Por que ‘Pastiche Nagô’ é essencial para entender o samba-punk-torto feito em São Paulo

No calor do lançamento em vinil do álbum de 2008, conversamos com Kiko Dinucci sobre como o fundamentalismo do hardcore paulistano, a cena do Ó do Borogodó e como não saber tocar direito foram o caldeirão fundamental para o agora clássico disco.

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07 outubro 2016, 4:57pm

Todas as fotos por Anna Mascarenhas.

Se você morava em São Paulo há uns 10 anos, era razoavelmente jovem, minimamente ligado em música brasileira — especialmente num samba ou chorinho —, então há grande chance de você ter colado, aparecido ou ter sido carregado para o Ó do Borogodó, ali na Horácio Lane, bem na beira da Rua Cardeal Arcoverde. Lá era palco de gente da estirpe de Yamandu Costa,  Dona Inah, Alessandro Penezzi, entre outros nomes tradicionais, mas por cinco anos, toda quarta-feira, foi cenário também para o samba tortaço do Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico. Além disso, o Ó foi o laboratório para o álbum Pastiche Nagô, que sai em vinil nesta sexta-feira (7) depois de oito anos de sua estreia. "A gente foi criando os arranjos às quartas-feiras e nunca ensaiamos. O ensaio era toda quarta. Dava o tom, começavamos a tocar e saía de algum jeito. Nos permitíamos certas invenções na hora. Era anárquico, era bom", explica Kiko Dinucci.

Bom, antes da gente dar uma esticada aqui nesse chiclete, dá o play e vai escutando o disco.

Mês passado a gente levantou aqui a importância do Golpe de Vista, mais recente álbum de Douglas Germano, para se entender a cena samba-punk em que se encontram hoje Metá Metá, Passo Torto, Juçara Marçal, Thiago França, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e todas as suas ramificações. O disco do Douglas, se você ouvir atentamente, liga muitos pontos. Mas para entender de onde vem tudo isso, e a que ponto chegamos, é fundamental escutar o Pastiche Nagô.

Lançado em 2008 pela Desmonta Discos , ele é Paulo Vanzolini, Plinio Marcos, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, Itamar Assumpção, mas é também a malícia da Boca do Lixo, é João Antônio, é Chico Botelho, é São Paulo até o último fio de cabelo. "Nós começamos a procurar uma linguagem que debatia o que era o samba paulista. O que é o samba paulista, será que é só tocar o samba do Rio, só que cantado com sotaque paulista? A gente começou a investigar o samba rural e outras expressões do interior como o batuque, o jongo", comenta Dinucci. O violonista ainda levanta um bode recorrente nas rodas de samba da cidade. "Os caras só ficavam tocando música do Rio de Janeiro. Quando é que vai acabar esse estereótipo do malandro carioca? Eu ficava vendo os caras em roda de samba imitando o sotaque do Rio. Meu, o cara é da Pompeia, por que ele tá falando 'mermão'? Eu ficava meio puto."

Kiko Dinucci.

Não, não foi uma ação pensada. A impressão que se tem é que Douglas e Kiko eram tão viscerais em seus violões, vozes e composições não por algo racional, mas porque não saberiam ser de outra forma. É muito mais coração, e talvez estômago, do que cabeça. "A pretensão não era entrar pro mundo do samba, a gente já sabia que estava descartado. Não vamos lá na Lapa pagar de paulista malandrão que não vai rolar", comenta Dinucci e acrescenta. "Lá no Ó o Yamandu [Costa] ia tocar, o [Alessandro] Penezzi tocava toda segunda-feira. Eram mestres do violão e eu não conseguia tocar que nem os caras nem que eu estudasse dez horas por dia. Aí eu pensei em tocar samba do meu jeito e criar uma porra minha que os caras não iam saber tocar. Vai ser fácil e simples, mas eles não vão saber. O cara que estuda dez horas por dia não vai conseguir tocar."

E nessa esquisitice ele foi vendo que a imperfeição, assim como na arquitetura ou engenharia civil, também está na música de São Paulo. "Comecei a perceber que o samba paulista era meio defeituoso. Você pega o disco do Geraldo Filme é música caipira, o Adoniran era do interior. Ele era defeituoso em comparação ao samba de rádio do Século XX, que era o samba da Rádio Nacional e o samba carioca. Comecei a buscar essa naturalidade e foi importante para a formação de identidade do trabalho. Olhar pra música de São Paulo e não para o samba de São Paulo e ver que esse "defeito" você acha no Itamar, no Arrigo, no Luiz Tatit."

Era samba? Era. Era parecido com o que estávamos acostumamos a escutar? Nem a pau. Kiko fala de seu passeio por outros ritmos. "Eu tive uma treta com o hardcore, porque comecei a achar reacionário e era mesmo. O hardcore é o lado reacionário do punk. Eu gostava de coisa libertária, das bandas que experimentavam outras sonoridades. Você pega o The Clash tocando reggae eles estão tocando do jeito deles, não tão tentando imitar o jamaicano, mas tão tocando o reggae e é punk". O músico ainda reclama da vigilância do movimento. "Eu pertencia a uma cena straight edge, que era totalmente contra beber, fumar. Daí todo mundo começou a virar vegan e começou a vigiar o outro", conta o guitarrista, que desencanou do HC e entrou no jungle antes de desembarcar no samba.

'Pastiche Nago'.

Kiko Dinucci comenta como o disco, mesmo oito anos depois, ainda bate. "Ele é original, tem uma sonoridade que é dele. Ele traz muita novidade pra época, por exemplo, ninguém da minha geração falava de orixá daquele jeito" Ele ainda relembra como foi a repercussão depois do lançamento. "Quando o disco saiu a galera comparava com Baden Powell. Tem a coisa do violão, tem influência, e tanto eu quanto o Douglas ouvimos muito  o Baden Powell. Mas eu não tava nem aí pro Vinicius, na real eu achava que ele tinha escrito tudo errado. Quando eu fui conhecendo a religião eu falava. 'Nossa, o Vinícius só falou bosta. Ossanha, traidor. Que merda é isso'. A galera me perguntava em entrevista e eu falava que ele não sabia porra nenhuma. Jovem, né?"

Outra coisa que muita gente sempre relacionou ao disco, o afrobeat, não faz muito sentido pro Dinucci. "A galera falava também que parecia afrobeat, mas eu nem sabia o que era. Fui escutar depois o Fela Kuti. Eu acho que parece muito mais Gilberto Gil do que Fela Kuti."

A bolacha chega às ruas nesta sexta (7) pela Marafo Records, que inclusive tem esse nome por causa de um trecho de "Engasga Gato", canção que abre o disco. "Malunga, água de briga marafo, maria branca. Montuava na subida e três tombo na barranca". As dez faixas deste trabalho são grandes pérolas deste tal samba torto feito em SP. Clássicos como "Padê Onã", "Rainha das Cabeças" ou "João Carranca" são infinitos, canções que ganharam sua imortalidade assim que tocadas. Músicas atemporais, se exploradas pelas próximas gerações, serão fundamentais para se entender o que é feito na música de São Paulo hoje.