A Humanidade Má Sã em “Interno”, Nova Faixa do Síntese

Transformamos a vida em uma forma de cárcere? O Neto acha que sim.

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02 dezembro 2013, 5:43pm

Foto por Vinícius Moreira

O Síntese foi responsável pelo lançamento de um dos melhores álbuns do rap nacional em 2012, Sem Cortesia. O álbum duplo (Vagando na Babilônia e Em Busca da Canaã), com 28 faixas, mistura teologia, bases cruas, influências de reggae e MPB e um mundo de opressão sendo cantado em faixas curtas, quase sempre se refrão.

Em 2013, o Neto assumiu a parte do rap na dupla, enquanto seu parceiro Léo passou a ser o responsável pelas trilhas mais espirituais do grupo. No primeiro semestre ele lançou o split Buracos no Chão com o Distúrbio Verbal e hoje colocamos no ar com exclusividade a música “Interno”, single do próximo álbum do Síntese que chega em 2014. O som foi feito há um ano e estava parado, mas aí o Willian Monteiro, da Matrero Records lembrou dela, e aqui está.

Baixe "Interno"

Segundo Neto, a canção trata da prisão que o mundo virou e a maldade presente na humanidade, o que fica claro em versos como “Meu nome é criação e minha consciência é vã... No bruto: Proibido fruto, mesmo, humanidade má sã”. E sobre essa onda da maçã e do fruto proibido, o rapper joga o papo. “Então, humanidade má sã... uma menção à maçã, que dizem ser o fruto proibido. Mas penso que o fruto é o conhecimento sem responsabilidade, viemos pra Terra, primeiramente, pra evoluirmos a partir de uma perfeição, a condição para nascer aqui é zerar as consciências, a simples ignorância”.

No início da faixa, há uma fala que reproduz um poema budista. “Chegou até uns irmãos meus uns áudios de leituras de poemas de um Bodisatva da Terra. Já tive contato com alguns budistas e concordo com muitos tratamentos. Foi um momento muito íntimo em que meu irmão Max me aplicou nesse material. Me tocou profundamente, especialmente esse poema. Não temos informação sobre quem fez, onde, nem quando. Achei que tem muito a ver com a atmosfera da música, com o teor da letra e decidi colocar no início para trazerem as pessoas à atmosfera do sentimento certo pra receberem as vibrações do nosso registro. É a síntese precisa de como tratamos as nossas obras musicais”, explica Neto.

Influência confessa de Neto, em um trecho o MC faz alusão a uma frase do grupo O Rappa. “Aqui joelho e pranto na frente do reto”, diz em “Interno”. O reto, para ele, é Deus. “Deus tem o sensor real de tudo. Deus, do alto de sua pureza não corrompida por nenhum princípio draconiano, é o verdadeiro Ser Humano. A gente só brinca de ser. Deus tem sentimentos humanos e essa pureza, essa essência, está dentro de nós. Devemos acessar esse sentimento, esse âmago da nossa existência que é a imagem e semelhança do Criador”.

“Caminho até minha cela enquanto existo incoerente. E tento convencer o carcereiro da minha inocência”, canta Neto, em alusão à existência enquanto cárcere. “Inteligência é apostasia sem responsabilidade. Depois de evoluídos interagindo através do sentimento com a vida, teríamos o conhecimento de tudo aquilo que estávamos lidando, aí sim, iríamos lidar com tudo com a responsabilidade que a existência pede e não iríamos fazer dela um cárcere. O que mostra que somos deuses não são os nosso poderes, mas a responsabilidade com que tratamos eles. Mas ninguém quis servir à ordem natural acima de nossas cabeças, começamos a sugar, explanar as dimensões ilimitadas brecando a luz de andar sem senso evolutivo transcendente, e fizemos da existência um cárcere!”, reflete o MC.