Jardiel Carvalho

Eles amam o Thug, mas desprezam o Raffa Moreira

Quem é o rapper de Guarulhos que se tornou um dos personagens mais comentados do underground brasileiro.

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06 abril 2017, 1:00pm

Jardiel Carvalho

Fotos por Jardiel Carvalho

Poucos dias antes do Lollapalooza 2017, Raffa Moreira recebeu uma ligação um tanto inesperada: um jornalista do G1 conseguiu descolar o seu telefone e o ligou para saber a opinião dele sobre o Haikaiss, uma das atrações do festival, que aconteceu nos últimos sábado (25) e domingo (26). "Eu xinguei o repórter por uns cinco minutos", disse o rapper guarulhense em entrevista ao Noisey. "Fiquei repetindo: 'Meu número é pra uso pessoal ou pra marcar show, cara. Não é pra ficar dando posicionamento'. Achei que era alguém querendo me sacanear, gravar o áudio e espalhar nos grupos do Whatsapp por aí". Mas não se tratava de nenhuma "sacanagem", não: no outro dia, Raffa acordou com um inbox de um amigo, que mandava, junto com várias mensagens de risada, o link de uma matéria do portal.

O motivo pelo qual o repórter do G1 procurou o rapper foi porque, desde que o Poetas no Topo anunciou que o Pedro Qualy, do Haikaiss, participaria da terceira edição do cypher, o Raffa Moreira começou a postar intensamente nas redes sociais críticas sobre o grupo de rap paulistano e sobre o projeto da Pineapple Store. "Se eu soubesse que eles iam chamar alguém do Haikaiss, eu nunca teria aceitado participar do Poetas 2", Raffa escreveu [e repetiu várias vezes durante a entrevista] no seu Twitter. Esse e mais outros posts do rapper sobre o caso acabaram repercutindo tanto entre os fãs de hip-hop na internet que a discussão sobre racismo levantada por Raffa acabou chegando no site de notícias da TV Globo.

"Foi engraçado ver o G1 chamando eles no título de 'quartetos de rappers brancos', mas é isso que eles são, né? Não é como se eu tivesse mentindo", disse Raffa. "Mas achei estranho a galera ter ficado surpresa com o que eu falei sobre o Haikaiss. A minha treta com o Damassaclan [coletivo de rap do qual o Haikaiss faz parte] já é de milianos". Quando ele diz que é de "milianos", Raffa está se referindo à letra da sua faixa "F E R N V N D X (Intro)", de 2015, no qual ele canta: "Não entendo DamassaClan/E eu quero a sua irmã!/"Eu odeio o Don Cesão!"/Cash, show lotado/Isso não te faz real". "Pra mim, desde o começo, sempre foi muito claro que os caras [DMC] têm uma pauta burguesa nas letras. E isso é diferente do rap que eu conheci", explicou o rapper. "É um monte de playboy branco, sabe? Não que eu seja um cara velho que ache que a música não tenha que se reciclar. Não é isso. É só que o rap foi criado por negros. É um bagulho de negros. Na América, continua negro. Aí, no Brasil — um país roubado pra caramba, onde a corrupção reina, onde o pobre e o negro já são fudido —, eles [Haikaiss], que já têm uma condição melhor e são brancos, tão dominando tudo [no rap] hoje".

Foi fumando um baseado atrás do outro — nas três horas de conversa que o Noisey teve com ele, pelo menos quatro beques foram acesos e divididos entre Raffa e sua "gangue" do trap Blackout, Imob Zind [que participaram da faixa "T.O.P.O."] e Fuky — e bebericando uma catuaba às 14h de uma quinta-feira, que o rapper recebeu a equipe do Noisey na sua casa, na região periférica de Guarulhos. Apesar de ter ido morar com a esposa Tayara Andrade há apenas uns 6 meses, um pouco depois que o casal descobriu que ela estava grávida, Raffa garantiu que todos os lugares em que viveu na cidade se pareciam mais ou menos com aquele: todos simples, "mas sem nunca faltar nada". "Nasci e fui criado a vida inteira nas quebradas guarulhenses. Tive brinquedos e nunca passei fome, mas claro que nunca tive os games e skates 'daora'".

