Conversamos com a Cantora Pop Curda que Fez um Clipe no Front de Guerra do ISIS

Em poucos meses, Helly Luv se tornou meio que uma embaixadora pop para a luta do Curdistão e da Peshmerga.

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ago 3 2015, 12:00pm



No início de 2014, a pop star curda Helly Luv (nome artístico de Helan Abdulla), precisou se esconder. Ela lançou seu clipe da música “Risk it All” em fevereiro daquele ano, um hino anti-guerra e pró-curdos, que deu origem a ameaças de morte feitas por grupos islâmicos do Curdistão iraquiano, e a críticas de seus próprios familiares. Falando ao The Guardian, seu empresário, Gawain Bracy (Chefe Executivo do G2 Music Group) declarou: “[Ela recebeu] várias ameaças de morte... principalmente nas mídias sociais […] Não temos intenção de publicar os nomes desses grupos islâmicos porque não queremos dignificar [suas] ações.”

O clipe de “Risk It All” desde então já teve mais de quatro milhões de visualizações no YouTube, e mostra Luv se enroscando com um leão e dançando com guerreiras peshmerga (do exército curdo-iraquiano) segurando AKs 47. Uma notícia da Reuters indicou que o clipe foi elogiado por representar o espírito e a luta dos curdos por um estado independente, e também criticado pelas imagens, que alguns viram como provocantes, que acompanham a mistura moderna de dance music, hip-hop e música tradicional do Oriente Médio.

“Isso me parece bem viajado, para ser sincera”, diz Luv, relembrando aquela época. “Tento não pensar no assunto, porque acho que o meu trabalho é muito maior e muito mais importante.”



Meio como uma Shakira curda com o temperamento político de uma M.I.A., Luv nasceu no Irã e foi criada na Finlândia, antes de se mudar para Los Angeles, numa tentativa de se tornar estrela pop. Hoje com 26 anos, Luv passa parte do tempo na capital curda de Erbil, a 88 quilômetros da base do ISIS, em Mosul (parte da região autônoma reivindicada pelos curdos). Mesmo enfrentando múltiplas ameaças de morte, Luv jurou continuar a filmar clipes no Curdistão iraquiano – uma posição firme que a levou a criar seu segundo single, “Revolution”.

Lançado em maio deste ano, o trailer de “Revolution” trazia uma boa amostra de qual é o lance de Luv: um encontro entre o nacionalismo curdo com uma diva pop cheia de vida. Em um clipe de 50 segundos, vemos Luv – usando saltos dourados, coberta de bijuterias e cintos de balas, e usando um keffiyeh vermelho – escrever “Revolution” com batom vermelho numa bomba, antes de inseri-la num tanque e dispará-la para longe.

O vídeo completo, lançado alguns dias depois, foi filmado por Luv e sua equipe a apenas três quilômetros do front da guerra entre o ISIS e os peshmerga, no Iraque. Nele aparecem tropas curdas reais no campo de batalha, correndo em direção a civis, e Luv – paramentada de uniforme peshmerga completo, com chocantes cabelos ruivos e cheios – carregando um AK-47 dourado, perto de tanques de verdade, e liderando soldados em marcha para a batalha. No épico de sete minutos, em que mensagem política e música são igualmente importantes, o vídeo mostra Luv e seus camaradas enfrentarem um exército de jihadistas mascarados. Para surpresa de ninguém, o clipe fez com que ela fosse colocada na lista de “mais procurados” do ISIS.

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“Queria muito mostrar a verdade da guerra”, diz ela. “Poderia ter filmado em Hollywood e Los Angeles, onde moro, mas não daria para mostrar as emoções verdadeiras, a verdadeira luta. Eu precisava mostrar a verdade da coisa.”


Obviamente, um campo de batalha ativo não é o lugar mais prático para se filmar, e foram precisos três meses para juntar todas as filmagens necessárias. O alto-comando turco de início relutou bastante em autorizar as filmagens, dizendo que seria arriscado demais, e que estavam próximos demais do campo de batalha. Todos os dias rezavam por sua segurança, diz Luv, e sempre vinham lhes dizer que mantivessem as cabeças baixas, e várias vezes os tiros passavam extremamente perto da equipe. Ao final do vídeo, ela diz à câmera que eles estão “a cerca de três quilômetros” do ISIS, antes de se esquivar para se proteger de uma rajada de tiros.

