Na Margem da Margem: Quão Inclusivo É o Funk para uma MC Transgênero?

MCs falam sobre como o funk pode ser a única porta de entrada para o sucesso quando se é uma artista trans.

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set 21 2015, 3:28pm

Recentemente, a ONU anunciou 17 metas globais para os próximos 15 anos. A meta pro Brasil é Redução das Desigualdades. Inspirados por isso, pensamos numa série de matérias pra VICE, Noisey, Thump e Motherboard. Clique no link acima pra sacar todas.


MC Trans. Foto via Facebook da artista.

Quando a dançarina e comediante Lacraia e o MC Serginho começaram a estourar nos palcos no começo dos anos 2000, a caminhada de direitos da comunidade LGBTT ainda era tímida e pouco se falava em discutir gênero no meio do entretenimento. Embora o som “Eguinha Pocotó” tenha sido um grande sucesso, permitindo que Lacraia fizesse inúmeras participações em programas da televisão brasileira, o único espaço permitido para qualquer pessoa LGBTT era a comédia, normalmente fazendo piada sobre sua “condição”. As poucas referências que existiam na época era a transformista Jorge Lafonde, conhecida como Vera Verão, e Roberta Close, uma das primeiras transexuais famosa a ser chamada pelo pronome feminino.

Os anos se passaram e o Brasil ainda deve muito aos transexuais – somos o país onde mais se mata transgêneros, onde a expectativa de vida dessas pessoas não passa dos 35 anos – mas o funk, com ajuda da internet, vem sendo o lugar em que as mulheres trans encontram espaço para explorar seus talentos e construir uma carreira. A dançarina Lacraia abriu caminho para cantoras de sucesso no meio, como MC Trans, Mulher Pepita, MC Xuxú, Mulher Banana e MC Beyonda. Se por um lado o preconceito dificulta a aceitação, foi também a permissividade do funk para falar de sexo que abriu espaço para a discussão de gênero e orientação sexual. É no funk que essas mulheres trans conseguiram ocupar um lugar inclusivo, e não marginalizado, na sociedade. Conheça a história dessas MCs:

"Sofri tanto que a felicidade me assusta"

Camila Monforte, de 27 anos, ganhou destaque como MC Transnitta. Mas a associação com a cantora Anitta ficou para trás, e, com músicas como “Para Menino” e “Brilho Não É pra Todas”, ela faz sucesso como MC Trans. "Quando um cara ouve a minha música, ele não sabe que eu sou travesti. Então o meu produtor falou: 'Bota MC Trans pra você representar essa classe, quem contratar vai saber o que tá levando'. E foi uma estratégia de marketing maravilhosa. Minha agenda tá muito boa, eu lancei uma música recentemente e foi distribuída por todo o Brasil", comemora. "Eu não sou Transnitta, eu sou MC Trans".

Uma vitória recente, Camila consegue sustentar a família dela inteira só com o dinheiro que ganha do funk, e afirma que o maior objetivo de sua carreira é conseguir gerar empregabilidade para outras travestis. "Quero chegar num patamar em que eu possa contratar uma produtora trans, uma cabeleireira trans, dar emprego pra essas meninas".

Nascida no Complexo do Alemão, Camila não pretende sair de lá, principalmente pela maneira que é tratada na comunidade. "Não existe a palavra travesti, não existe o estigma aqui. Saio de mão dada com meu marido e ninguém fala que ele está comendo viado", afirma com orgulho. Já quando tem que sair de sua área, o tratamento muda. "Quando faço show em Copacabana e saio na frente da boate pra entrar no carro, sempre para uma carro do lado e pergunta 'quanto é o programa?'. Nas favelas isso não acontece."

MC Trans foi expulsa de casa por seus tios aos 16 anos e passou a ser moradora de rua na Central do Brasil, Rio de Janeiro. “Foi lá que eu conheci o funk. A rua é muito marginalizada e o que mais se ouvia nos barzinhos e máquinas de música é rap e funk”. A cantora de 27 está há quatro fora das ruas, onde foi agredida. "Sofri tanto que a felicidade me assusta".

Camila tem um filho adotado de 19 anos e se indigna com a reação das pessoas ao saber disso. "Me incomodo muito quando apresento ele como meu filho e todo mundo faz uma lista de questionamentos. Eu construí uma família. E não é o sexo que constrói isso, é o amor. Até porque, as crianças que a gente adota, foram abandonadas por uma mulher hétero", finaliza.

"Minhas letras são minhas munições"


Mulher Banana. Foto via Facebook da artista.

