Eu Acho Que Sou Straight Edge?

A cultura da bebida é uma merda. A cultura straight edge é uma merda. E eu estou preso no limbo abstêmio.

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24 janeiro 2014, 8:01pm

A cultura da bebida é uma merda. A cultura straight edge é uma merda. Eu estou preso no limbo abstêmio.

Nunca usei uma única droga na vida. O mais próximo que cheguei de algum tipo de vício foi assistir compulsivamente todos os episódios de Friday Night Lights numa tacada só. E a última vez que consumi álcool foi quando era um calouro no Ensino Médio, quase uma vida atrás.

A sua primeira pergunta talvez seja algo que muita gente quer saber quando descobre que eu não bebo: “por que não?”, e que, pra mim é uma pergunta completamente desnecessária. Você está me perguntando por que eu não faço alguma coisa? O ônus da questão deveria ser seu, que bebe, não? Existem milhares de coisas que eu não faço, mas você não me questiona sobre elas. Por que você não me pergunta por que eu não vou à igreja, ou por que não tenho um gato, ou por que não ouço música country? (Respostas: porque religião é um embuste, porque eles são uns babaquinhas cheios de pêlos, e porque eu tenho todos os meus dentes na boca.) Todavia, quando as pessoas descobrem que eu não bebo, elas exigem uma explicação com o fervor de alguém que teve a mãe ofendida.

Então creio que minha resposta final seja: porque eu não quero. Pura e simplesmente. Ninguém na minha família tem problemas com alcoolismo, não faço isso por questões de saúde, e não é por causa de nenhuma bobagem espiritualóide. É apenas uma escolha pessoal, simples assim, algo que me acompanha durante toda a minha vida adulta. Mas eu nunca, jamais, me autointitulei “straight edge”.

Veja bem, quando o MacKaye escreveu aquela música “Out of Step” lá em 1981, ele estava falando por si mesmo e seu próprio conjunto de ideais. Ele nunca quis que straight edge se transformasse num movimento, o que ele já disse inúmeras vezes. Quando ele escreveu a letra, “Don’t smoke, don’t drink, don’t fuck” (Não fume, não beba, não transe), ele não quis dizer isso de maneira imperativa e ele certamente não queria que as pessoas levassem isso à risca e formassem gangues straight edge cretinas que espancavam moleques que estavam bebendo, e que foi um lance estúpido que aconteceu na cena punk por um tempo. (E talvez ainda aconteça, eu não saberia dizer. Se isso ainda acontece, precisa morrer mais rápido que o revival do ska.) É por isso que, quando o Minor Threat regravou a música dois anos depois, MacKaye atualizou a letra para enfatizar o “não fume / não beba / não transe” e adicionou um monólogo sobre como ele não estava tentando estabelecer um conjunto de regras. Ele praticamente só não disse: “Parem com essa merda de pancadaria de gangues sXe, seus straight edge pau no cu”.

Mesmo eu tendo escolhido não levantar a bandeira straight edge, muitos dos meus amigos do colegial entraram nessa onda -- eles tinham os patches e as tatuagens de X e tudo mais. E a ironia da coisa é que todos eles caíram depois que entraram na faculdade e agora são um bando de maconheiros que inventam desculpas científicas pra ficarem chapados. Eles sempre falam sobre como fazer uma pasta de maconha, misturar com as cinzas da sua vó morta, fazer uma reza vudu, enterrar o lance no quintal por dez dias e depois desenterrar e usar a macumba pra escovar seus dentes vai te deixar malucaço da cabeça. Algo do gênero.

E tá beleza pra eles. Não tenho nada contra maconha ou álcool, se é isso que você acha. Quer dizer, se é pra ser pedante, então vou dizer que fumar maconha é uma grandessíssima perda de tempo e que álcool e tabaco são meios de manter a classe trabalhadora pobre. Algumas pessoas ficam na defensiva quando digo isso e começam a me indicar artigos que eles leram no www.estoucertinho.com sobre como a maconha curou glaucomas agudos em plantas domésticas ou sobre médicos que dizem que tomar duas taças de vinho tinto por dia pode prevenir ataques de ursos. Claro. Se é isso que você quer dizer pra si mesmo pra se sentir melhor sobre os seus vícios, beleza, vai fundo. Eu mesmo sou um cara que se convence de que comer dez pacotes de Doritos apimentado uma vez por semana “mantém seu metabolismo nos trinques”. Então você não precisa se justificar pra mim.


