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Ilustração por Luiza Formagin

Riot Grrrl 2.0

Maíra Valério

Um raio-x do recente boom brasileiro de iniciativas feministas e musicais no Brasil que está usando a internet como ferramenta e estratégia para atuar de modo mais organizado e em rede.

Ilustração por Luiza Formagin

O movimento riot grrrl surgiu há mais de 20 anos, nos Estados Unidos, e logo se espalhou por diversos países. O objetivo principal? Minas no front. A partir daí, a união de punk, consciência feminista e uma forte prática faça-você-mesmo se tornou mais do que uma realização material, mas uma espécie de atmosfera que, ainda hoje, permeia a produção de muitas mulheres artistas. Foi em Olympia, cidade que é a capital do estado de Washington, nos Estados Unidos, que o riot grrrl começou a criar corpo e conquistar espaço como influência cultural contemporânea. A valorização do faça-você-mesmo era forte nas ações e bandas locais, mas isso não impedia a existência de tensões provenientes do machismo dentro de shows de punk ou hardcore.

As mulheres dos meios alternativos começaram a perceber experiências em comum que extrapolavam a questão da marginalidade do cenário independente, e passavam diretamente pela de gênero, como inferiorização de minas que tocavam instrumentos ("você até toca bem para uma garota"), assédio sexual ou exclusão social. Por isso, eram necessários espaços em que a mulher pudesse existir e criar a partir da própria perspectiva.

Os zines foram as primeiras ferramentas de divulgação dessas percepções, e a troca de experiências entre garotas passou a se transformar em colaboração artística entre minas, principalmente na música. Além disso, cartas, fitas K7 e shows, como um rastro de pólvora, ampliaram a rede que estava sendo construída. O apelo jovem e a popularização de facilidades tecnológicas que permitiam gravações musicais ou xerox, por exemplo, somavam-se a uma linguagem simplificada, acessível e visceral. Mulheres diversas começaram a ter mais contato com ideias feministas e foram incentivadas a se tornar produtoras de conteúdo, realizadoras e integrantes de bandas. Nomes como Bikini Kill e Bratmobile estão entre os muitos que pavimentaram o caminho rumo à consolidação de um subgênero punk e feminista.

A gama de estilos e manifestações artísticas abarcadas pelo riot grrrl se expandiu e ele passou a ser também uma estética, uma ideia, um modo de ser que, inevitavelmente, teve sua parcela de cooptação e dissolução em coisas menos ameaçadoras e mais vendáveis, como o "girl power", ou em patches com mensagens empoderadoras – mas "made in Bangladesh" – disponíveis em lojas de departamento. Isso não impede, no entanto, que Spice Girls renda ótimas reboladas coreografadas em qualquer festa que comece a tocar, e muito menos significa que a força política e cultural do riot grrrl tenha deixado de existir.

Aqui pelo Brasil, Dominatrix, Bulimia e The Biggs estão entre as várias bandas que nasceram ali no calor da década de 90 e ajudaram no fortalecimento nacional do movimento. Para Ieri Luna, feminista, anarquista e uma das fundadoras do Bulimia, a experiência pioneira pode ser definida como "traumática", por conta de intensa hostilidade e perseguição que sofreu por tentar sacudir uma cena alternativa brasiliense que, como em tantas outras cidades e no exterior, reproduzia — e ainda reproduz — o machismo de uma sociedade que tanto criticava.

Porém, a sorocabana Flávia Biggs, que além de ser vocalista e guitarrista do The Biggs há 20 anos, é socióloga, educadora e coordenadora da versão brasileira do Girls Rock Camp, acredita que a época foi também um período fértil para bandas independentes no Brasil e no exterior, por conta da influência da mídia independente e até da MTV. E explica ainda que os anos 90 foram o auge do riot grrrl, mas os movimentos sociais e culturais possuem, como característica, os ciclos. "Acredito que hoje também estamos em um momento importante de mobilização das mulheres na sociedade, e o impacto das redes sociais e a articulação em grande escala que estas proporcionam influenciam diretamente em como a sociedade se reconhece", diz.