A transexual Julyanna Barbosa começou em uma rádio carioca, fazendo paródias de grandes sucessos no funk. O sucesso foi tanto que os ouvintes da rádio ligavam pedindo a versão dela em vez das originais. Ela então criou o nome artístico de Garota X (“porque sempre fui muito fã da Xuxa”) e descolou uma oportunidade de poder se apresentar em 2003 no Furacão 2000, um dos espaços mais importantes do funk carioca.

Ela se apresentou vestida com uma fantasia de colegial, e o público começou a tacar latinhas no palco em represália. “Ainda era [um público] muito preconceituoso”, lembra. “Porém costumo falar que a arma é meu microfone e minhas letras são minhas munições, então cantei a favor da galera GLS.”

Com a febre das mulheres frutas, Julyanna escreveu uma música chamada “Mulher Banana”, que lhe rendeu praticamente um segundo nome artístico e mais sucesso no meio. “A pessoa passa muitas dificuldades no funk, é um caminho meio torto para ser cantor. É um modo de uma pessoa ser reconhecida que não teve oportunidades de cantar, aprender a tocar um instrumento”. Além de ser MC, ela conta que também é comediante em paralelo, mas travou essa parte por causa do funk.

“Quero usar meu nome para fazer o bem”, conta Julyanna. “Nunca precisei me prostituir, mas fico feliz que o funk está ajudando as trans e travestis a saírem das ruas.” A Garota X foi essencial para que muitas travestis e transexuais começassem a sentir confiantes a subir nos palcos e apresentar seu trabalho, mas a funkeira ainda lamenta que muitas amigas ainda estejam em situações marginalizadas. “Se eu pudesse compraria uma firma de telemarketing para dar emprego para todas as gay”, brinca.

"Não sou a primeira"


MC Xuxú. Foto via Facebook da artista.

Fora do circuito carioca, quem começou a chamar atenção foi Carol Viera, conhecida como MC Xuxú. Nascida em Juiz de Fora, Minas Gerais, ela começou na música fazendo rap, mas mudou para o funk após passar dois anos em Jacarepaguá, onde conheceu vários MCs do estilo.

Tanto o rap quanto o funk são meios bastante maculados pelo machismo, mas para Carol não teve muita diferença. “Embora pareça que o funk é mais pesado, foi a mesma coisa. Sempre passei por dificuldades e tive que passar por cima delas”. Apesar disso, Carol diz que sempre se sentiu bem recebida desde sua primeira apresentação como cantora.

MC Xuxú escreve músicas dedicadas à sua vivência como travesti e também à comunidade LGBTT. A faixa “Um Beijo” já passou da marca de um milhão de acessos e os clipes são todos muito bem produzidas, inspiradas em artistas internacionais como Nicky Minaj e Beyoncé. Mas, para chegar ao sucesso, o caminho que ela teve que percorrer não foi fácil.

“Sou negra, aí descobri quando era mais nova que era gay. Depois descobri que era trans e ainda por cima gostava de funk, que também é um ritmo bastante oprimido. Fui oprimida porque eu sou negra, sou oprimida porque sou funkeira, e fui oprimida porque era pobre, puta e também agora porque sou travesti”, conta.

Apesar do sucesso, Xuxú prefere não ser chamada de influência no meio. “Eu não sou a primeira, veio a Lacraia antes e a Vera Verão e vieram pessoas no funk antes. Sei que abri espaço e sei que sou influência hoje para algumas pessoas que estão começando agora, mas essas pessoas também vão ser exemplo para as próximas gerações.”

“Não sou uma perna, sou uma cantora"


Mulher Pepita. Foto via Facebook da artista.

Com 25 anos de idade e nascida no bairro carioca Marechal Hermes, Priscilla Nogueira representa essa nova geração de inclusão de trans e travestis no funk. Sua personagem, como ela mesma define, a Mulher Pepita lançou seu primeiro EP Grandona pra Caralho este ano, conseguindo uma boa repercussão no meio musical.

Um dos seus primeiros hits, “Estou à Procura de um Homem”, mostra que o foco da travesti é falar sobre sarração e putaria, assim como Valesca Popozuda, uma de suas maiores inspirações. Além disso, a Mulher Pepita canta sobre como os homens amam as travestis às escondidas.

“Os homens vêm do pagode, vêm do bar, vêm de uma festinha e procuram as travestis para uma mamada. Então por que depois de eu te dar uma mamada você vem me julgar? Então você é mais sujo do que eu e mais escroto do que eu”, critica Priscila.

