Aquele 1%: O mercado de vinil no Brasil ainda é para pouquíssimos

Representando cerca de 1% do faturamento de grandes gravadoras, os LPs no Brasil são comprados basicamente por DJs, colecionadores e jovens moderninhos.

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27 junho 2016, 12:00pm

Fotos: Felipe Larozza/VICE

Quando eu nasci, a época de ouro do disco de vinil no Brasil estava muito próxima de acabar. Em dezembro de 1997, as grandes gravadoras alinharam interesses em um acordo comercial que encerrava os trabalhos, fechava as fábricas e, entre aspas, extinguia um mercado que já andava decadente — depois de duas décadas de sucesso, o vinil perdia o lugar de mídia mais consumida para o emergente CD; mais prático, barato e lucrativo.

Um ano depois do meu nascimento, a fabricação de LPs entrou em um hiato por tempo indeterminado, mas, curiosamente, os discos nunca estiveram distantes de mim. E não como uma máquina de escrever (nunca vi nem comi, só ouço falar) ou uma fita VHS (uma memória remota e embaçada da infância). Os LPs faziam (e fazem) parte do meu cotidiano, fossem em pilhas de Caetano Veloso e Deep Purple nas estantes do meu pai ou, mais tarde, quando comecei a me envolver com música de maneira mais íntima, nas prateleiras de lojas/sebos e banquinhas de shows que eu frequentava.

De uns anos pra cá, o tal “boom” ou “volta” do vinil se tornou assunto recorrente e inevitável como os mais diversos veículos têm constatado. Jornalistas defendem mundo afora que as bolachas alcançam novos picos de popularidade a cada ano, e os números confirmam: no relatório de fim de ano de 2015 da Nielsen, empresa que estuda o mercado consumidor (dos mais diversos produtos) em mais de 100 países, foi registrado o décimo aumento consecutivo nas vendas de LPs nos Estados Unidos. Já na Inglaterra, as vendas de discos em 2014 alcançaram os números mais altos desde 1994.

No Brasil, o revival dos LPs também existe, ainda que não tenhamos pesquisas que comprovem essa popularidade — visto que, em terras brasileiras, grande parte dos discos são importados ou comprados/vendidos em sebos, fica difícil cravar estatísticas. Os tímidos números da Polysom, a única fábrica de LPs sobrevivente ao nosso difícil mercado fonográfico, inclusive, seguem a tendência mundial. Segundo João Augusto, dono da Polysom, as três prensas atualmente ativas na fábrica produziram 118.495 discos em 2015 — um aumento de 30,5% em comparação aos números de 2014.

VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

Mas falar em “volta” do vinil ainda gera controvérsias entre muitos entusiastas das bolachas. De fato, a própria instabilidade da Polysom ilustra a dificuldade que é se manter no mercado de LPs no Brasil: a fábrica foi aberta em 1999, fechou quase uma década mais tarde e reabriu dois anos depois, em 2009, após ser comprada pela gravadora DeckDisc. Mas os aficionados suspeitam, como eu, que o consumo dos LPs, mesmo que em escala muito menor, nunca tenha pausado durante os anos em que as fábricas não estiveram ativas.

“Volta do vinil? Mas o vinil foi pra onde?”, brinca o DJ Michel Nath, proprietário do que futuramente será a segunda fábrica de discos na América Latina, a Vinil Brasil. “Eu entendo o que esses caras [que defendem a volta do disco] querem dizer, mas teve um lado dessa cultura que nunca se foi, se manteve viva nas pessoas que apreciam música.”

“Quem consumia disco de vinil continuou comprando. O pessoal viajava pra fora e voltava com 20, 30 discos na bagagem”, aponta Leonardo Salazar, especialista em gestão de negócios e autor do livro Música Ltda: o negócio da música para empreendedores.

Bruno Borges (DJ Niggas), dono da Vinyl Lab, que oferece um serviço de corte e masterização de LPs, defende, ainda, que quem manteve o vinil vivo foi uma classe específica de apreciadores de música: os próprios disc jokeys. “DJ que é DJ toca com vinil. Porque dá pra você manusear, desacelerar um pouquinho, fazer scratch. Lá [no início dos anos 2000] não tinha Serato, não tinha outras formas de você manipular o som. Então, os caras investiam grana pesada pra ter o som em vinil”, conta. “O disco foi caminhando devagar e sempre. Mataram o vinil nos anos 90 mas ele ficou lá baixinho, devagarzinho, inviável. Se não fosse essa galera, aí ele teria morrido. Mas o vinil já tem tanta força de décadas pra trás que a galera não conseguiu largar mão.”

O comentário de Bruno sobre a “força” dos discos de vinil é peça-chave para entender que o fenômeno de seu vai e volta não é somente mercadológico, mas também (e, talvez, principalmente) fetichista — o LP deixou de ser apenas um modo de ouvir música pra se tornar também um “objeto de desejo”, como defendido pelo professor João Pedro Fleck em sua tese de mestrado em Marketing, o artigo O colecionador de vinil: um estudo vídeo-etnográfico (2007), que investiga os motivos psicológicos e culturais por trás do consumo dos colecionadores de discos.

