Passamos um Fim de Semana no Vidigal com as Pearls Negras

Jennifer e Mariana têm 16 anos, Alice tem 17 e já são promessa do pop global.

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fev 13 2014, 3:45pm

Jennifer e Mariana têm 16 anos, Alice tem 17 e já são promessa do pop global.

No Arvrão, no topo do morro do Vidigal, aproveitávamos nosso último pôr do sol carioca. Um morador da região, lá pelos seus setenta e poucos anos, convidou-nos para usufruir da vista de uma perspectiva privilegiada: da varanda de um hostel ainda em construção de onde avistávamos as praias de Ipanema e Leblon, a pedra do Arpoador e dezenas de lajes com crianças soltando pipas.

Mais que turistas deslumbrados, estávamos ali a trabalho: conhecer as Pearls Negras, mais nova sensação musical vinda de lá. Estávamos hospedados ali perto, no mesmo morro, em outro hostel, inaugurado há menos de dois meses. “Já faz trinta anos que moro no Vidigal, mas nem sempre foi assim. Já foi pior, já foi melhor. Principalmente quando era tudo barro e você tinha que subir a rua com um saco de construção na cabeça”, nos conta o tiozinho sorridente.

Assista aqui ao clipe de estreia das Pearls Negras, "Pensando em Você"

Entre outras histórias que compartilhou conosco, o senhor acrescentou que o Vidigal cresce e se desenvolve a cada dia e, com a pacificação, tem recebido muitas visitas de estrangeiros e seus projetos. “Mas o morro é como um vulcão. Você acha que está tudo bem até ele entrar em erupção”, disse quando perguntamos o que achava das UPPs implantadas nos morros e sua discutível pacificação.

Primeiro encontro, na varanda do casarão do Nós do Morro.

Algumas semanas antes da nossa visita, no dia 18 de janeiro, a implantação da UPP no morro do Vidigal comemorava dois anos de existência. Atualmente, o morro é oferecido aos turistas como um passeio alternativo, para os que desejam fugir dos destinos habituais, e ritmos que nunca fizeram muita parte da história do morro, como techno e deep house, são comuns agora nas festas que rolam praticamente toda semana (para a alegria dos moto-táxis, que cobram o dobro pros gringos sem agilidade).

Mas antes de tudo isso acontecer, no entanto, o casarão da Rua Doutor Olinto de Magalhães já se estruturava como centro cultural dentro do Vidigal. Chamado Nós do Morro, o espaço atrai desde 1986 jovens em busca de cursos de artes, teatro, música e cinema. Foi lá, há cinco anos, que as Pearls Negras Alice Coelho, 17, Mariana Alves e Jennifer Loiola, ambas com 16, se conheceram.

Jeckie Brown no salão do Nós do Morro.

“Eu conheci a Mari porque ficamos na mesma aula de teatro. A Jeckie ia vir aqui dar umas aulas de rima, chamou todo mundo da nossa turma. Só que ninguém foi, só eu e a Mari.” Jeckie Brown também é rapper e hoje trabalha como produtora das garotas. “Ela é nossa professora e inspiração”, finaliza Alice. Enquanto mantinha um olho na produção das meninas, e o outro em tudo e todos enquanto descíamos o morro, a produtora nos deu alguns insights sobre essa nova fase no Vidigal. “As pessoas acham que deve ser barato e fácil morar na favela, mas uma casa aqui pode chegar a custar 100 mil reais, maluco”.

“Meu pai compõe músicas também, ai eu trouxe uma música dele pro ensaio. A gente tentou entrar na música e aí foi indo, nada sério. A Jeckie que incentivou a gente a levar a sério e colocou o nome de Pérolas Negras” conta Mariana.

Na época, a irmã de Alice, Andressa, também participava do grupo. As garotas ensaiavam na garagem do casarão, o mesmo que serviu de ponto de encontro para a entrevista. “Um dia a Mari me chamou pra cantar no grupo, aí eu cantei uma música dos Panteras Negras, que é outro grupo só de b-boys, também produzidos pela Jeckie”, lembra Jennifer. O trio se transformou em quarteto mas, não muito tempo depois, voltou para o número original. Andressa decidiu seguir os próprios passos e, desinteressada pela vida de rapper, abandonou o grupo.

“Tênis e maiô na praia, os molequinhos vão zoar muito a gente”.

Combinamos que sairíamos do Nós do Morro para desbravar o Vidigal. Não aquele que conhecemos como turistas ou o morro exageradamente nostálgico do velhinho que conversou conosco, mas o Vidigal particular das três garotas que, em três semanas, somaram 200 mil visualizações em seu videoclipe de estreia, “Pensando em Você”.

Pela Rua Nova, Rua Três, Prainha e o Cantão. Entre esquinas, ladeiras e becos sem saída com vista para o mar, erámos escoltados por um sol escaldante e moradores que de uma forma ou outra, faziam parte de sua história. Encontramos um dos Panteras Negras, a moça que fez as unhas delas para o clipe, “e naquela lan-house tinha uma recalcada que ficava falando mal da gente na internet”, conta Alice. Rapidamente os papeis de entrevistados e entrevistadores desapareceram e as histórias intercalavam risadas longas e sorrisos espontâneos. Era um dia de verão carioca daqueles que te dá vontade de se ajoelhar na areia e abraçar o mar azul. E é lógico que foi o que fizemos.

As meninas nos levaram até a Praia do Vidigal, ou Prainha, que é frequentada pelos moradores do morro.

VICE: Por que vocês decidiram cantar rap? E não funk, por exemplo, muito mais popular aqui no Rio?

Mariana: O rap por aqui não é tão forte, mas já veio no nosso sangue. Desde pequenininhas a gente já curtia outras coisas, éramos diferentes. No rap você expressa o que você quiser. Pode por qualquer base e cantar. Queremos quebrar essa barreira, porque o funk por aqui já tem bastante, é bom fazer algo diferente.

