Atomic Winter: No Pique do Hardcore Melódico

Estreamos com exclusividade o primeiro clipe desses hardcoreanos de Goiânia. "Desert of Our Dreams", que faz parte do álbum Snowmelt, lançado recentemente.

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jun 10 2014, 6:00pm

O Atomic Winter é uma banda de hardcore de Goiânia. Eles fazem um som cheio de pique, levadão, que imediatamente remete à escola californiana, mas que naturalmente flerta com outras vertentes, de Sick Of It All a Pennywise e Strung Out. Pensa num som que tem tudo a ver com uma session de skate. Então, é tipo isso aí que eles tocam. O quinteto, atualmente formado por Fábio Calaça (voz), Rodrigo Modesto (guitarra), Heitor Lima (guitarra), Rodrigo Caetano (baixo) e Wendell Pereira (bateria), ganhou vida em 2007. O primeiro álbum, porém, só foi sair em dezembro do ano passado. Snowmelt demorou todo esse tempo para se materializar por conta de uma porção de enroscos. A proposta inicial era de lançar o material em EPs conceituais, algo que não engatou, até em função das dificuldades que sempre tiveram com os estúdios onde gravavam. No começo da banda, parte da formação ainda era muito nova, e não tinha grana pra poder bancar um projeto maior.

Daí vieram as trocas de bateristas e, por fim, uma série de incidentes que levaram ao acúmulo de composições, as quais resultariam no álbum completo. Depois de dois anos esforçados gravando e produzindo Snowmelt, o produto veio à luz. A obra traz as músicas dos dois primeiros EPs e mais seis que não haviam sido registradas anteriormente, mas que já eram conhecidas dos shows. O lançamento, portanto, é um apanhado de tudo o que eles tinham no gatilho até a entrada em estúdio. "Desert of Our Dreams" faz parte desse repertório, e foi a primeira faixa escolhida por eles para ganhar um clipe, que o Noisey lança nesta terça (10) com exclusividade. Trata-se de um webclipe sem firulas; na verdade, é uma parada bem simples.

Os caras tiveram a ideia de subir num espaço que tem no terraço do Edifício Andrielli, no Centro de Goiânia, onde mora o Fábio, para filmar. E diz que até hoje tem vizinho clamando justiça, deu multa e os caraio, só que taí o resultado, pelo menos rolou. A captação é do Gustavo Spud, a edição e tratamento de imagem ficaram a cargo do Fabiano Oliveira. A princípio, quando o Heitor veio me mostrar o som, ele disse que o bagulho seria rodado em Super-8. Mas então eles assistiram uns clipes do MUTE, do Sick Of It All e até do Mais Que Palavras, e viram que era possível fazer um negócio despretensioso e ao mesmo tempo legal. Pela primeira vez aqui no site, nada mais justo do que emendar aquela entrevistinha esperta apresentando a banda pra vocês. Quem responde é o Heitor:

Noisey: O som de vocês tem um pique muito legal, e as comparações são as mais diversas quando alguém tenta defini-lo. Ignite, Pennywise, Propagandhi, Strung Out, Gorilla Biscuits, e até o Boy Sets Fire, já foi citado nessas. Mas, na cabeça de vocês, quando estão compondo, de que modo vocês querem soar?
Heitor Lima:Que doido que o pique agrada, veio! A gente é fissurado em som veloz. Na hora de definir beat pra gravar, dá até um frio na barriga e algumas discussões (risos). É curioso mesmo esse lance de que cada pessoa nos compara a uma banda diferente. Mas se você for analisar, elas costumam mesmo ter algo em comum com o que fazemos, independente do quão diferente soem entre si. Acho que as músicas do Atomic Winter são fruto de um emaranhado de referências. Acredito que esse cruzamento de inspirações é tão grande que no fim das contas isso dá identidade pra coisa. Antes de músicos, somos fãs de muitas bandas do gênero. Escutamos isso desde moleques, quando passávamos dias inteiros andando de skate e procurando música na internet há dez, 11 anos. Penso que, na hora da composição, ninguém se prende a nada e nem mesmo se objetiva a soar como algo. O que fazemos é dar espaço pra que essa mistura toda configure o resultado do processo. Se for pra eleger um estilo mais influente, eu citaria o hardcore californiano, as coisas mais melódicas. Olhando por esse lado, acho que temos aquela coisa do Strung Out de misturar hardcore com metal de uma maneira fluida e melódica, ao nosso modo. Mas sem dúvidas temos inspirações no old school, straight edge e até em NY hardcore (num tô falando que é bagunçado!?).

