Foto: Marina Knup

Penny Rimbaud, do Crass, fala sobre punk, pacifismo, e o poder revolucionário do amor

Em entrevista ao Noisey, a lenda da contracultura comenta sua visita recente ao Brasil, a prática do Tai Chi, o singular encontro que teve com uma garça e o talento na arte da panificação.

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jun 7 2017, 1:00pm

Foto: Marina Knup

O Penny Rimbaud, do grupo anarcopunk inglês Crass, esteve no Brasil recentemente, entre os dias 12 e 24 de abril, para uma série de bate-papos vinculados ao lançamento da edição nacional de um box da banda/coletivo. Em sua passagem por aqui, ele participou do No Gods, No Masters Fest, em Itanhaém, no litoral de São Paulo, e também deu palestras no Sesc Consolação (SP); em Divinópolis (MG), no espaço do Movimento Negro Unificado, sob a organização do Coletivo Pulso; e em Belo Horizonte (MG), no Cine Santa Tereza, evento armado pelo Coletivo Metalpunk Overkill. Entre um evento e outro, os anarcos o levaram pra conhecer uma aldeia indígena no litoral, as praias e rios locais e esticaram visitas ao Centro de Cultura Social, na capital paulista, a uma ocupação em Belo Horizonte e ao espaço do Coletivo Pulso em Divinópolis.

Projeto concretizado pela união de esforços entre a editora Imprensa Marginal e a distro/selo/produtora No Gods, No Masters, a caixa traz um livro de 220 páginas, intitulado Eles nos Devem uma Vida - Crass: Escritos, Diálogos e Gritos, o primeiro EP da banda, Reality Asylum (1979), remasterizado em vinil, um pôster de 50x70 cm e um patch pra costurar nas costas da jaqueta. Mas as atividades não se focaram apenas no lançamento da caixa. Rolou também a exposição de fotos da Marina Knup, da Imprensa Marginal, que já conhecia o Penny por conta das duas visitas que fizera à Dial House (em julho de 2015 e agosto de 2016), a comunidade criativa de portas-abertas criada por ele há 50 anos; exibição de um vídeo experimental do Penny e uma mostra das colagens da Gee Vaucher, a artista responsável pela identidade visual e os manifestos estéticos do Crass.

Além de ter sido o fundador do Crass, ao lado do vocalista Steve Ignorant, e seu baterista até o final do grupo em 1984, antes disso Penny já atuava como pintor, músico e ativista. Ele integrou os coletivos de performance artística EXIT e Ceres Confusion e, em 72, fundou, em parceria com o Phill Russell (mais conhecido como "Wally Hope"), o Stonehenge Free Festival. Entre o encerramento das atividades do Crass até 2000 ele voltou seus esforços exclusivamente à escrita. A partir de 2001, retomou as performances poéticas junto com a saxofonista australiana Louise Elliot e uma variedade de outros músicos de jazz no Last Amendment.

A entrevista que vocês acompanham a seguir foi respondida por ele após uma sessão de gravações, logo ao retornar do Brasil. "Egrets Also Wear White", escreveu Penny Rimbaud no título das respostas que enviou às minhas perguntas. Só fui sacar a brisa dele com as garças ("egrets", em inglês) quando comecei a traduzir a última questão, que fala do encontro dele com uma dessas aves na praia.

No mais, entre pontos de vista enaltecendo a importância da amizade, da paz e do amor, ele nos conta sobre a prática do Tai Chi e o seu exímio talento na arte de fazer pães.

Egrets Also Wear White

Noisey: O que você conhecia e qual foi a sua impressão da música punk e das expressões contraculturais do Brasil?
Penny Rimbaud: Tirando o fato de eu ter uma querida amiga brasileira envolvida no movimento contracultural do Brasil, conhecia quase nada do Brasil e seu povo. Esta ignorância garantiu que eu chegasse ao Brasil sem quaisquer expectativas ou preconcepções, do jeito que eu gosto. Quando viajo, prefiro ir sem mapas ou planos, assim as coisas acontecem naturalmente ao invés de serem predetermidadas, de modo que acabo aprendendo coisas. Então, ao aterrissar no Brasil, cheguei com o coração e a mente abertos.

