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Ouça 'Chorei', música inédita do disco novo do Kiko Dinucci

Entre o samba e o punk, Kiko lança 'Cortes Curtos', seu primeiro disco solo, e você ouve uma das faixas em primeira mão no Noisey.

Na próxima terça (7), Kiko Dinucci lança seu primeiro disco solo, Cortes Curtos. As 15 faixas trazem guitarras tortas e matemáticas embalando letras que falam sobre morte, nascimento, Facebook e, claro (é o Kiko, porra), as nuances mais malucas da cidade de São Paulo. Antes do lançamento, o Noisey libera uma faixa exclusiva: "Chorei", composição de Beto Villares que traz a participação da cantora Juçara Marçal.

Muito mais rock do que samba, o disco tem na capa uma foto de Kiko sendo enquadrado pela polícia durante um show em apoio ao Movimento Passe Livre. "Foi constrangedor porque um monte de gente que foi ver meu show acabou assistindo o meu enquadro", conta.

Produzido pelo próprio Kiko, que canta e toca guitarra, Cortes Curtos traz Marcelo Cabral no baixo, Sérgio Machado na bateria e foi gravado por Rodrigo "Funai" Costa no Red Bull Studios, em São Paulo, durante cinco dias no segundo semestre de 2015. "No mesmo esquema que gravo os discos do Metá Metá e Passo Torto: tudo muito rápido e objetivo."

Kiko e sua banda. Foto: Felipe Gabriel/Red Bull Content Pool

Como em boa parte dos projetos de Kiko, as letras trazem crônicas às vezes trágicas (em "Vazio da Morte", o personagem cogita subir até o topo do prédio do Banespa para se matar), às vezes irônicas e cínicas, como em "A Morena do Facebook ("Lá vem ela, a morena do Facebook / Ela é mais bonita que a foto do perfil"). "Eu pensei em escrever tudo como samba e depois botar uma roupagem punk", justifica. 

Filho do metal, do hardcore, do punk e do samba, o músico reflete essas referências em seu mais recente trabalho, que chega encorpado e agressivo. "Fui me entediando com tudo, e esse tédio me fez fazer a música que faço hoje, que é mais ou menos a junção de todas as coisas que me entediavam." 

Todas as músicas são criações de Kiko e sua banda. Exceto "Chorei". Ele se lembra de quando viu Beto tocando-a pela primeira vez. "Fiquei de cara. Tinha tudo a ver com o Cortes Curtos, era um samba estranho. Parecia o próprio parto, cheio de dor e de gritos".

Se você ainda não deu o play, faça isso agora no player abaixo e leia na sequência os melhores trechos da entrevista com o Kiko Dinucci falando sobre Cortes Curtos.

Noisey: Por que o nome "Cortes Curtos"?
Kiko Dinucci: Por causa da duração das canções e das letras curtas. Copiei descaradamente o nome do filme do Robert Altman, Short Cuts. Não é nem de longe dos meus filmes preferidos, mas o nome me caiu como uma luva.

Por que você levou tanto tempo para lançar o seu primeiro disco solo?
O Cortes Curtos é um disco solo na visão do mercado, mas eu compus e depois levantei as coisas com o Marcelo Cabral (baixo) e o Sergio Machado (bateria). Então, não estou tão solo assim.

Essas músicas existem desde quando? Como e em quais situações elas foram compostas?
As canções começaram a nascer em 2011. "Uma Hora da Manhã" foi inspirada em uma cena que vi num supermercado: um cara desrespeitando uma mulher por ela ser nordestina e essa mulher rebatendo a agressão sendo homofóbica. Na mesma semana, rolou uma passeata na Avenida Paulista de um bando de skinheads desgraçados levantando faixas de apoio ao Bolsonaro. Então eu fui criando as canções nessa São Paulo horrorosa, racista, reacionária, opressora, que faz as pessoas adoecerem e se deprimirem.

Quais são ou quais foram suas referências nesse disco especificamente?
As canções do Cortes Curtos são basicamente sambas. As letras são inspiradas no Paulo Vanzolini e no Lou Reed do Transformer, essa crônica urbana. A sonoridade rock foi uma visita a um monte de coisas que eu sempre curti: Talking Heads, Minutemen, Stooges, Devo, Sonic Youth, Blondie, Pixies, Napalm Death, Black Sabbath, Joy Division.

Eu não imaginei que você viesse tão rock'n'roll nas faixas. É um disco de rock, penso. É um disco de rock?, te pergunto.
Penso muito sobre o que é rock hoje em dia. No geral, eu não gosto de nada de novo. Quando viajo pra Europa com o Metá, vemos bandas europeias de rock muito fracas. Som ingênuo e repetição de algo que já foi feito. Aqui no Brasil, se você for numa sambada no interior de Pernambuco e ver de perto um maracatu de baque solto, você pode descobrir que é tão hardcore quanto o Extreme Noise Terror, porém, muito mais rico e complexo. Não adianta achar que você é um doidão porque toca um rockinho engessado, ingênuo e inofensivo. Se o rock não for um insulto, então não é rock.