Não, eu não quero isso.

Outra reação comum das pessoas é ficarem empolgadas me dizendo que também não bebem e querem ser meus coleguinhas de sobriedade. Sem querer gongar nosso elo afetivo aqui, mas como é uma escolha pessoal minha, estou cagando se você bebe ou não. Abstêmios que querem criar laços com outros abstêmios são idiotas que dirigem carros ecológicos e buzinam quando se cruzam com outros donos de carros ecológicos.

Ou às vezes as pessoas me dizem que estão considerando parar de beber e me pedem conselhos sobre como viver sóbrio. Hm, foi mal, mas não tenho nada aqui pra você. Continua a fazer o que você normalmente faz na sua vida, mas pare na parte em que o álcool entra na sua boca. Isso ajuda? Não deveria ser tão complicado já que álcool tem gosto de lixo. O cheiro de cerveja sempre me lembrou daqueles velhos bebuns do time de softball do meu pai que mandavam aquela baforada de breja na minha cara enquanto me perguntavam o que eu queria ser quando crescer. (Até hoje eu não sei, Seu Donovan.)

As pessoas geralmente presumem que, por não beber álcool, eu estou em ótima forma física e economizo rios de dinheiro. Bom, acabei de ir ao outro cômodo checar meu saldo bancário e tenho $84,23 na minha conta. Fora que fiquei sem fôlego só de ir até lá. Então, não. Mas um resultado interessante em ser abstêmio numa sociedade voltada pro álcool é que, aos sábados à noite, sou capaz de ver o mundo como ele realmente é enquanto os cachaceiros estão em uma dimensão muito além pra conseguir perceber. Vejo os caras das fraternidades começando brigas por nada. Vejo gatas embriagadas que pensam que todas as músicas que os DJs colocam é sobre elas. E vejo casais que distorcem palavras e brigam por nenhum motivo. Algumas vezes tenho vontade de dar um chacoalhão neles e falar “Galera. Galera! Vocês não falaram absolutamente nada que fizesse sentido em mais de uma hora. Vão pra casa, vão dormir, seus pinguços!”. Estar sóbrio quando todo mundo está bêbado faz com que eu me sinta como o Roddy Piper com seus óculos mágicos em “Eles Vivem”.

Agora sério, a única coisa mais cretina que a cultura do álcool é a cultura straight edge. Todo esse séquito de gente que se une por uma atividade que eles nem sequer compartilham. É tipo uma reunião de AA com uma trilha sonora horrível. As bandas straight edge viraram as bandas cristãs de rock do hardcore. Na boa, quantas músicas sobre não beber a gente precisa? Acho que isso já rolou com a primeira. Basicamente todas as músicas straight edge são uma cópia de “Out of Step”, cada uma mais redundante e desnecessariamente agressiva do que a outra. Nessa altura, eu diria que é praticamente impossível alguém escrever uma música sobre não beber que já não tenha sido escrita um milhão de vezes. E eu duvido muito que marmanjos que usam shortinhos de malha em público consigam superar essa barreira.


Eu não quero isso também.

Então cá estou. Pra sempre preso nesse limbo entre culturas. Vivo nesse território intermediário onde penso que termos como “manguaçar” e “travar a biela” são tão toscos quanto “true ‘til death” (verdadeiro até a morte) e “poison free” (livre de venenos). Acho que o lance do X nas mãos é tão babaca quanto jogar o jogo do “eu nunca” ou postar uma foto da sua geladeira abarrotada de bebida no Instagram. E acho que camisetas que dizem “Cerveja É uma Merda, Beba Água” são tão merdas quanto as que dizem “Deixei a Bebida, Só Não Sei Onde”. (Mas vamos ser justos, acho que essas são universalmente babacas e exclusivas para tiozões do pavê ou suburbanos espinhentos da Galeria da Rock.)

Mas se me classificar como “straight edge” é mais fácil pra te fazer assimilar o fato de uma pessoa normal não consumir álcool, vai fundo, cara. Mas eu não. Porque eu honestamente não me importo. Então eu comecei meu próprio movimento pros não bebedores apáticos do mundo. Não cantamos hinos sobre isso. E também ninguém pode se unir. Sou só eu. Nos encontramos aos domingos e assistimos Friday Night Lights.

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