Filho de mãe manicure e pai ex-contador, Rafael Fernando Moreira entrou em contato com a música desde cedo, por influência da família. "Meu pai tocava em roda de samba e meu avô participou no começo daquela Escola Camisa Verde-Branco", falou o rapper. Quando era menino, frequentava a igreja com a mãe e foi lá onde ele começou a aprender a tocar. Com uns doze anos de idade, montou banda de hardcore, na qual tocou até uns 16 anos de idade. "É tudo próximo, né? Banda de hardcore e grupo de rap. Os dois têm uma pegada meio revolucionária". Ele diz que ouve hip-hop desde moleque, mas que "pirou mesmo no bagulho" em 2009, quando saiu a primeira mixtape do Emicida, Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe. "Eu me encontrei nesse som, porque eu vivia o que ele falava ali. Imagina, eu, pobre, com 21 anos, já tendo que trabalhar pra sustentar meu primeiro filho". Antes de namorar Taynara, Raffa teve um relacionamento com uma outra mulher, com quem teve duas crianças: a primeira, quando ele tinha apenas 18 anos. "Quando descobri que a minha ex tava grávida, eu sabia que não ia dar pra casar nem nada, mas também não queria que ela se fodesse sozinha cuidando da criança. Aí, arrumei um trampo de telemarketing pra poder ajudá-la."

Enquanto namorava essa ex, Raffa deu início a seus estudos de guitarra e violão, no centro da cidade de São Paulo. Na mesma época, ele e a sua mãe dividiam a mensalidade da faculdade de marketing, a qual passou a cursar logo após o colegial. "Eu até terminei o curso e arrumei uns trabalhos na área de atendimento numa farmácia, mas nunca me encaixei direito nesse tipo de emprego", falou o rapper. Com as aulas de música, ele pôde começar a fazer uns bicos em umas bandas. "Já toquei com banda de rock, dupla sertaneja, grupo de pagode, sempre como músico 'freela'", contou Raffa, que explicou que, apesar de já ter tocado vários gêneros musicais, sempre foi o "Rafael Fernando Moreira Michael Jackson de Guarulhos Gang Gang Skr" — principalmente depois de ter se deslumbrado com o Emicida. "Eu sempre gostei de rap, mas precisava viver, precisava ganhar dinheiro. E música é o que eu sei fazer. Sou um trabalhador da música."

Em 2010, quando trabalhou com o grupo de pagode Os Travessos, Raffa conseguiu juntar um pouco mais de grana pra poder investir na sua própria carreira. Ele foi conhecendo uns produtores musicais, comprando uns beats, até que, em 2011, ele dropou sua primeira música. "Fiquei um tempo parado, sem soltar nenhum material meu. Até que um amigo me disse que não adiantava eu ter todo esse meu posicionamento como artista e ter lançado só uma ou duas faixas". A partir de 2015, Raffa começou a lançar mixtape atrás de mixtape. A primeira foi Fernvndx Mixtape, que reunia quatro tracks que ele tava produzindo desde 2014. "Desde a Fernvndx, a minha sonoridade é trap, porque eu faço o som do futuro", disse o rapper, que acrescentou: "Quando vi o clipe de 'Yonkers', do Tyler [The Creator], com ele vomitando e fazendo aquelas coisas loucas, eu pirei e passei a acompanhar ele, a galera de Atlanta e mais tudo da cena gringa. Então, se lá está evoluindo pro trap, eu tô evoluindo junto com eles."

Entre uma faixa do MC Igu, uma do 22 Savage e outros traps que ele ia intercalando freneticamente no seu notebook, Raffa me explicou que ele faz sons do gênero também por vontade de cantar sobre o seu dia-a-dia. "O trap nasceu no tráfico, mas não é como se a gente quisesse mudar a nossa realidade", falou o rapper. "A gente tá bem aqui. Estamos felizes e acabou: tem vadia, dinheiro entra, dinheiro sai. Eu tava vendo as letras de uns traps que eu escuto que falam coisas do tipo: 'Vadia, vadia, vadia, vadia. Eu dei 35 tiros num cara e comi uma vadia'". Ele fala que pelo menos tenta fazer umas letras mais profundas, pra depois misturar com essa putaria. "Mas o trap é isso, fazer o quê?".

