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O Satânico Dr. Mao Contra os Coxinhas Podres: Vocalista Fala Sobre o Destino dos Garotos Podres

Disputando com os ex-integrantes pelo direito de usar o nome da banda que fundou, Mao prepara álbum do seu novo grupo.

Eduardo Ribeiro

Eduardo Ribeiro

Foto: Divulgação.

Para quem curte muito o som de uma banda, é sempre uma merda ficar sabendo que os integrantes da formação original vez ou outra arrumam tretas entre si. As relações humanas são foda, e a gente tá ligado que qualquer rusga surgida da convivência, seja em estúdio, seja em turnê, pode jogar por terra a trajetória daquele grupo que significou tanto para você. Mas esse tipo de coisa faz parte do rolê, acontece no mainstream, acontece no underground, pelas mais variadas razões. Orgulho, grana, ciúmes, falta (ou excesso) de comprometimento, cansaço… Bastar prestar atenção na história do rock para encontrar inúmeros exemplos disso.

Nos últimos tempos, acompanhando as atualizações on-line do Garotos Podres aqui na redação, notamos que havia duas páginas para a mesma banda rolando. E, como se não bastasse, estes perfis paralelos digladiavam entre si. Pra quem é punk da véia, não é novidade que os caras nunca concordaram totalmente a respeito das certas questões. Porém eles sempre davam um jeito de passar por cima de eventuais desavenças em nome da música e em respeito ao público. Um confronto de posturas em julho de 2012, durante um festival em Araraquara (interior de São Paulo), no entanto, acabou minando a tolerância entre eles. A banda rachou.

Daí ficaram o Mao (vocalista) e o Cacá Saffiotti (guitarrista) de um lado, enquanto o Sukata (baixista) e o Caverna (baterista), debandaram pro outro. A primeira dupla segue tocando e gravando sob o nome O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, já a segunda insiste em usar o nome Garotos Podres. A novela toda já está correndo na Justiça. Enquanto a burocracia da lei não passa a régua na questão, resolvemos procurar o Mao, dono do registro do nome e das letras, para contar sua versão dos fatos.

O papo foi extenso, e abordou todos os pormenores do conflito. Se liga aí:

Noisey:Mao, como foi que você tomou conhecimento da existência desta versão do Garotos Podres? E por que os caras seguem com a banda mesmo sem você na formação?
Mao: Depois que a banda rachou cortei todo contato com o baixista e o baterista. O fato de estes cidadãos apoiarem o nosso empresário que se recusava a prestar contas de nossa participação num festival em Araraquara foi a gota d'água. O fato de o empresário ter se utilizado de uma empresa que nos era desconhecida para emitir nota fiscal, num evento organizado por uma empresa pública municipal que contava com 127 denúncias de irregularidades era grave. O mínimo que ele deveria fazer era prestar contas. Ao invés disto, ele recusou-se, deixando-me a mais de 300km de casa e sem dinheiro. Para conseguir os trocados que me faltavam para comprar a passagem de volta, consegui um empréstimo com um policial militar, que curiosamente, conhecia a banda. No caminho de volta pensei bastante. Um elo de confiança e camaradagem foi quebrado. Decidi que jamais voltaria a tocar com aquelas pessoas. A primeira coisa que decidi fazer foi providenciar o registro da banda.

Não mais respondi e-mails nem atendi telefonemas destes cidadãos. A única notícia que tinha deles era através de um amigo em comum, para o qual eles ficavam ligando insistentemente para fazer ameaças. O tom das ameaças era sempre o mesmo, que eu tinha que tocar com eles porque "eles estavam precisando de dinheiro”. Caso não fizesse isto, “me processariam”. Era uma situação tão absurda que passei a me sentir um trabalhador escravo. No início de 2013 algumas pessoas começaram a me alertar que estava ocorrendo uma movimentação estranha no Facebook. Segundo informações, estes indivíduos estavam intentando montar uma banda e se apropriar do nome Garotos Podres. Acabei criando uma página pessoal no Facebook, e fui ativando-a aos poucos.

No início de abril de 2013, o baixista tentou registrar a banda “Garotos Podres” no nome dele. Obviamente ele não conseguiu, pois eu havia me adiantado neste sentido. Ato contínuo, este cidadão enviou-me uma notificação extra-judicial cheia de ameaças sem pé nem cabeça. Entre outras coisas, o baixista e o baterista me exigiam “30 anos de direitos trabalhistas”. Alguns dias depois eis que eles fazem uma canja junto ao show do Supla no aniversário da cidade de Santo André, em São Paulo. Foi desta forma que se confirmou a existência dos Garotos Podres fake.