É nesse "bom momento", pelo menos no âmbito cultural, já que nos termos da política formal as coisas não andam fáceis para ninguém, muito menos para minorias, que novas iniciativas continuam a surgir. Em Recife, por exemplo, as jovens Letícia Tomás e Hannah Carvalho encabeçam o PWR Records, coletivo que é também um selo engajado em promover música feita por minas. Mês passado, elas saíram em uma tour com projetos do selo e apresentaram um showcase do PWR no Festival Bananada, em Goiânia. Atento aos ventos atuais, o line-up deste ano contou com uma expressiva participação feminina.

Segundo Letícia, a internet acaba funcionando como uma peça fundamental para o cenário independente por conta do alcance e das oportunidades que proporciona. "Imagina como seria mais difícil sair por aí entregando CD de graça, como fazemos pelo Bandcamp, de mão em mão, no centro da cidade. O quanto isso seria efetivo?" indaga. Para ela, o ambiente virtual possibilita também a formação de uma rede mais consistente e visível de mulheres que se apoiam. "Eu acredito que sempre existiu uma boa quantidade de minas fazendo seus corres artísticos por aí. É que agora a gente tem diversas iniciativas que as unem por causa da internet, que faz a gente construir um coletivo muito maior e mais forte. Somos as riot grrrls dos anos 2000, e dessa vez sem a fronteira geográfica".

Com base nessa crença de que as mulheres da música independente existem em maior quantidade do que o senso comum percebe, o PWR se juntou ao Banana Records, de Fortaleza, para a criação de uma lista colaborativa que compilasse bandas nacionais e, até o momento, já foram acrescentados mais de 300 nomes que abrangem diversos gêneros, entre punk, hardcore, indie, shoegaze e outros. "As mulheres do meio musical estão cada vez mais produzindo em prol da visibilidade feminina e mostrando umas pras outras que elas podem — e devem — fazer música. Isso tende a fazer cada vez mais barulho", diz Nanda Loureiro, do Banana. "Acho também que algo grande está começando a acontecer. Temos mulheres do Brasil inteiro que produzem festivais que só mulheres tocam e selos que lançam bandas apenas de mulheres."

Ilustrações por Luiza Formagin

Embora o Banana seja um projeto misto com foco em lançar música experimental, Nanda é também uma forte atuante nessa nova rede feminista que se desenha atualmente, utilizando o computador para fazer contatos, divulgações e esparrar uns machistas. "Foi pela internet que consegui me organizar pra trazer bandas de mulheres como Ventre e Diablo Angel, e foi através delas que conheci as meninas da PWR Records, que hoje são grandes amigas, muito além da música". Este ano, o selo realizou o festival "Filhas do fogo", cujo nome foi inspirado pelo Rakta. Tudo foi liderado por mulher: shows e também palestras, projeções, produção e a "Jam das mina", uma iniciativa do PWR que promove um espaço aberto para sessões de improviso musical entre mulheres.

Aliás, a atmosfera misteriosa e com vibe de bruxaria do Rakta, banda paulista que tem dado o que falar e já foi definida por aqui como uma "chapação musicósmica", dá o tom de muitos lançamentos recentes. Papisa, persona e projeto solo de Rita Oliva, por exemplo, canta sobre intuição, desejo, natureza e explora os recônditos obscuros da alma em seu EP autointitulado — o nome vem do tarô. In Venus lembra das mulheres queimadas como bruxas na música "Mother nature". Katze e o EP Moons Phases of a Relationship compara as fases de um relacionamento com as da lua, onde cada uma das quatro faixas representa essas fases. Com essa mesma energia, Brasília recebeu, há pouco tempo, a segunda edição do Bruxaria. O festival, feminista e autogestionado, contou com as bandas Estamira, Soror e a novíssima Pollyanna Is Dead, que surgiu ano passado com um gás imenso e tem rodado bastante pelo Distrito Federal.