Foto: Felipe Gabriel/Red Bull Content Pool

Quem fez a capa do disco?
Eu. É um PM me dando um enquadro. Isso aconteceu em um show em São Paulo que fiz em apoio ao Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa. Quando cheguei pra fazer o show na escadaria do Teatro Municipal, o pessoal do movimento não tinha chegado e a polícia me pegou. Perguntaram se eu trabalhava, se era do movimento, essas bostas. Daí, enquanto o policial revistava meus pedais de efeito e guitarra, o Vitor, um colega que estava no público, tirou umas fotos no celular e me mandou. Foi constrangedor porque um monte de gente que foi ver meu show acabou assistindo o meu enquadro, uma situação surreal. Mas ao mesmo tempo eu pensei: se alguém fotografar, será a capa do disco. Não por acaso eu apresentei naquele dia — só com guitarra e voz — um monte de músicas do Cortes Curtos.

A capa teve um processo bem interessante de impressão. Fiz uma tiragem limitada em risograph, em Recife, com a Priscila Gonzaga.

Qual é a história por trás de "A morena do Facebook"?
Fiz pra mostrar um pouco o quanto a gente é ridículo nas redes sociais. As pessoas estão fechadas em bolhas, isso tá cada vez mais visível. Tudo o que o ser humano tem de mais estúpido reflete nas redes sociais com a mesma intensidade. Um dia o Face vai acabar e essa música vai ser que nem um samba do Adoniran que fala do cigarro Yolanda. Fica o registro de um tempo.

 "Chorei", do Beto Villares, traz sua parça Juçara Marçal nos vocais. Por que decidiu gravar essa?
Fui participar do disco do Marcelo Pretto, que o Beto Villares estava produzindo. No fim da gravação ele pegou o violão e tocou "Chorei". Fiquei de cara. Tinha tudo a ver com o Cortes Curtos. Era um samba estranho, falava do nascimento de uma criança, que é o momento mais feliz que uma pessoa pode ter, mas de um jeito totalmente novo, visceral, parecia o próprio parto, cheio de dor e de gritos, milagre e sangue, uma intensidade quase apocalíptica e animal. Pedi a música pro Beto e ele me enviou só um ano e meio depois. Ele é um cara que eu admiro demais.

A do suicídio no Banespa tonifica a tua verve bem paulistana enquanto compositor.
Fiz "Vazio da Morte" num dia de muita tristeza. Eu queria subir no prédio do Banespa e ver de lá de cima a miudeza do ser humano. Quando fui subir, uma funcionária me informou que a visitação já estava encerrada. Pensei que se eu quisesse me matar, eu teria que esperar o horário comercial do dia seguinte. E se eu não estivesse mais triste ou deprimido? E se a burocracia cancelasse até um suicídio? Comecei a pensar essas besteiras e fui esquecendo de ficar triste. Quando dei por mim, já estava compondo, andando no meio das pessoas.

O disco começa tenso, caótico e depois entra numa pegada de ironia e humor. Como você define o Cortes Curtos? O que ele significou pra você?
Acho o humor uma afronta. Não é a toa que Hitler perseguiu os humoristas e palhaços. No meu caso, uso um humor mais sombrio e cínico. É uma coisa que desenvolvi como defesa contra a timidez. Gosto de muitos artistas que usaram esse lado mais irreverente: Tom Zé, Jards Macalé, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé...

Vai ter show de lançamento?
Vai sim: dia 9 de março na choperia do SESC Pompeia em São Paulo, e dias 15 e 16 de março na Audio Rebel, no Rio de Janeiro. Terá CDs à venda.

O Metá Metá demorou maior tempão pra chegar nos serviços de streamings. Você vai torturar seus fãs também?
Quero botar em todos os lugares possíveis, mas, por enquanto, quem quiser ouvir vai ter que entrar no meu site e baixar de graça. Ao mesmo tempo a pessoa poderá baixar meus outros 17 discos, ver um monte de desenhos meus e assistir aos meus filmes. O streaming é prático pra caramba pro assinante/ ouvinte, então devo botar lá no futuro também. Acho que não vai demorar tanto quanto o Metá.

Quais são os planos agora? Vai ter turnê de divulgação? Como será?
Vamos fazer tour sim, será o Quartos Singles Tour. É fácil e barato nos contratar, somos só três. Agora que estamos na casa dos 40 anos queremos dormir sem o ronco do coleguinha e ter o mínimo de privacidade. Contrate essa banda incrível por um preço viável, mas garanta os quartos singles.

Para baixar todos os trampos artísticos do Kiko Dinucci, vá até o site dele.