O que você tem a dizer sobre a série de palestras e rodas de conversa das quais participou durante sua visita ao país? Conte nos sobre os temas surgidos nos eventos.
Chegar ao Brasil livre de expectativas me deu a oportunidade de participar de conversas sem uma agenda fixa. A vontade de compartilhar as minhas experiências com quem tivesse interesse de me escutar era igual à vontade de ouvir o que as pessoas quisessem me dizer. Espero que isso tenha criado um diálogo de mão dupla. Não tenho interesse em pregar às pessoas. Meu objetivo é puramente trocar ideias e, com isso, promover a amizade, a bondade e o amor. Sempre considerei uma indelicadeza chegar a qualquer agrupamento de pessoas com uma ideia já elaborada do que falar a respeito ou agir. Antes de falar qualquer coisa, eu gosto de olhar nos olhos das pessoas, para sacar como elas estão e como se comportam, o que permite nos conectarmos num nível mais profundo e silencioso. Daí, talvez, estaremos aptos para nos comunicar verdadeiramente ao invés de meramente ficar tentando quebrar o gelo com anedotas maçantes e sem sentido. Logo, cada dia teve conversas completamente distintas, tão diversas como as pessoas que apareceram. Se havia algum objetivo da minha parte, era descobrir as coisas que eu tinha em comum com quem chegasse para me ver. Em resumo, a não ser que eu esteja envolvido num diálogo, não sinto que realmente tenho muito a dizer.

Como rolou o convite para o lançamento do box do Crass no Brasil?
Não houve nenhum tipo de proposta vinda de selos brasileiros. O que aconteceu foi que minha amiga brasileira, que me visitara aqui na Grã-Bretanha, perguntou se ela e alguns amigos com os quais trabalha numa cooperativa radical podiam produzir uma caixa com músicas e textos do Crass. Sendo eu o responsável pela maior parte do material que eles queriam usar, e certo de que fariam um ótimo trabalho de coleta numa produção relevante, eu alegremente dei a eles a incondicional permissão de seguir em frente. Fico sempre muito feliz de deixar que pessoas bem-intencionadas usem meu material visando o benefício do mundo que compartilhamos. A criatividade é uma dádiva a qual acredito que deva ser compartilhada abertamente e livremente com a comunidade. Quando é empregada para interesses pessoais, deixa de ser criativa e se torna mero bem de consumo.

Fale a respeito do material e dos textos compilados e apresentados nesse box. O conteúdo representa uma certa fase ou perspectiva do Crass sobre que tipo de questões?
Tirando a introdução do livro, a qual eu escrevi no ano passado, todos os textos são da época do Crass, de 1977 a 84. Os textos descrevem e tentam passar muito da inquietação social e política que exista na Grã-Bretanha daqueles tempos — desemprego em massa, conflitos industriais, guerra na Irlanda, cortes nos serviços sociais, pobreza extensiva, e tudo mais. Tudo isso motivou protestos legítimos, notavelmente pelas uniões de trabalhadores, e o nascimento do punk, inicialmente como algo um pouco além da rebeldia juvenil, mas que mais tarde assumiu a forma de um poderoso e significativo movimento ativo em todas as frentes, da liberação animal às políticas de gênero, do graffiti de rua à ação direta e, por vezes, defensiva*. O Crass é em grande parte responsável pelo desenvolvimento e expansão deste movimento, notavelmente reativando o Movimento Pacifista que antes disso havia se tornado algo praticamente inexistente. À medida em que o movimento cresceu em números, o Crass pôde expandir suas atividades, que foram se tornando singularmente revolucionárias até o final de sua atuação.

*O uso do termo "defensivo" aqui se dá num contexto em que a cultura mainstream entenda-se como "violenta". Como um pacifista de longa-data eu não obstante sempre apoio o direito à autodefesa e, para esse fim, já há mais de 50 anos pratico a arte do Tai Chi. Quando o Estado responde de imediato às demandas por mudança enviando o seu exército e polícia, é imperativo que sejamos capazes de proteger os outros e a nós de sua brutalidade. O estado está equipado com armas e escudos enquanto nós estamos armados com o amor, mas isto nunca significou aceitação passiva das agressões institucionais. Este é, acima de tudo, o nosso mundo, e não o deles. Claro que essa é uma questão complexa ao ponto de caber num livro, mas talvez eu possa concluir a resposta dizendo que é tolice e perigoso assumir posicionamentos fixos sobre qualquer questão em particular. Como o Tai Chi demonstra tão habilmente, a fluidez é a melhor defesa contra qualquer forma de ataque.