Essa hipótese nos dá a chance de rascunhar possíveis maneiras de consumo do disco de vinil no Brasil; que se relacionam, inclusive, ao que contei sobre o meu contato com os discos — meus pais, aqui, representando os consumidores nostálgicos. No próprio documentário de João Fleck, um dos colecionadores solta a frase: “Me sinto vivendo uma época que não vivi ouvindo vinil.”

AQUELE 1%

Pode-se dizer que grande parte do mercado de vinil no Brasil se sustenta ao redor desse pensamento. Uma matéria recentemente publicada no Estadão destaca que LPs dos anos 1960 e 1970 estão desaparecendo rapidamente das prateleiras de lojas e sebos. Não por acaso, a Clássicos em Vinil, série de relançamentos da Polysom, é o maior sucesso da fábrica: “A venda dos discos da série, que a Polysom licencia das grandes gravadoras, é efetivamente maior do que a venda de lançamentos atuais, porque há uma demanda muito clara por esses clássicos”, conta João Augusto. “O cara compra o que ele conhece. Não tem muito aquela coisa que você tinha antigamente, do cara vir com mente aberta e comprar algo pra conhecer”, argumenta Bruno Borges.

O lucro provindo de tais relançamentos, porém, ainda não faz grande diferença às gravadoras. No início do ano, o presidente da Universal Music José Eboli deu uma entrevista ao Portal Sucesso contando que 67% do lucro da empresa em 2015 veio de vendas digitais. “Um terço é físico. Desse terço, quase 90% é CD. O resto é DVD, Blu-Ray e vinil. Então, a venda de vinil da Universal é 1%. Isso, pra ela, não faz a menor diferença. [As grandes gravadoras] não lançam vinil pra ganhar dinheiro”, argumenta Leonardo Salazar. “Passou o tumulto que a música digital causou no mercado físico, aí passamos a ver que não existe um perfil único de consumidor de música: há vários. [Fazer disco de vinil] é mais uma forma de atingir um consumidor específico.”

Agora que o CD perdeu seu reinado de vinte anos, o disco de vinil volta a ser a bola da vez de quem está de saco cheio de streaming — que, segundo relatório de 2015 da ABPD, representou 65% das vendas de música digital no Brasil. João Fleck argumenta que, de fato, a exaustão com o formato pode ter levado ao aumento na venda de LPs: “Com a profusão do ‘consumo digital’, quem tem objetos físicos são pessoas que realmente querem ter aquele objeto em suas mãos. E existe uma onda, digamos, contracultural, que é a favor do desapego e da redução de consumo”. A diferença na qualidade, para Michel Nath, também pode ser uma das razões pelas quais muitos consumidores de músicas, em diferentes formatos, têm recorrido aos discos. “[O mp3] é como se fosse um cartão de visitas do que uma música é. É a mesma coisa de você ver um vídeo legal no YouTube e ir ao cinema. Não dá pra comparar a experiência. Você entendeu a história, a imagem é a mesma, mas a gente está falando de qualidade”, diz. “A música está ali. Não é um código, binário, digital, que simula uma onda. Não é uma criação, não é uma simulação. É real. É a melhor qualidade.” A dificuldade de conseguir um equipamento de qualidade, porém, pode diminuir esse apelo das bolachas.

PÚBLICO MODERNINHO

Muitos dos entrevistados identificam, também, um público mais jovem e moderninho (no qual eu me incluo, pra ninguém se sentir ofendido) entre os consumidores de discos de vinil — afinal, a gente pode tirar sarro o quanto for do meme da “diferentona”, mas o desejo de destoar do que está em voga desempenha um grande papel no modo como consumimos qualquer coisa. Os chamados ‘milennials’ (ou jovens com menos de 25 anos) têm sido apontados na mídia internacional como os grandes responsáveis pelo aumento das vendas de vinil, o que é notável principalmente pelos discos que lideram as listas de mais vendidos. Nos EUA, por exemplo, apesar de um The Darkside of the Moon (1973) aqui e um Abbey Road (1969) ali, alguns dos LPs mais vendidos de 2015 foram os jovens e indies Sigh No More (2009), do Mumford & Sons, Lazaretto (2014), do Jack White e AM (2013), do Arctic Monkeys.

No Brasil, a coisa funciona de um jeito mais diferente. É importante entender que lançamentos do chamado mainstream no Brasil não são fabricados em vinil — dos dez álbuns nacionais mais vendidos em CD em 2015, apenas dois ganharam uma versão em LP: Acústico, do Luan Santana, e Os Anjos Cantam, da dupla Jorge & Mateus, que lançou o disco apenas como brinde e não o disponibilizou para venda. Dos artistas que atraem um público mais jovem, os que lançam vinil geralmente são um pouco mais underground, como por exemplo a Pitty e o NX Zero. Bruno Borges usa como exemplo o rapper Emicida, que fez mil cópias de LP de seu disco O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, de 2014: “Quando ele ficou super conhecido, ele lançou um vinil. E ele não vendeu super rápido porque é um público mais jovem, a galera ainda não tem muito toca-discos. Mas acabou vendendo todos os discos, todas as mil cópias, porque ele é um cara bastante conhecido.”

