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Far from Alaska fala sobre seu novo álbum, ‘Unlikely’

Visitamos a banda de rock pesado no estúdio Family Mob, em Sampa, e trocamos aquele ideião.

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ago 4 2017, 1:00pm

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O Far from Alaska passou o mês de fevereiro em Oregon, nos States, gravando o seu segundo álbum, Unlikely, com a produção da Sylvia Massy. Ela é conhecida por suas técnicas incomuns de captação sonora, além de ter assinado álbuns de nomes como System of a Down, Red Hot Chilli Peppers, Tool, Prince e Johnny Cash. Fui convidado para uma audição dos sons do disco recentemente em maio. Ao invés de meter o play, o grupo decidiu mostrar o repertório ao vivo para os contemplados, no estúdio Family Mob, em São Paulo. Foi lá que reuni os músicos de canto e convoquei a entrevista a seguir.

Unlikely saiu nesta sexta, 4 de agosto, e as expectativas são altas. Pra quem curte um rock de bases massudas, bateria marcada e vocais melodiosos, a obra é um prato cheio. Considerando seu passado no manejo exclusivo das baquetas, a vocalista Emmily Barreto impressiona e crava presença forte nas músicas novas, mesclando influências melódicas do rock clássico com o alternativo, o metal e ressonâncias pop.

O nome do trabalho remete ao quão improvável os integrantes consideravam uma banda de rock de Natal, que além de tudo era um projeto paralelo, alcançar repercussão tão grande no cenário nacional e internacional. Com direito a premiações importantes, palco principal nos maiores festivais do gênero, elogios da Shirley Manson, do Garbage, e agora esse disco lapidado pelas mesmas mãos que gravaram algumas de suas principais influências. O que mais improvável poderá acontecer? O tempo dirá.

Noisey: As músicas de Unlikely foram compostas ao longo do tempo ou de uma vez?
Rafael Brasil (guitarra):
A gente é uma banda meio preguiçosa pra isso. Depois que fizemos o nosso primeiro disco, a preocupação foi tocar. A gente tocou, tocou, tocou e tocou. Por todos os lugares possíveis e imagináveis, pois queríamos muito rodar com esse disco. Daí chegou o momento do segundo. Só no ano passado que bateu a necessidade, e então compusemos tudo rápido, de uma vez, com o que estava rolando no momento mesmo. Não é uma coisa que tem músicas guardadas pra lançar.

Lauro Kirsch (bateria): Vai fazer três anos do modeHuman, e realmente a gente é muito preguiçoso. E veio mais da necessidade mesmo. Hoje em dia um disco de rock passa dois anos... e já foi! As músicas de agora mostram que a gente mudou muito. O primeiro disco foi meio: "Tá, estamos nos conhecendo, vamos ver o que sai." E só jogou. Nesse segundo queríamos fazer uma coisa mais pensada.

Emmily Barreto (voz): E na hora de compor rolou muita curiosidade pra ver o que ia sair, agora que somos uma banda mesmo. No primeiro disco era realmente a primeira vez que estávamos tocando juntos, começando a fazer as coisas. Não éramos tão entrosados enquanto banda. De não saber muito o que um ou outro curte fazer tocando. E nesse, nós estávamos muito curiosos.

Cris Botarelli (synth): Tem coisas que surgem na hora, e coisas que não. As primeiras coisas surgiram na hora. Também porque está todo mundo aqui, todos moram aqui, nós três moramos juntos – Cris, Rafael e Lauro. E esse álbum foi um pouco mais pensado.

Emmily: Minha maior felicidade vai ser tocar umas músicas diferentes nos shows...

Qual é a pegada sonora deste álbum para ser chamado de "unlikely" por vocês?
Rafael:
Nós somos muito diferentes, tocávamos em outras bandas da cena de Natal. Uma pessoa veio ali do hardcore, outra do pop, outra do pesado, outra do alternativo.

Rafael: Eu gosto do At The Drive-In, do Hot Water Music, sei lá, do Bob Marley. E ao mesmo tempo a Emmily gosta do...

Emmily: MØ, Lady Gaga, Ke$ha.