Você se recorda da primeira menção associando o Crass ao termo "anarcopunk"?
Não me lembro da primeira vez que vi este termo sendo usado, mas lembro-me da minha oposição a ele. Eu sentia (e ainda sinto) que o termo "anarco-punk" fora inventado pela mídia e as autoridades que ela representa a fim de separar o movimento do amplo espectro social dentro do qual ele operava. Essa divisão impôs um largo obstáculo entre o Crass e os outros "revolucionários" similares dos elementos da classe média que o movimento atraíra e, mais precisamente, dos círculos acadêmicos de esquerda que então começaram a nos rebaixar em todos os níveis. Ao perder a sua frente popular, o Crass então se encontrou ele mesmo cada vez mais isolado, algo perceptível logo na sequência da completamente desnecessária guerra da Margareth Thatcher nas Ilhas Malvinas, bem na época em que sua voz era uma das poucas representantes de um significativo protesto no Reino Unido. Depois disso, a pressão do governo, o ataque da mídia e finalmente a perseguição pelo estado, tudo isso junto minou completamente o potencial do Crass como uma força política, mas a sua mensagem sobreviveu, especialmente no crescimento do movimento antiglobalização.

Imprensa Marginal/No Gods, No Masters. Divulgação

Você é feliz com tudo o que já pôde realizar em sua vida até agora como músico, artista e militante?
Sim, estou sendo verdadeiro quando digo que me sinto feliz por ter feito, ao longo da minha vida, tudo o que pude para me opor à feiura, ganância, violência institucional e guerra. Meus métodos mudaram com o passar dos anos, mas sempre lutei para promover o amor como a única solução para um mundo em sofrimento.

Existe algum arrependimento que gostaria de compensar?
Errei o caminho algumas vezes, mas não me arrependo disso. De que outro modo é possível aprender, se desenvolver e crescer? Em última instância, a única coisa que podemos transformar completamente somos nós mesmos e nós todos precisamos dar conta disso antes de começar a exigir mudanças no mundo. Se você nunca viveu a paz, como pode sensivelmente exigir isso de outra pessoa? À busca do amor incondicional, eu entendi que o único caminho está no coração de todos nós — tornando-nos pacíficos colaboramos para a paz no mundo. É esse o verdadeiro significado do amor.

Penny e Gee Vaucher na Dial House. Foto: Marina Knup, ago/2016.

Ao que você está se dedicando atualmente?
Minha vida no momento é dedicada àquilo a que venho me dedicando há mais de 50 anos: à promoção da paz e do amor e à tentativa de encontrar meios práticos para tornar isso possível. Atualmente estou gravando dois álbuns, ambos lidando com o tema da guerra, seja ela pessoal ou global. Todos os dias posto uma mensagem no Twitter oferecendo uma solução prática para um mundo em conflito e sofrimento. Acabo de finalizar um livro de artigos, chamado Tricking the Impossible ["Driblando o Impossível"], que será publicado agora no verão. Novamente, ele confronta as questões centrais da vida diária, evidenciando a busca pelo amor. Além disso, tenho viajado bastante para debates ou apresentar meus recitais de poesia ao lado dos músicos de jazz com os quais já trabalho há muitos anos. Outro projeto são os cuidados e a manutenção dos espaços e jardim da Dial House, a comunidade de portas-abertas que tem sido o meu maior comprometimento no último meio século. A Dial House virou uma espécie de fagulha de esperança num mundo que às vezes parece oferecer tão pouco. A Dial House existe para celebrar o amor e segue o princípio de porta-aberta, coração aberto. De todas as minhas atividades, o que mais gosto é de fazer pão. Nem todo o mundo gosta da minha poesia, minha música ou meus discursos, mas todos parecem gostar do pão que faço. Quando estou aqui na Dial House, é quase que um trabalho diário. Isso é o melhor que posso oferecer às pessoas.