Como é a cena aí em Goiânia para o tipo de música que vocês fazem? Existe uma estrutura legal, público, ou mesmo uma interação bacana com outras vertentes da música alternativa?
Bicho, acredito que Goiânia é uma cidade com uma riqueza cultural gigante, considerando suas proporções territoriais e populacionais. Temos um contexto incrível (um dos melhores do país?) em se tratando de rock independente. O nível estrutural dos eventos é quase sempre muito elevado. Eu diria que temos uma economia musical em pleno desenvolvimento, porque, no fim das contas, há investimento, produtores armando as coisas com grana recebida do Estado, festivais muito notáveis, as bandas grandes e do momento sempre vêm, pipocam grupos locais de tudo quanto é canto, e por aí vai. Se existem alguns estilos menos contemplados por toda essa situação, eu acredito que o hardcore é um deles. E se o hardcore foge à regra, como é nosso caso, piorou (risos). Consegue entender? Blogs, por exemplo: muitos tratam esse tipo de som como se não fosse rock, ou algo assim. Alguns festivais e pubs o repelem. Mas, obviamente, quando é o caso de uma banda que gera grana, como um Dead Fish (de quem somos fãs e amigos) ou Ratos de Porão, essa estrutura não deixa de os envolver. E, por outro lado, o hardcore também tem sua tendência natural de sobreviver do seu jeito, inerentemente à margem, como em tantos lugares. A molecada sempre agiliza shows, independente da precariedade a que tenham que se sujeitar, e sempre tem algo acontecendo com muita energia e satisfação, o que é sempre admirável demais. A gente já transitou em ambos os circuitos, vamos dizer assim. Assim como o WC Masculino, a Baba de Sheeva, Entre Os Dentes e outro pessoal daqui, acostumados a tocar em esquemas mais DIY e outros mais robustos e planejados. Mas no geral é bom, estamos sempre em contato com outros estilos, sim, crescemos com pessoas que fazem outros tipos de som. Acho que aqui as pessoas são próximas, todos se conhecem e, na medida do possível, estão tocando juntos, fazendo história. O Gustavo [Gontijo] mesmo, que foi baixista da banda até esse álbum, toca no Dry. Eu e o Rodrigo Modesto tocamos no Caffeine Lullabies, que tá começando e é outra onda.

Vocês saíram recentemente numa coletânea de hardcore/skatepunk da Polônia, não é? Como que rolou essa oportunidade? Vocês sabem alguma coisa sobre a cena hardcore polonesa, mantêm contato com o pessoal de lá ou algo do tipo?
Eu não manjo nada sobre a Polônia. Ia até zoar citando o Papai Noel, mas dei um Google aqui e lembrei que ele é da Lapônia. Eu conheci o Piotr Romanowski, de lá, porque ele tinha divulgado nosso segundo EP (Flesh And Blood) em seu blog e então fizemos contato. E aí quando o álbum saiu, ele já quis logo inserir "All My Heroes" na coletânea que tava prestes a ser lançada. Quando nos disse que teria A Wilhelm Scream e FORUS junto, nós piramos!