O Lil B "THE BASEDGOD" também é outra referência bastante presente na personalidade do "Rafael Fernando Moreira Michael Jackson de Guarulhos Gang Gang Skr". Tanto a vibe meio nonsense do rapper californiano quanto o fato de ele mesmo se denominar "THE BASEDGOD" —o que inclui, além de ser "Deus", ter muitas 'vadias', grana e 'swag'—, são características que inspiraram muito Raffa na construção do seu personagem artístico. "O cara [Lil B] tem um disco chamado I'm Gay, o que é controverso, já que ele não é gay. Mas ninguém o entende e mesmo assim ele tem essa pira de ser 'Deus', o que eu acho muito foda. E o B também muitos haters, assim como eu". Por muito tempo, Raffa ficou mandando vários inboxes pro Lil B via Facebook, falando que era muito fã do trabalho dele e que o hip-hop no Brasil precisava de muita atenção e ajuda, pra não ser dominado por brancos. Até que um dia, o rapper o respondeu com um "joinha", provavelmente sem querer, mas o que fez o guarulhense surtar e propor uma colaboração com o rapper gringo, que respondeu: "Send me your stuff" ["Me mande alguma coisa sua", em português]. "Eu quero mandar o meu melhor trabalho pra ele. Vou me dedicar pra compor a minha melhor música antes de enviar pro Based", disse, rolando a tela do celular, enquanto mostrava as inúmeras mensagens que ele já tinha mandado no inbox do Lil B.

Mas não são só artistas de rap que influenciam o Raffa. Na verdade, o Michael Jackson é a maior inspiração do rapper. Tanto que, como vocês, leitores, já devem ter notado no decorrer do texto, ele se autodenomina "O Michael Jackson de Guarulhos". "Eu sou o Michael Jackson de Guarulhos e é isso. Não tem como eu explicar. A veia musical que ele tem, eu tenho. A veia pop que ele tem, eu tenho". Inclusive, essa obsessão dele com o eterno Rei do Pop deu origem à sua segunda mixtape, a Michael Jackson Mixtape (2016), na qual ele explica melhor, principalmente na faixa-título, o porquê de ter instituído pra si mesmo esta alcunha e também o porquê de ele se referir aos seus 'haters' como Freddy Krueger, personagem da série de filmes de terror A Hora do Pesadelo (1984), na faixa "Michael Jackson Vs. Freddy Krueger". "Eu sou o Michael Jackson, eu sou a personificação rap, eu sou o verdadeiro hip-hop. Vocês [haters] que me odeiam são o Freddy Krueger, porque destroem sonhos igual a ele. Toda vez que vocês falam 'Pare, irmão!' pra mim, vocês estão tentando destruir o meu sonho, mas não vão conseguir."

Haters não faltam pro Raffa. Seja via Facebook ou Twitter, ele recebe todo dia dezenas de mensagens dizendo "Pare, irmão", em quase qualquer das suas postagens. "Eu uso as redes sociais como qualquer outra pessoa. Às vezes posto algumas coisas aleatórias. Tem uns tuítes sobre depressão ou falta de vontade de viver, mas é que só boto o que eu tô sentido no momento. Sou sadboys. Às vezes, recebo respostas das pessoas. E acho que quando você bota muita personalidade nos seus posts, não é todo mundo que entende". Mas ele acredita que esse movimento de ódio pra cima dele é necessário e serve pro crescimento dele como artista. "Seria legal chegar num um patamar em que todo mundo gosta do Raffa, todo mundo acha o Raffa legal. Mas esse não é o que a gente quer", explicou o rapper, enquanto tragava a fumaça de um dos quatro baseados bolados durante a entrevista. "O que a gente quer é passar nossa atitude, nossa realidade. Não que quanto mais gente me odiar, melhor. É só que isso não vai fazer diferença, sabe? Os caras que eu tive como espelho, tipo João Gordo, Sepultura e Racionais, eles não começaram a carreira com todo mundo achando eles 'daora'."

A última maior treta na qual Raffa entrou na Internet começou justamente depois de ele falar mal do Pedro Qualy no Twitter, após o anúncio de que o integrante do Haikaiss faria parte do terceiro cypher do Poetas no Topo. Raffa foi convidado para participar da edição anterior, a segunda, pelo MC brasiliense Froid, que já era fã do rapper guarulhense. "Ele [Froid] já tinha postado vídeos das minhas músicas no Instagram, então eu animei e aceitei o convite pro projeto", disse Raffa. Mas explicou que, se eu soubesse de antemão que alguém do coletivo DamassaClan, especialmente o Qualy ou outro membro do Haikaiss, se envolveria em algum momento no projeto, ele não teria feito o Poetas no Topo 2. "Se fosse o Bitrinho ou o Flow [que também são integrantes do DMC], tudo bem. Eu respeito eles. Os caras são negros, militantes do rap. Só não sei se estão no lugar certo", falou o rapper. "Só que eu já tinha falado mal deles [DamassaClan] em 'F E R N V N D X (Intro)'. Meu, quando que um rapper que já fez uma diss pra outro vai querer ter o seu nome associado ao dele [no caso, ao Haikaiss]?"

