Entrevistas

Tá Faltando Rasterinha Aí? Então Ouça o Novo EP do Munchi

Após ter pirado no som da rasterinha, o produtor holandês se trancou no quarto e só saiu de lá com o seu novo EP.

Renato Martins

Renato Martins

Rajiv Münch, aka Munchi

A rasterinha, o novo subgênero do funk carioca que você conheceu aqui no Noisey, tomou de assalto o traseiro da imprensa musical, com direito a citação n’O Globo e parceria entre Comrade e o carioca Omulu, em “O Bagulho É Doido”.

A batida desacelerada fez com que os produtores pudessem experimentar ainda mais sobre as rimas do funk. Mas mesmo com o hype, a discussão pela eliminação do termo “rasterinha”da Wikipédia segue forte. Coisas do funk.

Fechando fortemente com a firma, o produtor holândes Munchi se entregou totalmente à rasterinha. Em uma conversa rápida, ele contou que depois de ouvir algumas faixas do estilo, se trancou no quarto por um fim de semana inteiro e, ao abrir a janela na segunda-feira, tinha um EP semi-pronto. Ele só teve tempo de avisar ao mundo sobre isso e foi finalmente dormir. Foi ai que eu tive que falar com ele para entender como alguém se apaixona tão facilmente por um som tão novo?

Confira o EP do cabeludo que influenciou a comunidade global com as suas produções de reggaeton, moonbahton e funk e que agora aposta e celebra o novo ritmo.

Noisey: Munchi, conta aí como foi a sua reação ao ouvir a rasterinha ?
Munchi: Eu já tinha escutado a música do Mc Tipocki, mas se eu não tivesse ficado sem internet outro dia, eu realmente não teria prestado tanta atenção na música. Depois, quando falei com o Omulu e o Comrade, nós conversamos sobre isso e eles me mostraram a música do Mc Romântico. PORRA! O fato de que o funk desacelerou para cerca de 96 bpm, que é o mesmo o bpm do reggaeton , foi muito legal. Tipo, eu sei que houve algumas experiências anteriores em misturar o reggeaton e o funk pelos próprios produtores do funk, e que havia artistas como Senhores Cafetões fazendo reggaeton em português, com referências sutis ao funk, numa levada de cantar funk mesmo (como em "Ela Quer Dancar' ). Mas não havia um som "novo", 100% Funk - isso explodiu minha mente! Esse som é tão minimalista e foi direto ao ponto.

Eu estou muito ansioso para ouvir todas as variações que vão aparecer, especialmente as mais pesadas. Aliás, eu tenho feito um monte de sons pesados, já antecipando essa tendência também (risos). O funk tem sido uma grande influência nas minhas músicas e eu sempre tentei incorporar os ritmos do funk em tudo, inclusive no moombahton. Em "La Brasileña Ta Montão" você consegue ouvir essa influência. Eu fiz uma porrada de moombahtond baseados no funk para usar em 108 bpm , por isso foi um verdadeiro passo óbvio para começar a criar rasterinhas. A única diferença é que agora o 96 bpm é realmente do funk, em vez do funk ser inspirado em sons a 108 bpm. Eu acho que você consegue imaginar a emoção que eu senti (risos).

Como é o processo criativo para produzir suas músicas?
Isso varia. Às vezes eu fico trabalhando a mesma música por muito tempo, tentando entrar na vibe certa para termina-la. Às vezes eu acabo logo depois de começar. Com a rasterinha aconteceu isso, logo depois de ouvir a música do Mc Romântico eu comecei a produzir. Se é um gênero que eu não estou familiarizado, eu tento aprender tudo sobre o assunto e tento entender os elementos do gênero, para logo em seguida misturar com as paradas que são minhas influências ou apenas mantê-las fieis ao gênero. A diferença no projeto da rasterinha foi que, antes de começar, eu já manjava bem sobre como produzir esse gênero, já tinha estudado muito o funk. Assim, a única mudança de direção foi que, como eu uso o mesmo programa que a maioria dos produtores de funk usam (o Acid Pro) eu usaria alguns dos mesmos métodos de produção dos funkeiros para manter o som mais cru. E como que eu tenho escutado um monte de sons psicodélicos e lo-fi , eu aproveitei e incorporei algumas dessas influências também. Além disso, havia duas faixas brasileiras, em especial, que eu sempre quis remixar. Uma delas eu já fiz, na música “Gracias”(com o sample da Beth Carvalho) e a outra finalmente tornou-se possível na forma de “O Pernambulante”. Eu já tinha tentando de diversas maneiras , mas nunca deu certo. Agora, produzindo na base da rasterinha, funcionou instantaneamente. Estou muito grato porque, em particular, isso se tornou possível.

Tem algum som que te ajuda a entrar no clima da cultura brasileira?
Desde que eu comecei a ouvir o funk, eu acostumei a cantar a batida (tipo fazendo um beatbox) ou cantar a base do funk, meio que enquanto ouvia as outras músicas. Depois que eu vi algumas apresentações ao vivo e vídeos de funk, percebi que isso era muito comum entre os funkeiros. Um deles fazia a batida e outro rimava por cima. Depois de um tempo isso se tornou um dos formatos do gênero, o tamborzinho -- batida do funk feita com a boca -- que já evoluiu para inúmeras variações impressionantes também. Este tipo de batida que eles criaram continua evoluindo enquanto conversamos, é uma evolução constante.