A partir de então começou uma verdadeira guerra nas redes sociais. Diante das inúmeras ameaças tive que constituir um advogado. Aconselhado por este, decidi abster-me de utilizar o nome Garotos Podres até a decisão administrativa ou judicial final. Entretanto os antigos baixista e baterista não tiveram a mesma atitude. Meu advogado tentou conversar com eles para obter uma solução amigável, que não foi possível. Estes “exigiram” que fossem pagos a quantia de R$ 430 mil reais para que eu pudesse continuar a usar o nome que criei para a banda que fundei. Obviamente não houve acordo.

Eu e o guitarrista (Cacá Saffiotti), decidimos criar um projeto paralelo até que não se resolvesse a situação. Juntamo-nos ao Uel (baixo) e Shu (bateria) e formamos O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. O Sukata e o Caverna poderiam ter feito o mesmo, montar uma banda com um nome qualquer e tocarem o que quiserem (inclusive músicas dos Garotos Podres). Creio que o grande problema deles é que eles têm plena consciência que não são capazes de criarem algo novo, e por este motivo se aferram no direito de usar ilegalmente o nome Garotos Podres.

Lá no Facebook você se refere aos caras como "coxinhas". Isto seria uma referência ao modo irônico como geralmente os policiais militares são chamados, enunciando a afeição dos mesmos aos ideais dos milicos?
Originalmente o termo coxinha era realmente utilizado em São Paulo como forma pejorativa para designar os policiais militares. Entretanto este termo generalizou-se para definir as pessoas que adotam irrefletidamente posturas e discursos claramente conservadores e direitistas. O termo “Coxinhas Podres” para designar esta banda fake não é de minha autoria. Digamos que é de autoria coletiva. Os fãs dos Garotos Podres com os quais tenho contato em minha página repetiram tanto esta frase para designá-los, que o termo acabou colando.


Foto: Reprodução

Sendo você um sujeito reconhecidamente comunista, como foi a relação sua com os outros integrantes da banda durante anos? Esse tipo de opinião/posicionamento conservador já era percebido por você em uma atitude ou outra do passado?
Nunca fui um militante orgânico a nenhum partido. Mas sempre defendi os movimentos sociais e a luta pela emancipação dos trabalhadores. Com exceção do Cacá Saffiotti, que tem um histórico de militância sindical (professores), os demais membros que passaram pelos Garotos Podres nunca tiveram um posicionamento político mais definido. Obviamente isto sempre me acarretou sérios problemas. Sempre era acusado de ser “muito comunista” pelas letras que fazia. Em alguns casos a discussão chegou ao quase rompimento da banda. Vou dar um exemplo:

Quando propus a letra e a melodia de “Aos Fuzilados na CSN”, quase apanhei. Foi um quebra pau danado (sempre a mesma acusação: “as suas letras são muito comunistas”). Para convencê-los a tocar a música foi um sacrifício. A música saiu no álbum Canções para Ninar (1992). Também foi escolhida pelos produtores locais para o compacto 7” (split) que foi lançado na Alemanha para divulgar a nossa turnê no país junto com o Mata-Ratos (1995). Assim, como num passe de mágica, a música deixou de “ser uma bosta”, ou “muito comunista” como eles diziam. Ela foi tocada em nossos shows até 2012, ou seja, por 20 anos, tendo ainda duas versões ao vivo nos álbuns Rock de Subúrbio – Live (1995) e Live in Rio (2001).

O quê ou quem você acha que influenciou os demais integrantes a seguirem esse caminho político?
Sinceramente não sei o que dizer disto. Ainda estou tentando entender o que está acontecendo. Os demais integrantes do Garotos Podres nunca tiveram um posicionamento político mais claro. A suposta neutralidade era a postura mais comum. O que me surpreende é que os antigos baixista e baterista abandonaram esta “vaga postura de neutralidade política” e acabaram assumindo um posicionamento político claro: de direita. Seja quais forem os motivos que os levam a assumir posições cada vez mais reacionárias, uma coisa podemos constatar: cada vez mais eles estão recebendo apoio de grupos ligados à direita. Isto pode ser facilmente observado pelas redes sociais.