Alguns anarquistas traçam uma relação entre o anarquismo e a espiritualidade. O que pensa disso?
Como eu já sugeri anteriormente, é muito recomendável que nos libertemos da hegemonia cultural materialista das tão chamadas nações desenvolvidas. Tais culturas são dominadas pela negatividade e o medo, na verdade elas florescem disso. É tão óbvio que o medo configura a maior arma da opressão, assim como é igualmente óbvio que, enquanto tivermos medo, jamais seremos livres. Claramente a essa altura já ficou provado que as manifestações e o reformismo exigido por elas farão nada além de fortalecer a posição daqueles a quem o protesto se dirige. De fato, eu passei a acreditar que o protesto é um modo de fortalecer o seu próprio alvo. É inevitável, portanto, que as pessoas comecem a procurar pelas mudanças dentro de si. Até que você conheça-te a si mesmo, como você pode seriamente se julgar capaz de conhecer os outros ou, mais ainda, qualquer coisa em geral? Claramente trata-se de uma questão de abandonar ideias de segunda mão e as ciladas moralistas do mundo material em favor de uma posição de fé em si mesmo e amor próprio; então, e somente então, estaremos prontos para mudar o mundo à nossa volta, apesar de que quando tivermos conquistado isso, já teremos consequentemente mudado o mundo. Ninguém é capaz de amar o outro se não amar a si mesmo, assim como não se pode exigir paz quando se não se conhece a paz. Vamos primeiro interiorizar a paz e o amor em nós mesmos para daí ativamente demostrar a sua força para curar o sofrimento global.

Dos anos 1960-70 para cá, você acha que a sociedade teve mais avanços ou retrocessos?
Não sei dizer se todos nós vivemos numa melhor ou pior sociedade, mas sei que eu vivo numa sociedade melhor. Melhor porque me sinto liberto da sociedade e suas regras e imposições, sua tolice e aferrada ignorância. Não precisamos ser escravos das condições impostas por outras pessoas. Temos o direito de escolher, mas temos a coragem para isso? Escolher uma vida melhor e mais honesta pode criar novos problemas, mas daí serão problemas criados por você mesmo e que, logo, podem ser resolvidos pelo seu próprio esforço. Apenas quando aguentamos sozinhos é que nos tornamos capazes de amar o próximo. A escolha é nossa.

Pra encerrar, gostaria de pedir que contasse sobre algum momento marcante de sua estada no Brasil.
Depois da minha primeira fala no festival No Gods, No Masters, que aconteceu numa cidade litorânea [Itanhaém, São Paulo], eu me toquei que talvez as diferenças culturais entre o Brasil e a Grã-Bretanha tenham feito aquilo que eu tinha a dizer irrelevante. Eu certamente não queria ser visto propagando pensamentos e ações que poderiam não funcionar no contexto brasileiro. O que pode ser visto como uma ação prática e que vale a pena numa cultura pode muito bem ser totalmente inapropriado à outra e eu estava desconfortavelmente ciente disso.

Ao ficar sabendo mais tarde naquele dia que haviam me marcado para outra fala, fiz aquilo que sempre faço quando me sinto encrencado: me embrenhei na natureza. No fim da praia que tem ali, encontrei pedras para me sentar e delas pude observar as ondas quebrando abaixo de mim enquanto prestava atenção nos complexos ritmos do oceano. Me senti recobrado, mas ainda desconfortável com a fala seguinte. Eventualmente, eu desci pelas pedras e segui meu caminho de volta para a praia por entre as poças que as rodeavam. Numa dessas poças, estava uma pequena garça a assistir o meu progresso. Imaginei que com a minha aproximação ela sairia voando, mas ao invés disso, ela parecia tão interessada em mim como eu nela. A garça sempre foi um de meus pássaros favoritos; amo a sua elegância e sua silenciosa brancura. Quando eu estava a um metro de distância dela, eu parei e nos entreolhamos como se houvéssemos entrado em fusão. Naquele momento, o mar se acalmou e, embora tenha feito isso sem usar palavras, a garça me disse que estava tudo bem, que eu não precisava ficar nervoso com o que falaria nas palestras. Eu silenciosamente agradeci a minha amiga pela ajuda e segui rumo ao festival me sentindo muito mais feliz.

Amor, bênçãos e a mais doce alegria,
Penny Rimbaud. Essex, Reino Unido.
07/05/17