Além disso, o senso rítmico que os brasileiros tem e a influência melódica são inspiradores. É como se estivesse no sangue, e tem um sentido muito próprio. E tem todos esses diferentes tipos de batidas, do tamborzão e de atabaques, e que soam tão diferentes, mas ainda sim passam a mesma sensação. Assim como no reggaeton dos Senhores Cafetões que, obviamente é um reggaeton, mas mesmo nesse caso, você percebe que é um reggaeton brasileiro. Isso é uma grande qualidade de se ter, ser capaz de fazer umas paradas diferentes e, ainda assim, continuar fiel às suas origens.

É o ano da Copa no Brasil , isso pode facilitar o amor pela música brasileira em todo o mundo ?
Claro, com todo o turismo e o material da imprensa, eu sinto que será um grande impulso para a música brasileira em geral, e isso é bem legal. Porém, eu acho que somente os gêneros maiores, como o samba, que vão receber essa atenção. Há, obviamente, muito dinheiro investido e para manter a segurança para a trilha da Copa é melhor apostar em um com um rosto familiar, do tipo alguma merda como o Flo Rida, que não tem nada a ver com a cultura de onde eles cantam. Seria foda demais ouvir na abertura da Copa um funk. Você consegue imaginar o Catra e Sandrinho criando uma música para a trilha da Copa do Mundo? Isso seria do caralho! Ou que tal uma rasterinha? Seria muito foda!

Você já lançou uns 13 EPs de estilos diferentes. Como isso ajuda você a produzir novos estilos, como a rasterinha?
É isso mesmo? Como você chegou ao numero 13? (risos) Bem, com todos esses EPs diferentes eu tive que que aprender o básico e tentar entender os elementos desses gêneros. Depois de fazer esses EPs cada elemento tornou-se uma outra possibilidade na palheta de produção. Isso fez com que a club music e o funk se tornassem grandes influências nas minhas produções, já que tinham os mesmos elementos que me atraíram para o reggaeton, num primeiro momento. Mas, no caso do reggaeton, isso se perdeu depois que ele ficou muito polido e bem produzido.

Outro exemplo é que depois que fiz o Rotterdam Juke EP, minha influência realmente se assumiu em muitas produções. Em todos estes diferentes gêneros sempre há algumas semelhanças que ligam um com o outro, mesmo que eles pareçam tão distantes um do outro, há sempre uma parte que se conecta. A mesma coisa é com a rasterinha. Mesmo que ela tenha acabado de surgir, você meio que entende todo o contexto ao ouvir esse ritmo.

E com todos esses experimentos com o funk, dos mais rápidos aos de bpm mais lento, nestes últimos anos, isso só se tornou um passo mais óbvio para agora experimentar a rasterinha. Esse movimento tem um sentido muito familiar para mim, mesmo sendo algo completamente novo.


What tha fuck is a Munchi?

Entre as músicas já lançadas, qual é a que melhor representa o swing carioca na rasterinha ?
Agora que é algo novo e todo mundo está interessado, é muito comum que as pessoas corram para ser um dos primeiros a produzir algo, em vez de realmente ouvi-la para conhecer e aprender. No meio de tudo isso eu acho que as produções do Omulu realmente se destacam de longe, e a colaboração dele e do Comrade também. Eles parecem realmente entender a rasterinha, e outro grande ponto é que eles também manjam muito sobre o funk. Essa faixa “Bagulho Doido” realmente elevou o nível e fez com que você não tenha mais desculpa para não tocar a rasterinha!

Eu também acho que o Mc Tipockie a música do Mc Românticorepresentam o melhor do gênero enquanto música, mas o que Mc Nandinhocriou representa o melhor como sentimento. O ritmo fala por si próprio. Depois, você também tem a música do Mc Rhenc, que é tão irritante, porque ela fica na porra da sua cabeça, e não sai nunca. É aquele "huuu", que soa tão sutil, mas ao mesmo tempo acrescenta muito. Eu amo isso!

Com o moombahton suas produções incentivaram outros produtores a produzir também, e isso gerou todo um movimento. Será que isso também pode acontecer com a rasterinha?
Sim , definitivamente. Eu acho que a rasterinha pode crescer muito, mas espero que a experimentação com os ritmos novos comece pelos próprios produtores de funk também, sem que haja muita influência de fora, uma vez que ainda está muito no começo de tudo. Por outro lado, essa experimentação poderia ser muito legal se começasse um novo movimento, que trouxesse os produtores de funk, DJs e MCs, para mais perto da gente, para trabalhar em nível internacional também.

A situação ainda não esta acertada, depois de todo o hype que rolou com o funk, os DJs e MCs não lucraram da mesma maneira que os artistas internacionais que os usaram como inspiração -- isso não é justo. Se o que rolou fosse usado como uma grande lição, quem sabe o quão longe a rasterinha poderia chegar?

Há rumores de que você vem ao Brasil em março. O quão forte são esses rumores?
Bem, há um monte de coisas que eu gosto no Brasil. Eu não vejo isso como algo impossível. Quem sabe.