“De cara eles disseram que nós éramos loucos, e falaram pra mim: 'Onde você está com a cabeça, está falando sério?'”, conta. “Deixei claro para eles que o que eu queria fazer, e qual era a minha mensagem, e prometi que essa mensagem tem que ter alcance internacional, as pessoas precisam saber do que está acontecendo aqui.”

Desde seu lançamento no fim de maio, “Revolution” acumulou mais de 1 milhão e 200 mil visualizações, e Luv deu entrevistas para todo mundo, desde a televisão israelense até o Channel 4, para falar da situação do seu país, e de como ela começou a fazer música. Em poucos meses, Helly Luv se tornou meio que uma embaixadora pop do Curdistão e dos guerreiros peshmerga.

“Minhas armas são minha música e a minha voz, porque acredito que com a minha voz posso levar a mensagem a milhões de pessoas”, diz ela. “E foi exatamente isso o que aconteceu.”

Com populações significativas na Turquia, na Síria e no Iraque, os curdos vêm há décadas lutando por um estado independente. E com uma vitória eleitoral esmagadora na Turquia, onde o partido curdo HDP contribuiu muito para que o presidente Erdogan não obtivesse maioria no parlamento, e sua presente luta desigual contra o chamado Estado Islâmico, eles estão se tornando cada vez mais influentes.

Durante os primeiros dias da nova guerra civil iraquiana, muitos se surpreenderam quando o exército iraquiano se rendeu às forças invasoras do Estado Islâmico. Em meio ao caos, pelo menos no norte do Iraque, os únicos adversários que restavam eram os peshmerga curdos, nome que significa “aquele que enfrenta a morte”. Havendo construído a base de um estado independente para si mesmos depois da invasão americana em 2003, de jeito nenhum os curdos permitiriam que o ISIS o tomasse deles. Desde agosto, são a única força que impede a limpeza étnica dos numerosos grupos minoritários da região.

A política curda, historicamente de tendências esquerdistas, secular e amplamente igualitária, também desafia muitos estereótipos ocidentais a respeito do Oriente Médio. A presença de mulheres nas fileiras dos peshmerga, por exemplo, e o status de igualdade de que desfrutam dentro da sociedade curda, subvertem muitas das expectativas orientalistas.

“Se você olhar a história curda, nós sempre tivemos guerreiras e líderes poderosas, que chegaram até mesmo a liderar homens em batalhas”, diz Luv. “[O ISIS tem] muito medo das guerreiras, e nisso estão certos.”



Helly Luv vem de uma família de mulheres de opiniões fortes. Nascida Helan Abdulla em 1988, no Irã, em meio à brutal guerra do país contra o Iraque – um conflito em que ocorreu a infame campanha de armas químicas Al-Anfal contra os curdos, que haviam tentado afirmar sua independência em meio ao caos da guerra, e eram vistos como inimigos por ambos os lados.

A família dela escapou a cavalo pelas montanhas, e pagou contrabandistas para que os levassem até a Turquia. Quando chegaram, porém, junto com os mais de 100.000 outros refugiados curdos do país, não acharam lugar onde morar e foram obrigados a viver nas ruas, até que por fim obtiveram entrada em um campo de refugiados. Depois de nove meses, a família recebeu asilo na Finlândia, onde se tornaram alguns dos poucos curdos vivendo no país. Helly passou a infância na Finlândia, mas era tratada como forasteira por colegas de turma racistas.

A música e as apresentações eram uma maneira de escapar do isolamento e do distanciamento cultural que sentia, e ao fazer 18 anos, pegou um avião e foi para os EUA. Depois de alguns anos deprimentes em Los Angeles, onde viu “o lado mau da indústria da música”, Luv foi finalmente descoberta pelo produtor Los da Mystro, vencedor de Grammys e conhecido por seu trabalho com Rihanna e Beyoncé, e recebeu proposta para gravar um disco. Contudo, decidiu assinar com o selo independente G2 em 2013, e mudar de um estilo R&B mais mainstream para um som mais influenciado por suas raízes, o que levou sua música a ser vista com mais seriedade.

