Foto: Weslei Barba.

Um papo com Oz Guarani, o primeiro grupo indígena de rap de São Paulo

Inspirados por Racionais MC’s e Sabotage, o trio Jefinho, Mano Glowers e Vlad Macena se aproximou durante protestos contra a reintegração das aldeias Tekoa Pyau e Tekoa Ytu, no Jaraguá.

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abr 19 2017, 5:36pm

Foto: Weslei Barba.

No último mês, visitei as aldeias Tekoa Pyau e Tekoa Ytu, ambas comunidades indígenas localizadas no Jaraguá, zona oeste de São Paulo. As aldeias de lá abrigam mais de 200 famílias, que moram em casas bem simples, de pau a pique ou cimento. Lá, a comunidade indígena se assemelha a muitas outras comunidades em que estive. Crianças brincam e dividem o espaço com inúmeros cachorros. Velhos, jovens e crianças conversam descontraídos, quase nem sempre se importando com quem passa à sua frente. Mas sempre tem aquele funk ou hip-hop tocando em um celular na esquina.

Outras semelhanças vão aparecendo e logo penso que esta poderia também ser a minha comunidade. Fico pensando, talvez exista algo incomum nesta aldeia em relação ao local em que vivi durante certo tempo da minha vida? Logo percebo que sim: São os índios. Somos diferentes, eu sei, mas nem por isso eu vou deixar de me sentir próximos a eles. Foi seguindo este pensamento que fui novamente às aldeias na última semana para conversar com os índios e saber um pouco mais sobre o cotidiano de lá. Para me ajudar nessa conversa conheci dois jovens, Jefinho e Mano Glowers, moradores e cantores de rap da região. Eles fazem parte de um dos primeiros grupos de rap indígena de São Paulo. Eles são o Oz Guarani.

Jefinho. Foto: Weslei Barba.


Na ponta de uma flecha, rimas rápidas são misturadas em versos e transformadas em relatos do cotidiano indígena. No comando deste arco, índios guarani utilizam o rap para expor as desigualdades que enxergam em sua comunidade e aproveitam para chamar a atenção da sociedade na luta por direitos e igualdade entre os povos. "A gente começou há dois anos durante uma ordem de reintegração de posse solicitada judicialmente. Foi durante este tempo, indo em protestos e assembleias, que me aproximei do Mano Glowers e do Vlad Macena. Decidimos escrever uma carta para mostrar para a sociedade o que estávamos passando naquele momento. Foi aqui na aldeia Tekoa Pyau que a gente começou a rabiscar essa carta que futuramente se transformaria na primeira letra de música do grupo", diz Jefinho. A música em questão é "Guerreiro da Aldeia Jaraguá", e exalta a sobrevivência de grupos indígenas relatando as dificuldades que os jovens passam em seu cotidiano.

Os caras contam quais são as suas maiores referências musicais e porque escolheram o rap como linguagem. "Escutamos desde pequenos muitos rappers de fora, entre eles Sabotage, Facção Central, Racionais MC's. Tivemos a ideia de fazer um rap falando de resistência indígena, do cotidiano nosso. A gente sabe que o rap não é uma moda. Acreditamos que o rap é um protesto e uma chance de você relatar todos os seus problemas. O rap é uma oportunidade de se soltar mesmo. Foi uma libertação para nós", comenta Jefinho.

Mano Glowers em sua casa. Foto: Weslei Barba.

Uma freada brusca interrompe a nossa conversa por um instante. Lembro que estamos próximos da rodovia dos Bandeirantes. "Olha isso acontece sempre, é um barulho constante, dia e noite, carros atrás de carros. No início, era só mato e as nossas aldeias ao redor. Hoje infelizmente temos essa rodovia como vizinha. Ela só nos trouxe poluição e doenças para o nosso povo" comenta Jefinho. Quando volto a me virar para recomeçar a conversa, penso que o clima naquela estrada era outro, mais caótico, poluído e barulhento. Viver próximo a uma grande rodovia não deve ser fácil, veículos constantes levando fumaça direto para aldeia ou até mesmo atropelamentos são problemas permanentes entre os guaranis. Jefinho também diz que já perdeu amigos guaranis, que morreram ainda na adolescência. "Nosso sonho pro futuro é que o grupo possa um dia cantar sobre outros temas, como letras onde crianças brincam com sarabatana, arco e flecha, pescam nos rios ou sobre nossa cultura e identidade indígena."

Morador da aldeia Tekoa Pyau. Foto: Weslei Barba.

A pouca infraestrutura da aldeia é análoga às condições de produção do jovens rappers. Felizmente eles contam que possuem alguns parceiros. Pessoas de outros cenários culturais são responsáveis por oferecer ajuda como transporte, caixa de som, microfones e mesa de DJ. Porém, não é sempre que essa santa ajuda acontece. "A gente não tem uma produção grande, somos independentes e corremos atrás das coisas. Mas a vida indígena é conhecida pela sua capacidade de luta e resistência. Foi através da arte que a gente conseguiu enxergar outro caminho. A partir disso percebemos que estávamos representando a nossa comunidade e as nossas crianças através da música. A nossa voz no rap é muito importante para que a sociedade possa entender o que a gente está passando", conta Jefinho.

Foto: Weslei Barba.

Jefinho explica que se alguém de fora vem para aldeia e diz que está procurando os meninos do rap a comunidade já indica os caras facilmente. "Ficamos felizes com esse reconhecimento da comunidade. A vida do indígena nunca foi fácil mas é com essas pequenas conquistas do nosso cotidiano que encontramos mais energia pra continuar lutando e cantando", mas só reconhecimento não enche barriga.

"Nosso grupo não ganha dinheiro se apresentando. O que a gente procura mesmo é que a sociedade escute a gente e também saber como os indígenas estão enfrentando essas leis de não indígenas. Não pensamos em dinheiro ou em materiais não indígenas. Só queremos quebrar esses preconceitos e desrespeitos que a gente vive enfrentando. Mas é comum ver pessoas que chegam na aldeia oferecendo infraestrutura pra gente e na hora do vamo vê os caras somem e deixam a gente na hora de que mais precisamos", explica Jefinho. O grupo diz que precisa de beats para produzir novas músicas. "A gente não tem um DJ acompanhando os trabalhos e com isso a gente pega os beats gratuitos da internet. Seria bom ter um DJ com a gente, para ajudar na construção do trabalho. Ter a nossa própria base de beats é muito importante."

Abaixo, mais imagens do Oz Guarani.

Casa do Jefinho. Foto: Weslei Barba.

Foto: Weslei Barba

Jefinho e Mano Glowers chegando na aldeia. Foto: Weslei Barba.

 

Foto: Weslei Barba


Cachimbo de fumo de corda. Foto: Weslei Barba.

Mano Glowers. Foto: Weslei Barba.

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