O 'Pela Paz em Todo Mundo' do Cólera ainda é um dos maiores discos de rock do mundo

Trocamos uma ideia com o baterista Pierre sobre o clássico do punk mundial (é, isso mesmo), que terá os 30 anos de seu lançamento comemorados com show sábado (5), no Sesc Pompeia, em SP.

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04 novembro 2016, 2:40pm

Pela Paz em Todo Mundo (1986) , do Cólera, é o álbum que marca a transição do punk nacional de seu estado cavernoso para algo mais esperto. Refiro-me às esclarecidas críticas e às emotivas interpretações que o grupo, na época formado pelos irmãos Redson (guitarra e vocais) e Pierre (bateria) junto do baixista Val, trouxe para o movimento. Trinta anos depois, uma avaliação em retrospecto deixa cristalina a força do legado estético e político da obra. Pela Paz... inaugurou o encontro da urgência de uma luta de classes com um senso de melodia até aquele momento incomuns no cenário local, antecipando os ingredientes do hardcore melódico que surgiria mais forte só em meados da década seguinte.

Para os que alegam ser complicado fazer rock daora em língua portuguesa, aqui está um afiado demonstrativo das possibilidades oferecidas pelo idioma. O Redson, que tinha uma sensibilidade muito grande, sabia colocar habilmente em versos simples e diretos sentimentos muito complexos. Traduziu, assim, o espírito de uma geração de moicanos em hinos de revolta urbana, difíceis de ouvir sem cantar junto para qualquer um que se sinta representado. Faixas como "Vivo na Cidade" e "Adolescente" surgiram como o puro grito instintivo contra a autoridade em todas as suas formas de padronização social.

Outros exemplos são "Medo", "Funcionários", "Direitos Humanos", "Alucinado", e a própria faixa-título, que, com uma abordagem apaixonada, fala proximamente ao ouvinte. Fruto de um caos político que mesclava a atmosfera pós-ditadura no Brasil do governo Sarney (1985-90) com os efeitos desesperançosos da inflação e da ainda vigente Guerra Fria, que durou até 1991, a mensagem e o som de Pela Paz... conservam qualidades permanentes. Sobretudo por conta da iniciativa de falar pela primeira vez com afinco sobre questões como ecologia, autogestão, antimilitarismo, pacifismo e apoio mútuo.

Na época, Pela Paz... vendeu cerca de 30 mil cópias via Ataque Frontal, marca incomum para um lançamento independente até mesmo hoje em dia -- para efeito comparativo, o primeiro do Garotos Podres (Mais Podres do que Nunca; 1985), tido como o recordista independente em vendas do período, bateu cerca de 50 mil. O disco sucedeu com impacto a boa impressão causada pelo estreante Tente Mudar o Amanhã, de 1985, e no ano seguinte, a positiva repercussão fez do Cólera a primeira banda punk tupi a excursionar pela Europa.

Com a morte do Redson, em 2011, Wendel Barros e Fabio Belluci assumiram respectivamente a voz e a guitarra. A remasterização e disponibilização online de toda a discografia do Cólera por iniciativa da EAEO Records deu um gás nas atividades da atual formação. Neste sábado (5) tem show comemorativo aos 30 anos do registro no Sesc Pompeia, em São Paulo, a partir das 21h30. Clique aqui para saber os detalhes. O evento vai contar com as participações do Fabião, vocal do Olho Seco, e da Sandra Coutinho, que toca baixo e canta n'As Mercenárias.

