Entrevista: Merda

O Fabio Mozine do Merda é uma espécie de Eike Batista do underground.

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04 fevereiro 2013, 6:43pm

Fabio Mozine não gosta de rótulos. Fabio Mozine acha tudo meio sem sentido. Fabio Mozine é o mercador das Arábias da música feia. Fabio Mozine toca no Mukeka Di Rato, n’Os Pedrero e no Merda – o assunto (mais ou menos...) desta entrevista. Fabio Mozine é um educador da juventude perdida brasileira. Fabio Mozine gosta de farra e sacanagem, mas não tem paciência pra palhaçadinha estilo stand-up comedy. Fabio Mozine criou um ícone da luta contra as drogas. Fabio Mozine é uma espécie de Eike Batista do underground – só isso explica manter um selo que já passou dos 100 lançamentos e não ter falido financeiramente. Fabio Mozine já visitou a Europa, os Estados Unidos e o Japão disseminando música tosca capixaba. Fabio Mozine é a maior celebridade capixaba desde Roberto Carlos. Fabio Mozine ganharia uma estátua se elas representassem pessoas legais. Fabio Mozine é o protótipo ideal do “cangaceirinho praieiro doido hardcore”. Leia a entrevista e descubra por quê.

VICE: Seguinte, tá rolando um monte de banda nova bacana de punk/hardcore no Brasil. E eu te conheço desde quando o Mukeka vendia 700 fitas demo na base da troca de carta. Ou seja: se eu estou velho, você está também.
Mozine: Isso.

Os integrantes das bandas que tô entrevistando, em geral, têm quase idade pra serem filhos seus. Imagino que a motivação pra você tocar hoje deve ser diferente de 20 anos atrás, correto? Como é ser um punk velho?
Primeiro, não me considero punk. Chatíssimo ficar rotulando, e como tem alguns donos da verdade do punk, eu saio de cena. Eu sou "jovelho", me considero um biscateiro alternativo. E não tô fazendo gracinha nem stand-up comedy: esse termo biscateiro alternativo define exatamente o que eu sou. Toco numa banda, toco em outra, escrevo um negócio, boto um projeto no governo, monto uma banquinha de CDs etc. O que me motiva a tocar é que eu gosto de fazer som. Hoje, a maioria dos integrantes de todas as bandas que eu tenho são pessoas resolvidas, com empregos, outras vidas, casados, com namoradas, filhos. Nós temos laços fortes de amizade. “Ah, vocês saem todo dia, se ligam todo dia?” Não, a gente quase não se vê. Mas temos laços reais de amizade que foram construídos durante anos de convivência, de troca de ideias, troca de experiências. A gente gosta de se encontrar no final de semana pra viajar pra uma cidade, ver pessoas por lá e fazer hardcore.

Tem um grupo de velhos que gosta de se encontrar em três em três meses e viajar pro Mato Grosso do Sul e pescar. Eles não são pescadores profissionais, mas eles piram em fazer isso. Lá no barco eles contam causos, pescam, bebem cachaça. A gente se encontra de quinze em quinze dias pra fazer hardcore.

E essa parada de ter criado uns lances que viraram referência?
Até acho legal que outras pessoas digam isso, e não eu. Acho meio presunçoso eu dizer que criei referências. Mas é óbvio que a gente percebe que tem algumas pessoas seguindo nossa linha, nosso caminho. Mas, bicho, muito normal. Quer referência maior que a Recess Records, por exemplo? A gravadora do cara do FYP foi influência pra mim em muitas coisas, desde o jeito de se comunicar, criar umas brincadeiras etc. 625, Sound Pollution, Slap-a-ham... Todas essas gravadoras norte-americanas foram referências pra mim. Então se eu estiver influenciando alguém a fazer alguma coisa legal, acho bom isso. Faço tanta merda né?

Legal. Esses dias rolou no Facebook um papo sobre a importância do Gaiola [álbum clássico do Mukeka Di Rato, de 1999]. Você tem algum sentimento especial por esse disco? Ou melhor, sente que aquilo tem um algo a mais do que outras coisas que você fez ou participou?
Sim, é um disco muito legal. A gente ainda era muito jovem, muito caipira e muito inexperiente de estúdio e de banda. E mesmo assim fizemos algo tão legal que não sei se conseguiríamos fazer parecido hoje em dia. A gente vivia a banda intensamente, se chamava de Mukeka Family, pensou em morar junto em outro estado, viver tocando, pensava vagamente em passar três meses juntos na Europa. Antes de responder uma entrevista, por exemplo, mandava ela toda pro Sandro [vocalista do Mukeka], pra ele ler também, pra ver se as opiniões eram aquilo mesmo.