Ela adora malhar e tem orgulho de ser uma travesti saradona. “Eu sou grandona pra caralho, né? Recebo muita cantada, de homem e de mulher, mas sou muito envergonhada fora dos palcos”, confidencia. Porém a funkeira não gosta quando o público enxerga só o seu corpo e não sua música. “Não sou uma perna, sou uma cantora.”

Pepita fala com seus fãs “24 horas por dia”, e aprendeu a diferenciar quem é fã de verdade e quem está falando com ela só pelo deboche. “Entrei no mundo do funk para mostrar que sapatão, viado e trans merecem respeito”, afirma.

Ela diz ter sido muito bem recebida no funk, especialmente no meio hétero. “Me senti muito bem aceita, nunca fui julgada, nunca levei coió, nunca fui apontada. Alguns diziam que eu seria difícil de aturar. É um meio muito desunido, existem algumas trans que vêm problema em mim.”

Ladra de maridos


MC Beyonda. Foto: arquivo pessoal.

A história da travesti Gleyce Marinne no funk começa dentro da prisão. Quando se assumiu como travesti, ela foi trabalhar como prostituta. Um estrangeiro foi roubado no ponto onde fazia programas e, no meio da confusão, ela foi acusada de participar do assalto e condenada a cumprir pena. "Usei esse tempo em que fiquei presa para compor, fazer funk", diz a cantora de 27 anos. Lá dentro, MC Beyonda afirma que não sofreu preconceito por parte dos presos, "só por parte dos policiais mesmo. Eles cortam nosso cabelo, tratam a gente como homem. Isso deixa a gente constrangida".

Assim que foi solta, Gleyce, já como MC Beyonda. gravou uma das músicas que fez durante o encarceramento, "Bumbum Quer Respirar". Apesar da carreira em ascensão, o pouco espaço dado para as mulheres trans pela grande mídia no funk a incomoda. Gleyce também afirma sentir dificuldades para encontrar pessoas interessadas em ajudá-la em seu trabalho. "Eu tô sozinha no mundo do funk, não tenho empresário, nem produtor. A única pessoa que me ajuda é a MC Trans", conta a cantora.

Auto-denominada líder das amantes trans, MC Beyonda quer ser um ícone para as mulheres transgênero que curtem roubar maridos. "Na minha música, eu canto pras recalcadas e pras fiéis. Sou abusada, elas têm que me aturar". Apesar de ainda não conseguir viver somente com a grana que tira do funk, ela segue fazendo shows e a firmando parcerias com funkeiras como a MC Katia, da Furacão 2000, que deu uma força na gravação de sua música mais recente, “Vou Roubar Seu Marido”.

Competição

A desunião e a competição da comunidade trans no funk foi uma dos assuntos mais levantados pelas entrevistadas. Ao mesmo tempo em que quase todas indicaram outra funkeira trans ou travesti para participar da reportagem, muitas também apontaram um preconceito incubado dentro da própria comunidade.

“Eu aceito um hétero apontar o dedo para mim, mas não aceito uma gay apontar para mim e me julgar. Elas vivem no mesmo meio que eu. Hoje eu sou travesti, mas já fui gay também e depois me identifiquei como trans”, reclama Mulher Pepita.

A Mulher Banana também reconhece a competitividade das trans no meio, desde quem está aparecendo na televisão sem citar outras MCs até quem fez a maior prótese de silicone. “Fico muito feliz de ter facilitado, mas ao mesmo tempo não é uma classe muito unida. Ninguém se ajuda. Fica uma xoxando a outra e não agradece ninguém. É chato, mas fico feliz que elas tenham essa oportunidade também”.

A funkeira relembra da sua amizade com a Lacraia no começo da carreira. “Ela não tinha essa coisa de competição. Me ajudava, pedia pro empresário dela conseguir show pra mim. Se não fosse pela Lacraia, o funk não seria o que é hoje.”

A MC Xuxú também engrossa o coro de como essa competição acaba sendo prejudicial para o espaço das meninas. “Além de ser transfóbica, acaba sendo machista também. Eu me considero também uma pessoa feminista então nunca vou falar que não tem espaço, que o brilho é só meu. Fiz a música ‘Maldiva’ pensando nisso, em vez de ficar brigando entre si, vamos brigar com o verdadeiro inimigo.”

Apesar de cada funkeira relatar uma briga diferente com uma MC ou outra artista trans do meio, um sentimento de orgulho sai da boca de cada uma ao dizer que hoje o estilo está aos poucos mais dominado pelas transgêneros. E, se as trans devem ao funk, o funk também deve muito às trans.