Na intenção de marcar a data histórica e aquecer pro show, fui atrás do Pierre pra tentar sanar as minhas curiosidades acerca do clássico em questão. Não foi dessa vez que consegui saber sobre a arte da capa, mas a ideia rolou legal. Dá o play no disco logo abaixo e ouça enquanto lê:

Noisey: Como o contexto social no Brasil, no mundo e no punk, à época da composição e gravação do Pela Paz, inspirou o repertório?
Pierre: Não existia um contexto para isso ou aquilo. Na verdade, era uma abordagem geral sobre tudo o que acontecia em todo o planeta, independentemente de qualquer segmento ou situação específica. Era uma situação que afetava a tudo e a todos simultaneamente, e que nos levou a fazer as músicas com letras e pegadas que despertassem nas pessoas a necessidade da conscientização global sobre todos os problemas pelos quais o mundo estava passando. De uma simples discussão do dia-a-dia até a devastação e destruição da fauna e da flora, passando pelos conflitos religiosos, sociais, culturais, pessoais, familiares, e a total estupidez do uso de armas de destruição em massa. Tudo estava caminhando para um caos generalizado – não que isso tenha deixado de existir nos dias de hoje.

Fale sobre a criação da levada de bateria do Pela Paz, característica da banda.
Ela realmente faz parte do estilo da banda, com bastante destaque no Pela Paz, mas eu não criei essa levada. Foi o que eu consegui tocar na época, para acompanhar o estilo que havíamos criado para o Cólera combinando influências das três bandas que usamos como referência: U.K. Subs, The Clash e Stiff Little Fingers.

As letras das músicas eram discutidas pela banda?
Sim.

Como as ideias dos temas circulavam ou eram debatidas entre os integrantes?
O Redson fazia uma letra básica, no embromation, só para acompanhar uma música que estávamos desenvolvendo. Durante o processo, as letras iam surgindo, mas, às vezes, quando parecia estar tudo encaminhado, mudávamos uma parte ou toda a letra. Tínhamos sempre esse cuidado para evitar ofender pessoas, direta ou indiretamente, sem o devido merecimento.

Este álbum apresenta assuntos que se tornaram recorrentes no Cólera, como o pacifismo, a ecologia, reflexões sobre a vida do trabalhador que vive na metrópole, antimilitarismo, e até um certo existencialismo, como em "Adolescente", "Medo" e "Alucinado"... Podemos dizer que o Cólera foi inovador ao tocar nessas questões mais específicas dentro do punk?
Acho que não foi uma questão de inovar ou algo assim. Acredito que tenha sido mais uma forma diferente que encontramos de nos expressar a respeito dos mesmos temas, tratar dos assuntos mais especificamente.



Foto: divulgação.

Como foi a experiência de produzir e gravar o disco em estúdio?
Do meu ponto de vista, o mesmo dos demais, chato, cansativo e estressante!

A remasterização do álbum soa hoje como vocês gostariam que o disco tivesse soado na época de seu lançamento original?
Não. Nem pra esse e nem para nenhum outro eu vou achar melhor. Por mais que o público ou qualquer um diga o contrário, o original é sempre o original.

A prensagem original do Pela Paz vinha acompanhada da "Declaração Universal dos Direitos Humanos" e de um manifesto intitulado "Registro Arqueológico Sobre o Século XX". Aquele manifesto foi escrito pela própria banda? Como vocês tiveram essa ideia?
A ideia da declaração foi uma maneira de tentar acordar as pessoas para a situação dos menos favorecidos. Já o texto do "Registro Arqueológico", foi idealizado e escrito pelo já falecido Roberto Peixoto, que trabalhava no Circo Voador, no Rio de Janeiro.

Quais são as influências não musicais do Cólera no Pela Paz?
Tivemos somente influências musicais. Os ideais ganhavam forma a partir da nossa própria visão e sentidos sobre as coisas. Sempre nos baseamos pelo que entendemos da situação, e não pelo que os outros acham que devemos entender. Usamos do nosso entendimento e conhecimento sobre a causa para nos expressar.

A ilustração da capa também é clássica. Quem teve a ideia e como ela foi elaborada? Alguma razão específica motivou aquele amarelo no fundo?
Não lembro ao certo, mas acho que não participei diretamente da elaboração dessa capa, só via um ou outro esboço, às vezes. O negócio rolava no meio da semana, e eu tinha que trabalhar, então não dava tempo de estar presente. Normalmente eu só via no final de semana.