Tudo isso significa que não importa se é cloud rap, post noise punk ou qualquer outro híbrido de subgênero, as minas estão buscando a reapropriação das narrativas sobre o que é ser mulher enquanto metaforicamente rasgam as páginas do Malleus Maleficarum — guia de caça às bruxas que colaborou com séculos de perseguição feminina e tem alguns preceitos presentes no imaginário coletivo até hoje, como representar o sexo feminino como algo sujo e demoníaco. Fazer música independente, portanto, é uma dupla autonomia: para a artista e para a mulher. Ser mulher, porém, está no rol de variáveis que dificulta a jornada de uma pessoa rumo a própria autonomia. É uma treta imbricada.

De qualquer modo, a coisa não para por aí. Com um tom mais festivo, o Miêta, de Belo Horizonte, está gravando o primeiro álbum, previsto para este semestre. Recentemente, lançou o clipe da música "Pet", em que o "clima é de libertação do corpo e da mente, principalmente femininos. A música, a festa e a dança estão ali para para extravasar os sentimentos e mostrar que nenhuma mulher deve baixar a cabeça como um animal de estimação", afirmam. Já a Charllote Matou um Cara, banda punk feminista nervosa de São Paulo, lançou o primeiro disco no mês passado, contribuindo com a nova safra de riot grrrls brasileiras. No single "A Rua É um Campo de Batalha", elas mostram a que vieram: "nós estamos aqui para lutar contra o ódio e ignorância."

Embora os sons sejam bem diferentes, as duas bandas anteriores possuem algo em comum. Além de serem lideradas por mulheres: surgiram a partir de posts nas redes sociais. Porém, mesmo com os benefícios disponibilizados pelas novas tecnologias, reivindicações muito parecidas com as riot grrrls pioneiras continuam a existir — como assédio ou falta de espaço. "O que é foda na música independente é que você espera que os caras sejam menos escrotos, mas não é o que acontece. Normalmente somos vistas como bibelô das bandas, enfeite, algo que tá ali não pelo talento, mas porque tem um 'corpo escultural', 'uma voz suave'. Somos extremamente objetificadas até quando acham que estão nos elogiando", conta Cint Murphy, vocalista e tecladista do In Venus. Ela é também uma militante feminista autônoma e integra o coletivo Chega de Assédio, que combate assédios no transporte público. Com o lançamento do álbum Ruína, ela explica que, para o In Venus, a música é mais que um entretenimento, é uma ferramenta de consciência política. "É sobre essa raiva que temos sobre os acontecimentos da humanidade que falamos nesse disco, é essa raiva que queremos despertar principalmente nas mulheres, porque não podemos mais viver assim."

Logo, para além de todos os obstáculos que uma artista independente possui, o machismo continua a ser um deles. Essa é uma das razões da existência do Motim, um "ponto de cultura, casa de shows e atividades insubmissas", como define Letícia Lopes, uma das gestoras do local, que fica no centro do Rio de Janeiro. Ela também toca nas bandas TrashNoStar, Estela Disse Sim e Belicosa, faz parte do selo feminista Efusiva e da editora independente Drunken Butterfly. "O Motim surgiu da necessidade de tocar nossos projetos de forma segura e autônoma, uma vez que o Rio estava, e está, borbulhando em denúncias contra os caras donos da cena", relata. O espaço recebe shows, eventos, exposições de arte, workshops e oficinas e pode também ser sublocado para mulheres darem aula de línguas estrangeiras ou instrumentos musicais. O ambiente é misto, mas "98% das atividades são encabeçadas e direcionadas ao público feminino", segundo Letícia. "A gente se mantém com muita dificuldade, dedicação, trabalho árduo e incessante. Nada nesse mundo me motiva tanto quanto ver meninas produzindo, sendo protagonistas de suas vidas, se libertando das amarras sociais que nos foram impostas desde que nascemos. Nossa proposta é estimular essa multiplicação de mulheres que fazem."

