Ilustração por Luiza Formagin

Riot Grrrl 2.0

Um raio-x do recente boom brasileiro de iniciativas feministas e musicais no Brasil que está usando a internet como ferramenta e estratégia para atuar de modo mais organizado e em rede.

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jun 12 2017, 6:00pm

Ilustração por Luiza Formagin

O movimento riot grrrl surgiu há mais de 20 anos, nos Estados Unidos, e logo se espalhou por diversos países. O objetivo principal? Minas no front. A partir daí, a união de punk, consciência feminista e uma forte prática faça-você-mesmo se tornou mais do que uma realização material, mas uma espécie de atmosfera que, ainda hoje, permeia a produção de muitas mulheres artistas. Foi em Olympia, cidade que é a capital do estado de Washington, nos Estados Unidos, que o riot grrrl começou a criar corpo e conquistar espaço como influência cultural contemporânea. A valorização do faça-você-mesmo era forte nas ações e bandas locais, mas isso não impedia a existência de tensões provenientes do machismo dentro de shows de punk ou hardcore.

As mulheres dos meios alternativos começaram a perceber experiências em comum que extrapolavam a questão da marginalidade do cenário independente, e passavam diretamente pela de gênero, como inferiorização de minas que tocavam instrumentos ("você até toca bem para uma garota"), assédio sexual ou exclusão social. Por isso, eram necessários espaços em que a mulher pudesse existir e criar a partir da própria perspectiva.

Os zines foram as primeiras ferramentas de divulgação dessas percepções, e a troca de experiências entre garotas passou a se transformar em colaboração artística entre minas, principalmente na música. Além disso, cartas, fitas K7 e shows, como um rastro de pólvora, ampliaram a rede que estava sendo construída. O apelo jovem e a popularização de facilidades tecnológicas que permitiam gravações musicais ou xerox, por exemplo, somavam-se a uma linguagem simplificada, acessível e visceral. Mulheres diversas começaram a ter mais contato com ideias feministas e foram incentivadas a se tornar produtoras de conteúdo, realizadoras e integrantes de bandas. Nomes como Bikini Kill e Bratmobile estão entre os muitos que pavimentaram o caminho rumo à consolidação de um subgênero punk e feminista.

A gama de estilos e manifestações artísticas abarcadas pelo riot grrrl se expandiu e ele passou a ser também uma estética, uma ideia, um modo de ser que, inevitavelmente, teve sua parcela de cooptação e dissolução em coisas menos ameaçadoras e mais vendáveis, como o "girl power", ou em patches com mensagens empoderadoras – mas "made in Bangladesh" – disponíveis em lojas de departamento. Isso não impede, no entanto, que Spice Girls renda ótimas reboladas coreografadas em qualquer festa que comece a tocar, e muito menos significa que a força política e cultural do riot grrrl tenha deixado de existir.

Aqui pelo Brasil, Dominatrix, Bulimia e The Biggs estão entre as várias bandas que nasceram ali no calor da década de 90 e ajudaram no fortalecimento nacional do movimento. Para Ieri Luna, feminista, anarquista e uma das fundadoras do Bulimia, a experiência pioneira pode ser definida como "traumática", por conta de intensa hostilidade e perseguição que sofreu por tentar sacudir uma cena alternativa brasiliense que, como em tantas outras cidades e no exterior, reproduzia — e ainda reproduz — o machismo de uma sociedade que tanto criticava.

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