'Duas Cidades', o novo disco do BaianaSystem, tem axé, bahia bass, dancehall e ghettotech

O disco que saiu nesta terça (29) foi produzido pelo Ganjaman e tem participações de nomes como Márcio Vitor e Siba.​

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mar 29 2016, 3:40pm


Foto por Filipe Cartaxo/Divulgação

A Jamaica é maravilhosa. O Major Lazer sacou isso, A Rihanna — que é caribenha — tem essa percepção, digamos, no sangue. O Snoop Lion, que mantém os dreads, vai na mesma vibe. O Justin Bieber percebeu, o Drake notou e mais um monte de gente se ligou que o dancehall e a cultura dos soundsystems têm muito mais a nos ensinar do que imaginavam nossas cabecinhas. Aqui no Brasil há uma identificação imediata do reggae com o Maranhão e sua capital São Luís, mas o verde-amarelo-vermelho (e a fumacinha) deixam seu legado há décadas na música brasileira.

Agora pense na Bahia. Em 1979, o Chico Evangelista e o Jorge Alfredo lançaram um álbum, muito foda por sinal, chamado Bahia Jamaica, nome também de uma canção maravilhosa com o profetizante refrão. "Bahia Jamaica um ponto de encontro entre eu e você". Nos anos 1980 os blocos afros e muitos artistas faziam inúmeras referências a Bob Marley e à Jamaica. O Celso Bahia cantou a morte de Marley e fez um paralelo com Gilberto Gil. O Muzenza falou da morte de Marley e foi fundado, inclusive, no ano de sua morte. Aparentemente a morte de Robert Nesta foi muito sentida em Salvador e o reggae está na essência, rítmica e espiritual, da música baiana.

A contemporaneidade dessa cena surge no bahia bass, o gênero-movimento capitaneada por nomes como Mauro Telefunksoul, o duo A.MA.SSA e claro, o BaianaSystem, que lança nesta terça-feira (29) — aniversário da cidade de Salvador — seu segundo álbum, intitulado Duas Cidades, disponível em streaming.

Dá o play pra gente continuar.

Enquanto o piano de "Jah Jah Revolta Parte 2" frita aí no seu fone vamos falar do Carnaval de Salvador. Em 2015, o secretário de cultura da Bahia Jorge Portugal afirmou, no balanço geral da folia, que o futuro da festa soteropolitana, que por sinal está em crise há alguns anos, eram o BaianaSystem e o Kannario. Ele disse em coletiva de imprensa. "O Carnaval da Bahia tem dois caminhos: um é Igor Kannário e o outro é BaianaSystem. O BaianaSystem é uma mistura de coisas antropofágicas e Igor Kannário é a voz do gueto."

Eis que a profecia se tornou realidade. Em 2016 vídeos como esse (abaixo) do navio pirata (trio adotado pelo grupo um pouco menor do que o usual) fizeram geral ter muita inveja por não estar em Salvador.

A falha na Matrix aconteceu. Roberto Barreto, o homem por trás da guitarra baiana, explica: "Quando você vê dentro do Carnaval uma banda que não toca em rádio, que as pessoas não sabem, que não tava nem na programação, que as TVs não sabem nem falar e você 20, 30 mil pessoas acompanhando. Então aquilo passa a ter essa força pirata. Aí as pessoas querem saber o que é". Ele fala ainda da relação do grupo com a festa. "O Carnaval nos interessa muito como acontecimento social, independentemente do que aconteceu com o mercado."

Criado na fusão do agudo da tal guitarra de Dodô e Osmar com o grave dos soundsystems e na mistura de gente muito talentosa como Russo Passapusso, Roberto Barreto e SekoBass. O BaianaSystem tem ainda uma das identidades visuais mais fodas da música, responsa do fotógrafo Filipe Cartaxo.


Foto por filipe Cartaxo/Divulgação

O Baiana lançou em 2010 um disco homônimo e pouco decifrável. Que porra é essa que mistura a cultura dos trio elétricos com os riddims jamaicanos? Que máscaras são essas?

As respostas começam a pintar agora. O Baiana é a massa. É o pagodão baiano, é o bahia bass, é o dancehall, é o ghettotech e é um pouco a mais. Depois de conquistar o Carnaval, levar as pessoas para a rua sem abadá e se recuperar da ressaca pós festa, o BaianaSystem chega com esse ouro. Duas Cidades é o resultado de cinco anos de viagens, shows, entrosamento, e principalmente da própria evolução da banda.

Produzido por Daniel Ganjaman, e com participação Márcio Vitor, do Psirico, Siba — tocando rabeca —, o coro das Ganhadeiras de Itapuã, Junix e mais uma galera, as 12 faixas do álbum são o resultado de uma internação de um mês num sítio do interior de São Paulo e de muito papo. Ganja dá a letra: "O meu trabalho nessa história foi amarrar tudo e levar para um conceito de disco". O produtor fala ainda sobre como o grupo mudou sua visão sobre a música da Bahia. "Eles me apresentaram a célula rítmica da música baiana de uma forma transgressora. Eu repensei toda a música baiana contemporânea conhecendo ela a partir do BaianaSystem."


Foto por Filipe Cartaxo/Divulgação

Sobre essa cultura da música jamaicana, Ganja comenta. "Às vezes você não sabe nem que música exatamente está sendo tocada, porque os caras tem essa onda de riddim. No mesmo ritmo eles vão cantando várias coisas. Isso é totalmente único".

Dá uma olhada, "Jah Jah Revolta Parte 2" e "Barra Avenida Parte 2" são versões de músicas instrumentais do primeiro álbum. "Playsom" tem um pouco de "Terapia", single lançado no intervalo entre os dois discos. "Bala na Agulha" tem um pouco de "Devagar", som do disco solo de Russo Passapusso. Barreto explica. "As faixas vão virando outras coisas. Vem frases de guitarra que marcam mudanças de parte e nessas mudanças de parte você já começa a contar outras coisas". Ele comenta que "Oxe, como era doce", de 2010, já virou tanto outra coisa que ele nem se lembrava mais da original.

Se pá, o disco todo já mudou para o próximo show e isso é muito maravilhoso.

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