Teve caso de música do Gaiola que discutimos semanas por causa de uma preposição. Juro!!! Sandro dizia que se tivesse tal preposição mudaria o sentido da música. Tinha algumas músicas subjetivas que a gente ficava pensando se alguém poderia interpretar de forma errada. Naquela época, com pobreza total pra gravar o disco, fomos atrás de alugar uma caixa Marshall, um luxo pra época! Eu e Sandro viajamos de ônibus pro Rio de Janeiro, pra masterizar o disco num lugar chamado Digital PS, por R$ 500,00 que meu pai me emprestou... Em 1999, a gente nem sabia direito o que era masterizar. Acho que a gente queria fazer algo legal e fizemos.

E o Merda? Entendo que as coisas do Pedrero não entrariam no Mukeka. Mas como você decide que tal som é do Merda e não do Mukeka?
São realmente bandas que têm músicas mais parecidas. Na verdade, é tanta doidera, tanta banda, que chega uma hora que ficam parecidas, mas se for ver, o Merda é um pouco mais nonsense, um pouco mais largadão mesmo, músicas mais rapidinhas. É óbvio que é tudo meio parecido, são as mesmas pessoas tocando outros instrumentos, mas eu acho que o Mukeka, com toda a malevolência e as brincadeiras sarcásticas, tem uma postura mais séria que o Merda. Porra, o nome da banda é Merda, né, velho!

[Risos] Entrevistei o Alex [do Morto Pela Escola, que toca no Merda] sobre a experiência de tocar com “lendas” capixabas como você e o Léo Aranha [baterista figuraça do Morto]. A pergunta é: continuam surgindo figuras como as de antigamente na terra do hardcore tosco e moleque?
O próprio Alex é uma grande figura. Moleque bom, talentoso, humilde, amigo, honesto e bicha [risos]. Velho, sério, sou um cara já meio velho e fiz alguma coisa, mas tenho um medo horrível dessa parada de lenda. Isso me faz evitar lugares, evitar pessoas. Se eu sei que tem um lugar cheio de pela-saco, acabo nem indo. Às vezes as pessoas vêm falar comigo puxando tanto o meu saco, mas são pessoas que não sabem nem o nome de três discos do Mukeka Di Rato. Sou um cara normal, bicho. Um cara do HC. E aprendi que dentro do HC não tem essas paradas de ídolo, gosto disso. Tanto que ultimamente tenho estado até um pouco recluso, saio mais com meus amigos de Coqueiral de Itaparica, de Itapuã, uns caras que nem entendem muito de hardcore. A gente sai pra ver jogo do Flamengo, tomar cerveja na praia, eles não falam nada de banda, a gente só fica sentado trocando ideia sobre bobeiras.

Comigo rola a mesma coisa — não que eu seja famoso — mas prefiro sair com gente "normal", pra falar das coisas da vida mesmo, do que com amigo roqueiro velho que só fala de rock.
Porra, total. Esses dias dei uma carona pra um maluco que falou: “Porra, velho, na moral, tô tremendo, nem acredito que você, VOCÊ, tá me dando uma carona". Aí eu falei: “Pô, beleza, desce do carro então porra!” [risos].

É verdade que o termo "hardcore tosco moleque" foi criado pelo Claro Que Não (banda que deu origem ao Estudantes)? Sempre achei que tinha surgido daí, porque explica perfeitamente o som daí a partir dos 1990.
Acho que, na verdade, possivelmente quem te falou isso foi eu mesmo! [Risos] Eu sempre respondo nas entrevistas quando alguém pergunta essa coisa de tosco. Na verdade outras pessoas começaram a nos chamar de tosco, não a gente. A primeira banda que eu vi usar o termo tosco foi o Claro Que Não na demo tape deles, que era pintada de giz de cera.

Fui num show de uma banda de amigos, que tem uns dez anos de existência, e eles ficaram felizes de ver uma molecada no show. No seu caso, você já deve ter acompanhado umas três mudanças geracionais. Óbvio, tem uns eventuais idiotas como eu que permanecem desde sempre. Dá pra dizer que mudou o perfil do público nesse tempo todo ou é a mesma turma de patetas de sempre?
Mudou sim, cara. Eu acho que a galera das antigas, de uma forma ou de outra, continua gostando da gente. Mas é óbvio que essas pessoas não vão ficar em casa escutando Pasqualin Na Terra do Xupa-Kabra [o primeiro álbum do Mukeka], muito menos vão ficar indo em shows de HC, mas sempre mandam mensagens, compram os discos novos, acompanham. A galera que vai mesmo no show é jovem. Parece que a gente fica velho, mas a faixa etária que ouve o som é a mesma. Antigamente a gente ia pra show com 100, 200 pessoas no público e posso te dizer que conhecia 70% daquelas pessoas e o resto sabia quem era de vista. Hoje em dia rola de fazer show pra essa mesma quantidade de gente com pessoas TOTALMENTE desconhecidas. Isso é meio bizarro, mas ao mesmo tempo é um termômetro que mostra que conseguimos fazer um público.