A independência é hoje o melhor caminho para uma banda de hardcore? O selo Cosmonauta, que lançou o álbum de vocês, é dirigido pela banda?O Sopa/Cosmonauta são marcas pelas quais eu organizo algumas festas e shows (como o Beerbong Fest) por aqui com outros camaradas, esporadicamente. Temos também um acervo digital com alguns registros da galera daqui. Enfim, o Cosmonauta sou eu e alguns amigos bem dispostos. Acredito, sim, que a independência é o melhor caminho pra uma banda de hardcore. Mas tem que haver o domínio de algumas ferramentas e expertises características dos tempos de hoje para que o trabalho surta algum efeito. E articulações, como sempre. Por meio do Bandcamp a gente foi informado que tem pessoas nos ouvindo em um monte de lugares do mundo, isso é incrível (tem uma galera até no Japão escutando). Se a banda souber trabalhar com mídia social, distros digitais (dessas que são plataformas on-line, tipo CDBaby) e se ligar a bons canais de informação, já resolve bem a vida.

Do que falam as letras da banda de modo geral? "Desert of Our Dreams", o som escolhido para o clipe, traz alguma mensagem ou inspiração que tenha motivado a escolha?
Prefiro que o Fábio (vocalista) responda essa.

Fábio Calaça:É possível dividir as letras em duas partes que nem sempre estão tão equilibradas. Pra mim o hardcore sempre teve o propósito de propagar uma mensagem e eu acho que essa mensagem tem que ser positiva. Tem muita merda no mundo e é fácil achar que tudo está perdido, em especial essa tal geração Y que encara tudo como pronto e espera os resultados chegarem do nada. Nesse contexto é fácil as pessoas desistirem de tentar ou de sonhar. "Desert of Our Dreams" é por aí. É meio que um alerta pra um despertar, por exemplo. O título resume bem a ideia de que os sonhos viraram pó, areia, e que se agarrar a eles não só é inútil como é impossível, já que a areia vai eventualmente escorrer por entre nossos dedos. Embora ela não tenha essa virada positiva, ela por si só tem o objetivo de causar algo positivo. Se você percebe que sonhar não basta, então vá realizar. É assim com todas. Os temas são diversos, mas o fim é o mesmo: acredite, faça. A tal sociedade da informação é composta por uma moçada que não só é individualista demais, mas preguiçosa. Está tudo sempre à mão, assim não há ímpeto para ir atrás do que está um pouco além. O que a gente tenta é mostrar que vale a pena dar um passo a mais que seja, que há mais pra se ver, pra se fazer. Que dá pra ir além sozinho, agindo, e ainda mais longe junto. E que por mais merda que as coisas pareçam, é possível dar a volta por cima desde que se tenha paciência. No fim é isso. O que me fode com muito som que toca na rádio e nos programas de TV não é o fato de ser sertanejo ou pagode... É o fato de o cara ter a mídia na mão, todos os olhos voltados para si e não ter nada de construtivo pra falar. Felizmente, o hardcore naturalmente tem.

Pra terminar, uma curiosidade: tanto o nome da banda como o nome do álbum, de certa forma fazem menção a um lance que tem a ver com condições climáticas. Por que essas referências?
Antes de "Atomic Winter" a banda se chamava "Atomic Garden", que é o nome de uma música famosa do Bad Religion. Eu não lembro bem por que decidimos mudar (acho que por uma questão fonética mesmo). Atomic Winter é o nome de uma impressão climática decorrente de uma guerra nuclear, uma experiência sensorial sinistra. Com o tempo a gente passou a explorar mais a ideia do "Winter" pra criar um elo conceitual com as músicas, e então começamos a nos divertir usando várias palavras desse campo semântico: Winter, Desert, Rain, Freezing, Degrees, Dawn, etc. Isso também tinha relação com a ideia inicial dos EPs conceituais que não progrediram. Além disso, o Fábio sempre teve uma tendência meio Greg Graffin de escrever sobre consciência com recursos naturais do planeta, atitudes desmedidas do homem e outros lances que calham com tudo isso e sempre nos agradaram demais.