Cris: E eu, de Rihanna, Billie Holliday.

Lauro: Pinback... Todas as desgraceiras que você puder imaginar eu gosto.

Eduardo Filgueira (baixo): Se você for na casa dos três você vai escutar Rihanna, pagode 90, axé 2000... e se você for lá em cada vai escutar coisa que eu escuto há 15 anos, sei lá: Deftones e Queen. A Emmily vai estar escutando as novidades do pop mais novo.

Rafael: Esse é o segredo da identidade da banda.

Far from Alaska estourando os falantes no estúdio Family Mob. Foto: Murilo Amancio.

Vocês ficaram surpresos com toda a repercussão do primeiro álbum?
Emmily:
Isso que está acontecendo com o Far From Alaska nunca havia rolado com nenhuma outra banda que já tivemos. Tudo é novo pra todos nós.

Vocês trazem influências de suas bandas anteriores para o FFA?
Cris:
Acho que não existe nenhuma influência direta no FFA, mas eu e Emmily nos preocupamos muito com melodia, e isso é uma herança da banda que tínhamos antes. Eram dois vocalistas e as melodias eram muito bonitas.

Emmily: Não era a gente que cantava.

Cris: Eu tocava guitarra e ela tocava bateria.

Rafael: Mas é inegável a bagagem que cada um traz, tudo que já viveu, tocou. Hoje em dia, mesmo quando fazemos uma música com o Escalene, aprendemos a compor com eles. O FFA surgiu como uma coisa paralela de todo mundo. Mas teve um começo muito doido, do festival Planeta Terra, do clipe, e a repercussão foi tão grande que começou a atrapalhar as outras bandas, inclusive. Engoliu tudo.

Cris: É engraçado porque até antes da gente fazer o primeiro show, na seletiva, eu ainda falava: "Ah, vai ter ensaio lá da banda que a Emmily canta."

Emmily: Eu é que me lasquei, na verdade, me lasquei lindo! O primeiro show que fizemos, o do concurso do Planeta Terra, tem um vídeo no YouTube que meu sonho é um dia ficar muito rica pra pagar pra tirarem de lá. Porque é ridículo! É que eu nunca tinha cantado antes, era a primeira vez na minha vida, antes só tinha tocado batera. Então eu não sabia o que fazer na frente do palco. O vídeo inteiro é eu segurando o pedestal e mexendo a cabeça. É horrível! Pra mim é escola desde o primeiro dia. Criação de melodias foi quase zero no primeiro disco. Eu não sabia o que fazer.

Cris: A voz dela não existia [risos].

Emmily: Tinha uns viciozinhos de igreja, né! AAAAaaaaaaahhhhh [risos]. Um final gospel, assim.

O que as letras do novo álbum abordam e como elas surgiram?
Cris:
O processo das letras desse disco foi muito intuitivo. Nós aproveitamos muita coisa do embromation. Acho que o primeiro teve mais coisas reais, que aconteceram. E esse é mais coisas que achamos legais de falar.

Eduardo: Pra mim, em resumo, as letras, assim como o som, também são "unlikely" [nota: "improvável", em português]. Não tem uma conexão total entre elas. Cada uma tem uma vibe. Usamos algumas palavras no embromation pra compor, aí vamos completando e sai.

Rafael: Esse disco está bom de ouvir, de cantar, dançar, bater cabeça...

Cris: ...letras good vibes, letras tristes...

Emmily: ... letras bravas...

Rafael: Está mais rosa e verde.

Cris: O primeiro é mais cinza e verde [risos].

Como foi a experiência de gravar com a Sylvia Massy em Oregon, nos Estados Unidos?
Lauro:
A Sylvia é bem pra cima, ela tem uma vibe muito boa, está sempre rindo, fazendo piada no estúdio. Ela gosta de fazer uns vídeos também pro Facebook no meio da gravação. Aí estávamos gravando a bateria, ela chamou o engenheiro e falou pra botar um microfone apontado pro meu pau [risos]. Aí ela botou assim e já começou a filmar! Tipo, "estamos aqui agora com o Lauro do Far From Alaska, colocamos esse microfone aqui apontado pro pau dele. Tem bateristas que são tímidos e não gostam, mas o Lauro não é tímido." [risos]. Ficou tirando uma onda. E o pior é que faz diferença. O microfone apontado pro pau pega mesmo uma frequência diferente ali da caixa, do corpo da batera, que ficou muito foda. Ela realmente usou o dick mic.