Tem em bula de remédio aquele "recomendado em casos de...". Pra que tipo de pessoa você recomendaria o Merda?
Recomendado em casos de algum tipo de probleminha psicológico leve.

[Risos] Uma galera por aí falando de índio Guarani Kaiowá e vocês me saem com um disco chamado Índio Cocaleiro... Porra, isso é preocupação com o índio ou com a parte do cocaleiro?
Acho esse assunto dos Kaiowá sério, me inibiu até de fazer um mini stand-up comedy com a situação. É sério, mas eu não vou trocar meu nome no Facebook pra Laja Guarani Kaiowá. A história do disco Índio Cocalero não tem nada a ver com essa situação, inclusive, o disco foi feito antes de ter acontecido isso tudo. É a nossa forma de falar sobre índios. É a gente falando de várias situações envolvendo índio, algumas de forma mais engraçada, fantasiosa, tocando cover do Frankito Lopes, “O Índio Apaixonado”, inventando gangues do norte que defendem a Amazônia. Bicho, é tudo doido, não faz muito sentido. [Risos]

O Flamengo é famoso por estragar jogador da pá virada. De onde você tirou que seria uma boa ideia o Maradona no Mengão?
[Risos] Bicho, total nonsense. Seguinte, a ideia inicial era fazer um disco chamado Ganguinha do Merda, em que todas as músicas seriam nomes de pessoas. Tudo começa por aí. Depois era a hora de escolher pessoas, poderiam ser mega famosas ou amigos. Rolou Sandrinho [vocalista do Mukeka], Quique Brown [vocalista do Leptospirose] e acabou rolando o grande Maradona, sempre gostamos dele. Fiz a base mais cachorra do mundo, que toda banda já usou, e fui cantando em cima, sem escrever... É a mesma coisa que você falar pra um moleque de 15 anos fazer uma música sobre o Maradona. Fui escrevendo o que ia falando, é tudo meio sem sentido se você pensar bem. Na verdade, eu sempre quero que o Brasil se foda no futebol, e na música dá impressão que eu tô zoando porque ele não ganha, mas na verdade tô querendo dizer: “Por favor, dá um teco, joga pra caralho e ganha dos evangélicos pagodeiros da seleção, por favor!” [risos].

Aliás, na música em homenagem ao Sandro, você o chama de "macalho". Que porra é essa?
[Risos] Teve uma vez que dois amigos estavam discutindo isso no estúdio onde gravamos. Um deles dizia que "macalho" era uma tribo, e outro falava que era outra coisa que não lembro. Na verdade, é um apelido interno, que sintetiza duas coisas que o Sandro gosta muito: maconha e alho. Aí virou Sandro Macalho.

Desde o Mukeka o som aí de Vila Velha e cercanias acabou ganhando essa identidade feia e única. O que acontece aí pra dar essa cara ao som? Tem alguma influência em particular que afetou mais a região do que o resto do Brasil?
Acho que o punk de SP estava na Praça da Sé ou em outras praças, na Galeria do Rock, no ABC. Posso estar falando besteira, mas é apenas uma opinião. A gente tá num estado fudido, coronelista, que tem influência da Bahia, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Um estado e uma cidade que lutam freneticamente até mesmo através de políticas de estado pra criar e/ou afirmar suas características culturais próprias, que são difíceis de ser enxergadas. Quando eu era bem novo, achava que eu era punk, mas eu tava indo na praia e em bailes funks, porque era o único lugar que eu poderia pegar uma mulherzinha. Aí ia à praia, sentava na mesa com meu vizinho chamado Negão, que tocava pagodinho... Sei lá, velho, isso aqui é um lugar muito doido. Teve muita gente aqui que se moldou no formato sério do HC straight edge etc. Teve outras pessoas que não, são tipo uns cangaceirinhos praieiros doidos hardcore. Não sei explicar, velho, nem sei o que eu tô falando mais.

Ouça o Índio Cocalero do Merda.

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