Perguntei se ele não tinha medo de ser boicotado pelo pessoal que esteve envolvido no Poetas no Topo por causa desse treta com o Qualy e Raffa disse que prefere expor sua opinião do que "deixar que a minha arte seja falsa por causa dos outros". "Acho que eles [do Poetas] ficaram putos com a minha atitude, mas não é como se eu desprezasse o trabalho que foi feito ali", explicou Raffa. O guarulhense justifica que não tem cabimento ele falar nas músicas que não fecha com rappers brancos playboys e acabar participando de um projeto que esses também fazem parte. "A ideia [do Poetas] de juntar vários MCs diferentes pode até favorecer o hip-hop pra todo mundo que gosta, só que, com a entrada do Qualy, não foi bom pra mim. O público pode gostar ou não do que eu faço, mas eles precisam saber que é sincero."

Sobre a grande parte da respostas do público na Internet, que defendeu o Haikaiss e acusou Raffa de "segragação", o rapper falou que entende que "é mais fácil para a molecada o odiar" porque, além da sua postura, que dificilmente agrada todo mundo ("Fazer o quê? Eu não sou o Justin Bieber do trap. Eu sou punk, tio"), ele não consegue fazer com que o seu trabalho alcance todo mundo por falta de grana. "O Haikaiss consegue fazer vídeos mais bonitos, porque tem grana. Conseguem lotar uma casa de show com gente bonita porque são um bando de boy que conhece todo mundo e ligam pra mais outro bando de boy colar nos shows deles. Por isso que eles conseguem um apoio maior nas redes sociais", falou Raffa. "Vai 'nóis' fazer um show numa balada dessas, levar nossos parças da perifa e convencer todo mundo que o bagulho vai ser 'daora'? Até rola, às vezes, porque hoje em dia a quebrada tem muito mais condições pra sair e dar rolê, mas pra eles [Haikaiss] é bem mais fácil."

Outra consequência dessa treta com o Haikaiss é a mixtape Raw Raw Emo, que ele lançou na última terça (4). Explicando melhor: no desenrolar das trocas de ofensas nas redes sociais entre os dois rappers, Qualy acabou encontrando fotos de quando Raffa fazia parte de uma banda emo, na adolescência. O integrante do Haikaiss acabou postando essas imagens, numa tentativa de resposta aos comentários do rapper guarulhense."Não entendi como ele achou que isso [as fotos] ia me ofender. 'Ah, descolamos de onde ele saiu?'. Como assim, mano? Olha minha realidade", disse, abrindo o braço e apontando pra casa ao seu redor. "Eu sou humano e a gente vive coisas no decorrer na vida, né? Eu sou músico de harmonia também. E música é música. O emo influenciou muito no meu jeito de rimar." Então, no lugar de se sentir ofendido com a exposição do seu passado roqueiro, Raffa preferiu transformá-lo em "mixtape, mano". "Os haters acham que vão me derrubar, mas eu tô sempre um passo à frente deles".

Mas não só de mixtapes viverá o Michael Jackson de Guarulhos em 2017. Agora sob o nome de xYoungMoreirax ("Acho que o Raffa já alcançou tudo o que podia alcançar e está muito visado. Por isso, preciso colocar outro artista no mercado"), Raffa vai lançar o seu primeiro disco oficial. Ainda sem nome oficial, o álbum deve sair no dia 7 de julho deste ano, ou seja 7/7/2017, data que não foi escolhida por acaso pelo rapper. "777 é um número importante pra mim. Porque, se o [número do] Diabo é 666, [o de] Deus é 777. 7 é maior, né. É Raffa fechadão com Deus."

UPDATE: nesta terça (4), o Raffa assistiu uns documentário sobre Che Guevara e mudou mais uma vez de nome artístico, mas agora, segundo ele, é definitivo. Acompanhe o nascimento e batismo de Guapo Raffa.