Entre as faixas da primeira mixtape, Biggie Apple, misturam-se as rimas sobre curtição e protestos. É que as garotas, ainda adolescentes, dividem seu tempo pensando no namorado, na garota recalcada que fez aquele comentário ácido pelas costas e, ao mesmo tempo, nos acontecimentos tristes que embalam seu cotidiano.

“A gente compõe sobre o que a gente vive, a nossa realidade. Sobre o que nós achamos, o que a gente vê na rua, o cotidiano, o que tá acontecendo no mundo. A vida não é só curtição. A gente já passou por tantas coisas aqui, agora está tranquilo, graças a Deus. Mas a gente viu, acompanhou tudo na nossa frente acontecendo. A gente mora dentro de uma favela, né?” reflete Alice. A música “Bata Dois” foi escrita pelo pai de Mari, que é baterista e compositor, e fala sobre ser cego, surdo e mudo diante do que acontece na favela. “Fala sobre a realidade daqui do morro antigamente. Como é viver na favela, como é viver numa comunidade e não essencialmente na comunidade do Vidigal”, conta Mari.

Em 2013, durante as manifestações que estouraram no Rio de Janeiro, por conta da idade, as garotas foram obrigadas pelos pais a ficar de fora. “É difícil fazer tudo que a gente quer, ainda estamos na escola”. Ficamos curiosos, afinal, o que será que essas garotas energéticas fariam se não tivessem a música como vocação? Mariana disse que seria veterinária, o que arrancou risadas de Alice e Jennifer. “Já imaginou uma veterinária toda hip-hop e tatuada lavando bichinho? Ai, Mariana, eu vou rir desse seu sonho” zomba Alice. Parece realmente impossível para elas e, até para nós, imaginar as três fazendo algo diferente.

Pesquisando sobre as Pearls Negras na internet encontramos alguns vídeos caseiros que elas divulgaram anos antes. Quando questionadas sobre eles, as garotas se encheram de vergonha. “Nem lembra, a gente era muito imatura, chorava quando errava alguma coisa” contou Jennifer. Antes incorporavam uma espécie de uniforme, que Alice descreveu como típico de um time de basquete. Até a camiseta era da mesma cor, que elas combinavam antes do show. Mas depois que conheceram Dejaneth, uma coreógrafa da região, elas decidiram adotar as cores fortes, as leggings metalizadas e os brilhos. A mulher mostrava fotos de penteados, roupas e maquiagem para elas. Não demorou muito para o All Star velho ser substituído pelo Adidas ostentação e para o cabelo, sempre escorrido, mostrar orgulhosamente os cachos morenos naturais.

Com o apoio do Dejaneth e Jeckie, que fiscalizou a troca de roupa que aconteceu antes de sairmos para fotografar pelas ruas do morro, as meninas se deixaram influenciar pelo estilo marcante de algumas celebridades. “Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj e algumas meninas daqui também, como a Flora Matos e a Karol Conká. A Karol tem mais estilo, ousa mais, já ficou até carecona. Já a Flora é mais na dela, a gente se inspira mais no jeito de cantar” contou Alice.

Mas tantas referências não teriam significado se elas mesmas não fossem naturalmente curiosas e habilidosas. O cropped que Alice usou durante o passeio costumava ser uma blusa de manga curta de veludo e, por suas próprias mãos, foi totalmente customizado. “É porque eu gosto de sempre fazer algo nosso, entende? Não gosto de comprar e usar do jeito que a pessoa fez, não. Eu vou cortar aqui, colar um negócio ali, faço algo que ninguém tem”.

Depois de um show no Complexo do Alemão, comunidade também em processo de pacificação, um espectador estrangeiro chamado Jan apareceu para conversar com elas, dizendo que gostaria de gravar suas músicas. Mariana explicou, rindo, sobre a dificuldade do primeiro contato “A gente não tava entendendo o que ele tava falando, porra, um gringo falando com a gente”.

Mediado por uma tradutora, o contato entre estrangeiros e Pérolas Negras – que passaram a se chamar Pearls Negras – rendeu um contrato com o selo Bolabo Records. As primeiras gravações aconteceram num estúdio no próprio Vidigal. O material foi levado pela equipe de Jan Yan para o Reino Unido e quando ele e o produtor David Alexander voltaram para visitá-las no Brasil, anunciaram a gravação do primeiro videoclipe.

Além da mixtape recém-lançada, as meninas já estão com mais um clipe, da música “Guerreira”, e uma segunda mixtape engatilhados. “A gente não sabe ainda quando sai o clipe, mas essa música tem uma outra pegada, não é de amor, não. É tipo rap, rap, rap, neguinho vai gostar. A gente veio descendo de São Conrado, atrás de um Jipe com uma câmera”. Enquanto caminhávamos, elas apontavam o trajeto que haviam feito no novo vídeo e mostravam-se empolgadas para começar a turnê.

Vista do Cantão, um dos cenários do próximo clipe Guerreira.

O primeiro show será na festa Nêga, em São Paulo, no dia 21 de fevereiro. Em março as garotas partem para a Europa, com shows confirmados em Portugal, França, Espanha e Reino Unido. Na última parada elas aproveitarão para compor algumas músicas e gravar o primeiro álbum.

Ansiosas?

Mariana: Poxa, muito! Até pra ir pra São Paulo, aqui do lado, estamos ansiosas. Queremos fazer compras.

E estão com medo de andar de avião pela primeira vez?

Jennifer: Vish, estamos nada.

Mariana: A gente quer ir logo.

Alice: Quero estar no céu, vai ser emocionante. Tô há muito tempo na terra, quero voar.