Ouça "Escama", a sinfonia do gueto de Luiz Lins com Diomedes Chinaski e Baco

O MC pernambucano reúne a gangue em faixa produzida por Mazili e JNR Beats, numa mistura de trap e bregafunk.

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mar 17 2017, 3:02am

Mazili, Diomedes e Luiz na gravação do clipe de "Baby". Foto: Rostand Costa/Divulgação.

O nordeste não para. O trap nordestino não para. O Mazili não para. E a prova disso é que o Luiz Lins separou essa quinta-feira (16) para lançar seu novo som, "Escama", com participações do pernambucano Diomedes Chinaski e do baiano Baco Exu do Blues. A faixa é uma produção do Mazili — responsável pela maioria dos traps responsas vindo da parte de cima do país — ao lado do JNR Beats e você confere a música com exclusividade no Noisey.

Claro que com um time desse a gente não ia deixar batido a oportunidade de trocar uma ideia com cada um dos MCs. Esse papo você pode ler aqui embaixo, logo depois de dar um play no som.

Por que chamar o Baco e o Diomedes pra faixa? De quem foi a ideia? O lance da escama tem a ver com a gíria "escama de peixe" e o tráfico?
Luiz Lins: Eu tive a ideia do refrão voltando de um show. Senti que tava pronto pra fazer algo assim. Mazili entrou na produção com JNR e ficou daquele modelo. Eu já fecho com Diomedes, Mazili fez a ponte com Baco, e o trabalho fluiu. "Escama" é o retrato de uma real. De certa forma, a gente é condicionado a achar que não pode conquistar, por questões estruturais da sociedade, por isso o som tem um contexto sociocultural. "Escama" é uma sinfonia do gueto. Sou eu dizendo que não acredito em mentira branca. A gente pode e vai conquistar tudo. Eu e meus iguais. Tudo nosso, nada deles.

A música tem um lance gangsta da vivência nas ruas e da malandragem. De um tempo pra cá, o nordeste passou a ser um dos locais com essa temática mais em alta, vide o disco do Chave Mestra do ano passado. Por que você acha que rola isso?
Luiz: A galeragem é uma cultura bem difusa, e em Pernambuco é bem presente. A gente fala porque é a real da gente. Foi o que a gente viu e vê, vive ou viveu. Grupos como o Chave e são o reflexo dessa real. Não é ficção.

Baco, você chega pesado nas referências nesse som. "Essa bunda é pra morar, não quero alugar", a referência dupla ao seu som "999" e ao Jay-Z em "99 Problems", só pra citar algumas. Por que você acha que a citação a outros sons, MCs e versos são importantes na hora de você compor?
Baco Exu do Blues: Acho que é questão de admiração. Você deixar a referência clara a outro MC é uma forma de mostrar que se identifica com aquela arte. Compus uma imagem, na real nesse verso é um personagem na sua rotina.

Eu vejo que há uma união vindo do pessoal do nordeste, da galera se fortalecer, um participar do som do outro, coisa que não vejo muito aqui em São Paulo, por exemplo. A ideia é essa mesmo? Meter uma Pro-Era do nordeste?
Baco: Mano eu vejo muito dessa união em São Paulo pra falar a verdade, mas acho que não só o nordeste, todo o Brasil tá começando a se unir com os trabalhos que têm afinidade.

Diomedes, na sua estrofe você fala sobre ter pensado em ser bandido. No "Caldo de Cana" você dá uma orelhada na molecada que fica na praça o dia todo — e você mesmo fala que já fez isso pra caralho. Hoje o rap fala sobre uma pá de fita e, apesar do som versar sobre conseguir grana, seu papo é positivo pra molecada. Você acredita que tem essa obrigação de usar seu som pra colocar a molecada num caminho menos doloroso?
Diomedes Chinaski: Sim. Tipo, grande parte dos amigos morreram e muitos tão morrendo todo dia. Inclusive mataram um ontem na praça. Os meninos são muito ociosos. Os meninos possuem pouco conhecimento sobre a vida em geral. Eles não saberiam escrever este texto. Eles não sabem se relacionar bem, eles não conseguem ter a minha visão. Eu consegui porque em algum momento li livros. O que acontece é que depois que isso de "galeragem" em Pernambuco esfriou, os meninos precisam de uma nova forma de ser "famoso" pra impor respeito, pra atrair as meninas, pra continuar usando roupas de marca e, nisso, morrem traficando e fazendo pequenos assaltos. E no meu bairro eles me veem como porta-voz, conselheiro. Vendo os amigos de infância morrendo assim não consigo ficar calado, a parada me emociona de fato. Amigos que matam amigos. Isso é o pior de tudo. Imagina o que é a mãe saber que quem matou seu filho foi aquele amigo dele da outra rua? Por desavença de tráfico! Esta minha resposta está mal amarrada, me perdoem, mas tou escrevendo realmente emocionado, usando fluxo de pensamento. Logo, sim, preciso fazer os caras entenderem que estamos caminhando pra lugar nenhum. Não temos diplomas.

Você tem lançado um monte de som. Saiu o "Caldo de Cana", o som com o Coruja e agora esse com o Luiz Lins. O Chinaski não descansa? É aquela fita: camarão que dorme a onda leva?
Diomedes: Eu sou muito ansioso e produzo muito. Sempre fui assim. Mas às vezes não funciona bem. Mazili tem razão [ele sempre fala pro Chinaski que não é interessante ficar lançando uma pá de coisa num ritmo frenético]. Mas ainda assim lanço bastante. Creio também que quando você tinha tanta coisa pra mostrar as pessoas e agora tantas pessoas querem ouvir o que tenho a dizer que meio que lancei esse ano muita coisa pra pelo menos me aproximar dos demais rappers já em evidência. Arte é terapia. É o divã.