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Reportagens

Milionário & Marciano se juntaram em nome do legado sertanejo que ajudaram a criar

Remanescentes das duplas João Mineiro & Marciano e Milionário & José Rico os artistas estão de volta aos palcos num show que une circo, produção estrondosa e sertanejo repaginado.

Marcelo Daniel

Marcelo Daniel

Ilustração de Robson Minghini.

Em meados de 2015, o telefone celular do cantor sertanejo Marciano tocou. Do outro lado da linha, estava o cantor Sorocaba, ele mesmo, o da dupla Fernando & Sorocaba. O motivo do contato era uma ousada proposta de parceria, uma turnê que unisse, no mesmo palco, Milionário & Marciano. Sim, uma espécie de pout-pourri do sertanejo unindo as metades de duas duplas icônicas do gêneros: um pedaço de João Mineiro & Marciano, e outra metade de Milionário & José Rico.

No dia 3 de março de 2015, morreu José “Rico” Alves dos Santos, aos 68 anos, deixando sozinho o parceiro Milionário. Por outro lado, Marciano, que desde 1993 já não cantava ao lado de João Mineiro, falecido em 2012, atuava então em uma agitada carreira solo que, apesar de seus três shows semanais, não aparecia nos holofotes da mídia.

“Sorocaba perguntou se eu topava esse projeto de fazer a união com o Milionário”, contou Marciano ao Noisey por telefone, enquanto estava nos bastidores de um show em uma gelada noite em Foz de Iguaçu (PR). “Daí eu expliquei que conhecia o Milionário desde o início da minha carreira e que eles (a dupla) eram meus ídolos pra caramba, mas, naquele momento, apenas cantar com ele, para mim, não somava muito, a não ser que tivesse um empresário com essa grandiosidade por trás”, conta, referindo-se à extensa lista de sucessos agenciados por Sorocaba, como Luan Santana e Thaeme & Thiago (não confundir com Tame Impala). “Daí falamos: Milionário & Marciano, com esse empresário cuidando, então vamos em frente! Onde ele põe a mão, dá certo!”.

Sorocaba é o apelido do músico e empresário Fernando Fakri de Assis. Ele contou que a ideia do espetáculo unindo Milionário e Marciano surgiu com a ideia de perpetuar nomes da música sertaneja no Brasil. “O objetivo foi realmente esse, unir esses dois grandes cantores, para eternizar o gênero e mostrar para todos como foi o começo dessa história tão linda e bem sucedida, que teve origem no circo e até hoje emociona os corações”, diz.

Apesar de terem iniciado a carreira artística praticamente à mesma época, nos anos 1970, as duplas Milionário & José Rico e João Mineiro & Marciano vivenciaram o sucesso em décadas diferentes — a primeira, na mesma da formação, já a segunda, em meados dos anos 1980. No entanto, cada um deles desempenhou papel fundamental na consolidação da música sertaneja como produto cultural de massa no Brasil, muito antes de surgirem outras duplas de sucesso como Chitãozinho e Xoroó, por exemplo.

Hoje, passados 40 anos do começo da história dessas lendas do sertanejo, se o que Milionário & Marciano esperavam era investimento, seus desejos foram atendidos. O espetáculo Lendas impressiona pelo tamanho e a composição do cenário, inspirado no circo, local que normalmente recebia os cantores sertanejos no início da carreira. Artistas, como acrobatas e malabaristas, percorrem o palco o tempo todo durante as canções, dirigidos por um sujeito que é sinônimo da atividade circense no Brasil, o ator Marcos Frota. As músicas, clássicos das carreiras das duas duplas, receberam uma grande banda de apoio e novíssimos arranjos — “Amor Clandestino”, por exemplo, de João Mineiro & Marciano, tem agora uma pegada que flerta com a bossa nova.

Ainda ontem chorei de saudades

“A gente por enquanto não esqueceu do Zé”, comenta Milionário, nascido Romeu Januário de Matos, hoje com 76 anos, em um tom que ao mesmo tempo que brinca, revela a dimensão de sua perda. “Foram 45 anos anos com ele, parece que está em cima do palco com a gente, cantando”, afirma.

As músicas de Milionário & José Rico, mais que sucesso comercial, transformaram-se em grandes símbolos do estilo sertanejo. Na gravação do DVD Lendas, cada vez que executam canções dessa safra, como “Vontade Dividida”, “Solidão” e “Sonhei com Você”, é possível visualizar a emoção de outros cantores, de gerações mais novas na plateia. Alguns estão em lágrimas. Provavelmente, esses sucessos foram os primeiros que ouviram, que trazem lembranças de seus pais, avós ou, talvez, do antigo sonho de vencer na carreira. “Acho que demos um tiro certo com esse projeto Lendas, essa ideia foi muito boa”, comemora Milionário. “O povo está aceitando e a coisa está sempre aumentando, vamos fazer de tudo para passar para o nosso povo o que foi o trabalho do José Rico, vamos cantar sempre direitinho para o público entender”, comenta.

Estrada da vida

Na Fazenda Rubi, localizada na zona rural de Bauru (SP), morava o menino José Marciano, nascido em um 1º de abril nos anos 1950. Ainda bem pequeno (na idade, pois é de estatura alta), ao lado do pai, ouvia no rádio os sucessos de Belmonte & Amaraí e, logo em seguida, de Tonico & Tinoco. No entanto, um detalhe importante faria toda a diferença nas influências do cantor e compositor Marciano, hoje com 63 anos: sua paixão pela música e o estilo de Antonio Marcos (1960-1992).

As letras da música caipira e sertaneja, até então, não haviam conhecido o romantismo com a intensidade das composições de Marciano. “O seu destino foi construído por suas mãos. Faz dois anos que não é minha, que se casou” ou, então, “Esse amor clandestino faz de mim um menino. Que ao dormir também chora. E adormece querendo te ouvir me dizendo: ‘Nunca mais vou embora’”, são exemplos de seu estilo, com frases que ressaltam o sofrimento da desilusão amorosa.

O reconhecimento desse diferencial veio em 1982, quando uma composição de sua autoria com o parceiro Darci Rossi virou um grande sucesso nacional. “Era uma música que ficou pronta e a gente ofereceu para vários cantores na época, mas ninguém quis gravar. Daí, o Chitãozinho e Xororó estavam terminando o disco deles e precisavam de uma última música. Ouviram por uma dupla e ligaram para mim, perguntando se podiam gravar”, se recorda Marciano, sobre os bastidores da gravação de “Fio de Cabelo”. “A música estourou e foi muito bom para a carreira deles. Para a minha também, pois fiquei conhecido como compositor”, afirma.

O palco majestoso encanta pelas cores e o movimento. Mas as estrelas da noite possuem luz própria. Milionário & Marciano se posicionam bem ao centro e unem, em um só espetáculo, os signos que moldaram a nossa música sertaneja. Milionário é mais quieto, de chapéu, com suas joias aparecendo sobre a gola da camisa (muito mais discreto que o excêntrico e saudoso parceiro). Marciano, já há algum tempo, tem vestido apenas branco. De óculos escuros, é quem cuida da porção mais performática da dupla, faz gestos com as mãos e dá os icônicos gritos das canções mais famosas, com influências da música mexicana.

Juntos, unem o passado, com composições magistrais que atravessam os mais remotos pontos do país há décadas, ao futuro, com uma supreprodução e a divulgação de expoentes do sertanejo universitário. De fato, não havia melhor representação para esse encontro. São, de fato, Lendas.

O espetáculo Lendas, com Milionário e Marciano, acontece dia 25 de junho no Citibank Hall, em São Paulo, às 22h30.

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