“Meu problema era que a música que eu estava fazendo em Los Angeles não era o tipo de música do qual eu realmente gostava e queria fazer”, diz ela. “Sentia que a música não era sincera, e não era verdadeira, era falsa. Queria trazer de verdade mais do Oriente Médio para dentro dela.”

Essas ideias se transformaram em “Risk It All”, seu primeiro single de sucesso, e uma homenagem otimista aos sonhos de independência do seu país, e sua própria fama recém-encontrada. Filmada no Curdistão antes da ascensão do ISIS, o sucesso da música levou Luv a se apresentar em Erbil, no Curdistão e aparecer no Rudaw, o maior canal de notícias do Curdistão iraquiano. Mas a música também fez com que ela virasse um alvo, e após ser ameaçada de morte por extremistas religiosos, ela recuou. Em muitos sentidos, “Revolution” foi seu retorno pé-na-porta-tapa-na-cara.

Apesar das críticas de vozes mais conservadoras contra seus vídeos provocantes e saias curtas, as pessoas do Curdistão gostam do que Luv está fazendo. Ela diz que “Risk It All” e “Revolution” receberam um apoio enorme da diáspora internacional dos curdos, muitos empolgados em ver sua causa receber uma promoção tão ampla de um dos seus.

“Os curdos deram muito apoio à música”, diz ela. “É a história deles, é a mensagem deles, e não deixei de mostrar a história deles, com o clipe, mas obviamente com o equilíbrio entre artista pop e mensagem política.”

Essa mensagem política é de que os curdos necessitam de ajuda. Precisam de armas, ela diz, e, com os 1 milhão e 800 mil refugiados que hoje vivem dentro de suas fronteiras, de ajuda humanitária, para apoiar o novo estado que estão construindo. O número de guerreiros não é infinito, diz Luv, e todo mundo que tem condições de lutar está no front, fazendo a sua parte. Nisso, é forte o contraste com o ISIS, cuja hábil propaganda nas redes sociais atraiu milhares de voluntários do mundo inteiro, e lhes provê de uma reserva aparentemente ilimitada de jihadistas. Com exceção de grupos seletos de mercenários ocidentais, os curdos não contam com tal apoio internacional.

“Como o Curdistão vai poder sustentar todas essas pessoas e ao mesmo tempo lutar contra o ISIS?”, diz Luv.

Também há necessidade premente de ajuda para se construir infraestruturas básicas no Curdistão iraquiano, e as viagens de Luv à região também a levaram a abrir sua própria ONG, a Luv House, que trabalha para melhorar a vida dos animais da região. Embora ela ainda não tenha resgatado nenhum leão do ISIS, o grupo melhorou radicalmente as condições de vida dos animais do Zoológico Gilkant, em Erbil – que chegou a ser classificado como um dos piores do mundo.

“Obviamente, um zoológico não vai mudar muita coisa, o Curdistão precisa de muito mais”, diz ela. “Precisamos que as organizações internacionais que lidam com animais venham aqui e realizem projetos, mas muita gente tem medo de vir para cá.”

Mesmo só com uma parca quantidade de ajuda ocidental, os peshmerga estão começando a virar a maré da guerra contra o ISIS. “Algumas semanas atrás, visitei o front, perto de Mosul”, diz Helly. “Do que me disseram e do que eu vi, a situação estava muito melhor, com certeza os peshmerga foram muito bons, muito corajosos, e têm mesmo avançado. O ISIS tem andado meio quieto – pelo que eu vejo, eles estão ficando bem fracos.”

Quando o Noisey conversou com Luv pelo Skype, numa ligação cheia de ruídos, ela estava a apenas alguns quilômetros do front, em Erbil, no Curdistão. A ligação foi interrompida mais de uma vez por quedas de luz e internet. Mas, apesar do perigo e das ameaças contra sua vida, é onde ela vai permanecer por enquanto, fazendo a sua parte, espalhando a palavra.

“Como artista, senti que tinha que fazer alguma coisa para entrar nessa guerra”, diz ela. “E muitas vezes digo que minha arma não é uma arma, minhas armas são minha música e minha voz.

“Sinto que, com a minha voz, posso passar a mensagens a milhões de outras pessoas, e foi exatamente isso o que aconteceu, senão eu não estaria falando com você nesse momento.”

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Tradução: Marcio Stockler