Os LPs são a aposta de uma cena mais independente e alternativa — a banda de post-rock paulistana E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, por exemplo, lançou recentemente um compacto do EP Medo de Morrer|Medo de Tentar. Para Leonardo Salazar, no entanto, a participação desses artistas no mercado é tímida: “Eles fazem tiragens de 200, 300 cópias, — quase que uma tiragem artesanal — montam uma barraquinha no show e colocam o vinil lá pra vender. Eles não vão ganhar dinheiro com isso, mas atinge os consumidores que curtem.”

Não só o lucro não é grande, como o preço para a fabricação dos discos pode ser desencorajador. Usando o Medo de Morrer|Medo de Tentar como exemplo, simulei uma fabricação pelo sistema de cotação online disponível no site da Polysom: 300 compactos 7”, com seis minutos de áudio de cada, preto, com capa e plastificação. A cotação hipotética ficou em quase seis mil reais, frete não incluso.

O alto preço acaba fazendo com que os consumidores procurem alternativas, como fabricar os discos em fábricas fora do país: “As pessoas com quem conversei têm produzido vinil importado. Dizem que é mais fácil e barato importar vinil da Europa do que fazer no Brasil, e dizem que a qualidade do vinil é melhor”, conta Leonardo Salazar.

“Lá o cara tem muito mais opção pra fazer o vinil. Lá fora, eles tem um knowhow muito maior”, diz Bruno Borges. Ainda assim, a Polysom está longe de ser a única culpada pelos preços exorbitantes, como o próprio Bruno sabe: “A gente pode dizer que a Polysom é guerreira, porque o Brasil tem muito imposto; é um país muito injusto com a indústria fonográfica. É bom [a Polysom] ter uma concorrência aqui pra baixo. Isso vai melhorar a situação com certeza”.

VINIL BRASIL

Essa é a intenção de Michel Nath com sua nova Vinil Brasil. A fábrica fica na Barra Funda, na capital paulista. Quando conversei com Nath (em fevereiro), a ideia do empreendedor era começar a funcionar até junho e fabricar por volta de 150 mil discos por mês. Até aqui, a fábrica ainda não iniciou suas atividades.

Nath se formou em Música e começou a discotecar no início dos anos 90 — como a maioria dos DJs, sempre foi um obcecado pelos LPs. A ideia de fundar a fábrica, porém, surgiu apenas em agosto de 2014, enquanto Nath aguardava o LP do primeiro álbum que compôs, Solar Soul (2014), voltar das prensas tchecas onde estavam há nove meses. “Nesse meio tempo eu fiquei conversando muito com o meu importador e com outras pessoas que também aguardavam seus discos. Pensava: isso é errado. É caro, a gente não tem a qualidade que deveria ter, tudo é difícil pra gente”, conta. Meses depois, o DJ encontrou num ferro velho duas prensas que haviam sido fabricadas em 1954, reformou-as e começou a dar forma à fabrica. Segundo ele, a Vinil Brasil é “um projeto de conclusão de toda uma trajetória de vida. É uma somatória de vivência, de experiência, de valores.” Ainda assim, Nath tem boa noção de suas dificuldades: “Eu fiquei muito preso nessa dificuldade de fazer o vinil pela história do vinil. E aí eu fui abrindo um pouco a minha visão e vendo que não é o vinil que é difícil, é a situação no Brasil que é difícil. Viver de música no Brasil é difícil”, conta.

Nath não hesita em romantizar um bocado seus objetivos com a fábrica. “Eu não quero ser milionário. Eu não estou fazendo por isso, estou fazendo pela música. Para que eu, meus amigos e as pessoas que admiro tenham a condição decente de fazer um disco. A gente está lutando pra ter uma excelência musical melhor, num preço mais justo”, ele diz. O que será do mercado após a abertura da Vinil Brasil, porém, permanece uma dúvida.

“A Vinil Brasil vai chegar pra bater de frente com a Polysom, então serão duas grandes na América Latina. Isso vai melhorar muito o expertise”, opina Bruno Borges. Leonardo Salazar conclui: “Hoje em dia, a galera está fazendo [discos] lá fora ou na Polysom, então [a nova fábrica] vai ter que correr atrás do mercado dela. E aí, só observando o mercado a gente vai poder dizer mais alguma coisa; se vai dar certo ou se vai entrar pras estatísticas de empresas que abrem e, três anos depois, fecham”.

A história não mostra muito motivo para otimismo, mas nos resta aguardar pra ver. Não sabemos quantos vinis são produzidos e vendidos por mês e ano no Brasil, mas se dá pra acreditar naquela regrinha básica de oferta e procura, sabemos que o negócio tem lá o seu nicho. Se a nova fábrica (que teve um investimento num valor “equivalente a um apartamento médio no Centro de São Paulo”, como Nath informou à Piauí) vai vingar e se somar no lançamento dos bolachões, nem mesmo o oráculo mais esperto será capaz de dizer.

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