Atualmente vocês brigam na justiça pelo nome da banda, certo? Se não tivesse rolado aquela treta que estourou com o festival em Araraquara, você acha que teria energia e tolerância em continuar tocando por mais tempo ao lado de pessoas com ideologias tão contrárias às suas?
Eu acho que o rompimento que ocorreu era algo inevitável. Ocorreria mais cedo ou mais tarde. Além de problemas internos à banda, havia um problema externo que era o relacionamento que tínhamos com o empresário. Nos últimos anos este sempre procurou tirar vantagem, em proveito próprio, da desunião que crescia no seio da banda. Lógico que continuavam a torcer o nariz para as letras que eu fazia. Um exemplo: o Sukita não gostou nem um pouquinho da letra de “Repressão Policial – Instrumento do Capital”, simplesmente porque ela “falava mal da polícia”. Mas àquela altura do campeonato, em 2012, eles estavam pouco preocupados com questões ideológicas. O que lhes realmente interessava era ganhar alguns trocados, viajar e ainda posarem de pequenos popstars. Creio que eles não titubeariam em se fantasiar de Stálin, Trótski ou Lênin, desde que isto lhes rendesse alguns trocadinhos.

Em sua época de banda, você acha que eles seguravam mais a onda em tais declarações e que a sua saída tenha os deixado mais livres para dar esse tipo de opinião nas redes sociais?
Acho que era eu quem acabava dando a linha política à banda. Acabava atuando quase como uma espécie de comissário político. Em entrevistas, eles mais ou menos seguiam os meus posicionamentos. Atualmente vejo que eles estão completamente perdidos em termos ideológicos, passaram a defender publicamente a atuação da ROTA [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, grupo de elite da Polícia Militar de SP] durante a Ditadura Militar e a apoiar a repressão policial aos movimentos sociais. Começaram a compartilhar frases de Olavo de Carvalho e vídeos da Rachel Sheherazade. Até mesmo vídeos de bandas RAC (Rock Against Communism) eles estão compartilhando. Acho isto vergonhoso e lamentável. Um verdadeiro atentado ao espírito dos Garotos Podres.

Com duas páginas do Garotos Podres atualmente no ar no Facebook, como você vem sentindo o apoio do público que acompanhara vocês nesses 30 anos? Houve um racha na banda, mas também há uma polarização entre os fãs?
Na minha opinião os fãs dos Garotos Podres não aceitaram muito bem esta maracutaia que montaram, a qual prefiro chamar de Coxinhas Podres. Obviamente os Coxinhas têm parentes, amigos e também pessoas desinformadas que estão os apoiando. É interessante notar que também surgiram alguns “fãs” de última hora, algumas galinhas verdes, que estão tentando tomar proveito disto. Em suma, creio que a maioria dos verdadeiros fãs dos Garotos Podres não gostam de coxinhas estragadas (risos).


Foto: Reprodução

Como andam os trabalhos com O Satânico Dr. Mao? O que vocês já têm lançado ou vêm preparando aí pra lançar? A ideia deste projeto é seguir fazendo um som na mesma linha do Garotos Podres?
Neste mês de março estamos gravando o nosso álbum de estreia. Depois de pronto o álbum é que nos vamos começar a preparar nosso show. De uma certa forma creio que O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos é uma continuidade dos Garotos Podres, com algumas inovações e experimentações. Algumas músicas são mais sérias, com conteúdo de crítica social, e outras são sacadas humorísticas e/ou sarcásticas, mais ou menos como era no Garotos.

Você agora se sente mais solto para escrever letras que de repente os outros dois integrantes teriam censurado?
Obviamente estar ao lado de pessoas que realmente sabem tocar e que não ficam torcendo o nariz para as letras que faço, ajuda muito. As ideias, sejam elas boas ideias ou simplesmente ideias de jerico, fluem com mais naturalidade.

Pelo que vi no Facebook eles estão planejando lançar um disco sob o nome Garotos Podres. Você não acha que isso pode deixar a história mais pesada pro lado deles com a Justiça, já que você registrou o nome?
Acho que eles estão correndo um risco muito grande. Dependendo da decisão da Justiça os CDs que eles estão prensando podem ser apreendidos ou coisa assim.

E pra quem vai a grana de produtos como os shapes de skate licenciados para a marca Sick Mind?
Em relação à Sick Mind, isto pode trazer problemas também, pois estão comercializando indevidamente uma marca. Acho que todos eles são adultos e sabem quais podem ser as consequências disto. Um deles é, inclusive, bacharel em Direito. Nenhum deles poderá alegar que não sabiam do que poderia acontecer. O mesmo posso dizer das empresas e contratantes de shows.