Rafael: Ela inclusive tem um livro só de experiências assim. Tipo, o cara queria colocar uma galinha no disco. Aí ela conta como foi o processo pra microfonar essa galinha e botar o som no disco. E ela tem mil histórias. Com a gente teve esse lance do dick mic. O synth da Cris nós gravamos com o som passando por um picles, por salsichas, furadeira.

Cris: A viagem dela é justamente essa.

Rafael: Isso é história, é legal, é o que faz você se lembrar pra sempre. Às vezes nem usa, mas ela faz porque vai ser massa.

Cris: Mas no caso tudo o que foi feito entrou no disco. Está lá a salsicha.

Rafael: Ela conviveu com esses gigantes todos, né... Já gravou Johnny Cash, Prince, Red Hot Chilli Peppers, e contava exemplos do System of a Down, todas as bandas que ouvíamos, e foi ela que fez.

Emmily: Ela pendurou o vocal do System of a Down de cabeça pra baixo.

Rafael: Lá no estúdio tinha uma cadeira foda que ela comprou especialmente pro Prince sentar, porque ele reclamou das que haviam lá.

Quais foram as coisas mais legais já vividas pela banda em sua rápida ascensão?
Emmily:
A coisa mais legal acho que foi a gravação. Essa de agora. Pelo menos pra mim.

Cris: Moramos juntos lá durante um mês e foi realmente...

Eduardo: Posso discordar? Acho que o mais marcante foi ter ganhado o concurso do Planeta Terra. Pra mim isso é coisa de definição, saca?

Rafael: O Cléver Cardoso ter feito o clipe de "Dino vs Dino" foi uma coisa muito importante, o Planeta Terra, a gravação desse disco na gringa, o prêmio na França. O lance do primeiro EP, o Daniel Pommella ter acreditado e feito o primeiro clipe ("Thievery"). Os festivais todos, o Lollapalooza.

Cris: Agora a gente vai tocar no Download em Paris, no mainstage, com o System Of A Down, é muita coisa boa que acontece.

Rafael: Obrigado vida!

Emmily: O post da Shirley Manson nos elogiando! Isso foi o que alavancou de verdade, de as pessoas começarem a falar sobre nós.

Rafael: O Pedrinho ter gravado o "Dino".

Emmily: Essa é a nossa música de mais sucesso, que a Larissa Conforto, da banda Ventre, insistiu para que gravássemos porque não íamos. Ela ouviu e falou: "Como assim, não?". Foi uma energia boa ali que ela acreditou e convenceu a gente, fomos pro Rio, ficamos na casa dela...

Eduardo, Cris, Emmily, Lauro e Rafael. Foto: Divulgação.

Vocês acham que o destaque do Far From Alaska na imprensa internacional ajudou a abrir caminhos para os artistas de Natal?
Rafael:
Acho que a partir disso o pessoal passou a conhecer as bandas de Natal também. Lá tem muita banda massa, que às vezes a galera daqui não tem a oportunidade de conhecer. Não chega, saca? Não se tira uma banda de Natal por menos de cinco mil reais. E hoje você já vê o Mahmed rodando o mundo, o Camarones, Plutão Já Foi Planeta, Luísa e os Alquimistas, Du Souto, Talma&Gadelha...

Lauro: A gente também conseguiu abrir muito pras bandas que cantam em inglês no Brasil. Que agora estão conseguindo muito espaço, rodar muito, ter números expressivos e tocar em festivais legais. Tem esse lance de que se a banda é brasileira tem que cantar em português. Então tem muitos artistas que vêm falar com a gente e agradecem, dizem que foi importante pra eles. Teve gente que já contou que queria cantar em inglês, mas sentia medo. E depois que conheceu o Far From Alaska decidiu fazer o que queria mesmo.