramba, porque ela já se conectou”, conta Xênia França, uma das cantoras e única mulher da banda.

Justamente, entre a base cosmológica da religião africana e as letras pesadas, fica uma outra importante chave alafiana: pela primeira vez no novo pop do Brasil, alguém consegue efetivamente introduzir as questões do afrofuturismo com a profundidade devida. Na gringa, e especialmente nos círculos mais comprometidos com as origens da música eletrônica, o tema do afrofuturismo tem sido recorrente pelo menos desde os anos 70, como forma de demonstrar que há uma ligação espiritual entre o passado, o presente e o futuro do negro. Em Corpura, a banda consegue deixar ainda mais forte esse cordão de prata artístico, dando linha na pipa da tradição musical negra americana (América continente, não EUA). Uma fala compridona do Brechó versa muito melhor do que a gente sobre como a banda aborda esse lance:


Eduardo Brechó.

“A gente não colocou o afrofuturismo na cara do trabalho, mas é uma coisa que a gente fala sobre direto. A partir do George Clinton eu mergulhei nisso. Como já dizia o Paulo Sérgio Valle, “O futuro já começou”. Nos anos 70 eles queriam fazer a música do futuro. Nos anos 50 ele já começou a ser pensado.”

“O Sun Ra passou o afrofuturismo pro Coltrane. O Coltrane passou o afrofuturismo pro Archie Shepp. O Archie Shepp passou o afrofuturismo pra nós. O Sun Ra passou o afrofuturismo pro George Clinton. O Sly Stone, mesmo não tendo ligação direta com isso, viu no Jimi Hendrix o futuro. O Miles Davis viu no Jimi Hendrix o futuro. O Miles Davis foi afrofuturista. O Herbie Hancock é afrofuturista, ele é engenheiro. O Stevie Wonder é afrofuturista. Eles são afrofuturistas de formação e de ofício. São pessoas que estão trabalhando pro afrofuturismo, eles estão trabalhando ligados às pirâmides do Egito, eles estão pensando no tamanho daquela obra pra fazer sua obra aqui.”


Xênia França.

“O Jorge Ben é afrofuturista, cara. Na obra dele você percebe essa ligação cósmica de passado e futuro ligado ao negro. Como protagonista negro de falar de Sâo Tomás de Aquino, falar de Jorge da Capadócia, falar que os deuses eram astronautas, de alquimia, de ser um cavaleiro atemporal. O Flamengo está na galáxia, o meu Fusca, o Médici e o Caetano Veloso estão na galáxia. Gilberto Gil, Tim Maia, Milton Nascimento, o próprio Dorival Caymmi. Eles são afrofuturistas.”

“O afrofuturismo chegou ao Brasil através da estética. As pessoas querem passar o afrofuturismo através da estética e somente pela estética, o que é massa também. É necessário que a gente tenha personagens negros com esse poder até meio de deuses, que não são daqui e tal. Mas conceitualmente é necessário estudar esse assunto. Não tem só a ver com a matéria”, critica Xênia. Quer dizer, não basta o visual, tem de haver algo mais entre o céu e a terra para que esse discurso se torne pleno.


Jairo Pereira.

Essa disciplina toda, um lance até meio nerd, com que eles encaram o assunto é um diferencial precioso. Um novo respiro intelectual e de energia (raiva mesmo, vingança histórica) para essa zona cinza que existe hoje entre o rap nacional, MPB, as heranças culturais de Detroit-Chicago-Atlanta e o samba da Vila Madalena. Um forte chute na bunda da ideia do negro da casa grande, no conformismo disfarçado de humildade que sempre tem um jeito malicioso de permear todas as relações sociais, não só entre brancos e negros. E a frase mágica aqui, para abrir o portal de um novo momento na música negra do Brasil, é Orgulho com Cuidado.

A banda olha pra frente, mas sabe muito bem que o jogo está só começando. Olha o que o Brechó fala: “Esse não é o nosso gol. Nós estamos tocando a bola ainda, fizemos uma bela jogada. Ainda há o peso do revés, sacou? Estamos mais orgulhosos, mais confiantes, mas ainda temos cuidado. Não nos submeteremos mais, por convicção, mas não vamos nos colocar por cima da carne seca. Por dentro ainda existem traumas a serem superados. Que as próximas gerações sejam orgulhosas.”

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