Para acompanhar toda essa movimentação, o projeto multimídia We Are not with the Band surgiu no final do ano passado com o intuito de registrar e arquivar a mulherada que está no corre da música pelo Brasil. "Meu objetivo sempre foi criar uma espécie de acervo de mulheres na música, conhecer mais a fundo esses projetos e, claro, o trajeto de cada uma. O que eu gostaria que continuasse a acontecer é que alguma menina pudesse conhecer a história da outra e se inspirasse nela, sabe?", afirma Filipa Aurélio, portuguesa morando em São Paulo que é responsável pela fotografia e gestão de conteúdo do site. Ao longo das entrevistas, ela percebeu que as minas mais velhas, por exemplo, tiveram o próprio talento e vontade de tocar colocado em cheque mais escancaradamente. Agora, a situação ainda não é a melhor, mas parece caminhar para a mudança. "No cenário independente a gente vê muita mina que nem tinha muita referência musical dentro do seio familiar quando começou, temos muitas se aventurando, arriscando cada vez mais e aprendendo sozinha. Esse é um reflexo enorme do que as minas que começaram há mais tempo fizeram e enfrentaram por elas, por nós", ressalta. Cint concorda: "tem rolado bastante o incentivo a mais mulheres terem a experiência de tocar."

Enquanto o presente é registrado no projeto de Filipa, a cineasta Letícia Marques começou a dirigir o documentário "Faça Você Mesma" no ano passado, buscando resgatar a história do riot grrrl no Brasil e seus desdobramentos na vida de algumas mulheres. O processo de filmagem e pesquisa está em pleno andamento, graças não apenas aos próprios recursos da equipe, mas à colaboradoras movidas pela paixão ao tema. "Desde que começamos a fazer o filme já tivemos pessoas trabalhando voluntariamente e meninas doando materiais de arquivo. O apoio veio desde o início e está sendo maravilhoso", celebra a diretora. O foco é nas mulheres da primeira geração, que começaram em meados da década de 90 até os anos 2000, mas algumas iniciativas atuais também serão abordadas.

Para a cineasta, que é feminista e está envolvida com o riot grrrl desde adolescente, os maiores desafios do movimento eram, e ainda parecem ser, ter mais mulheres como técnicas de som e tocando seus próprios estúdios de gravação, e também controlando a distribuição de música. Porém, Letícia aponta que existem conquistas a serem celebradas, como o espaço que as bandas iniciais ajudaram a abrir para outras garotas, a volta de festivais como o Hard Grrrls e a execução do Girls Rock Camp no Brasil.

Criado nos Estados Unidos em 2001 por precursoras do riot grrrl, o acampamento existe por aqui desde 2013 e consiste em um ambiente que permite com que meninas de 7 a 17 anos possam se expressar e se empoderar por meio de vivências musicais que contam com a participação de mulheres de diversas bandas. O projeto engloba também o Ladies Rock Camp, que é voltado para adultas. As versões brasileiras acontecem em Sorocaba (SP), respectivamente em janeiro do ano que vem e julho deste ano, e contam com Flávia Biggs como coordenadora.

Filipa, que já participou do Ladies como fotógrafa voluntária, aconselha a experiência de voluntariado ou de campista para todas as meninas e mulheres que tiverem a oportunidade, pois "emergir nesse mundo só nosso muda vidas". Oficinas locais de instrumentos musicais, zines e outras atividades que podem ser compartilhadas por meio da prática do faça-você-mesma também são ações cada vez mais recorrentes — e que, com alguma disposição, podem ser facilmente multiplicadas. Um olhar otimista para o cenário atual, inclusive, mostra que estão rendendo frutos. Com as novas gerações mais estimuladas a ter voz e ocupar espaço, o retrato do "muleque machista e misógino" que leva a namorada para os shows apenas para segurar o casaco dele, como canta a clássica banda de hardcore feminista Anti-Corpos em "Apoia Mútua", parece destinado a ser cada vez mais uma lembrança desbotada. "Garotas para a frente", um dos lemas mais marcantes do movimento riot grrrl, realmente se tornou uma ideia possível de ser perseguida e, definitivamente, o que temos agora não são apenas as garotas indo aos shows, mas os shows tendo as garotas como atração principal.

A Maíra é jornalista, mora em Brasília e é a mente por trás do Vulva Revolução . Siga-a no Twitter.