O SILVA Está Pronto para Falar de Sexo

O capixaba Lúcio Silva assume as influências de R&B e rap, se sente mais à vontade para fazer letras sensuais e está tentando ser menos controlador.

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05 outubro 2015, 12:00pm


Todas as fotos por Anna Mascarenhas

Lúcio Silva, o SILVA, é um capixaba gente boa, com voz suave e sorriso fácil. A primeira vez que eu escutei o som dele foi há muito tempo, mas me lembro que a primeira reação foi pensar que a Adriana Calcanhoto tinha tido um filho bastardo com o álbum Discovery, do Daft Punk, e que esse filho se chamava Silva. E apesar da vibe meio assexuada dos primeiros álbuns, que fugia do sexual e se jogava no amor da propaganda de margarina, ele conquistou o posto de maior artista indie brasileiro. Curioso, né? Não que a sexualidade tenha ficado totalmente de lado, afinal, o cara é gato sim e os fãs não abafam os gritos de “gostoso” ao longo do show. Aliás, há poucos meses tive a chance de assistir à uma apresentação da turnê Vista Pro Mar em São Paulo. Ele estava meio gripado, um pouco tenso sobre como a doença afetaria sua performance, mas fui testemunha de que o carisma e a afinação não faltaram.

Recém-chegado de uma turnê pelo Nordeste, fazia poucos dias que lançara uma música em parceria com o cantor Lulu Santos e o rapper Don L. “Noite”, segundo ele mesmo, é o começo de uma fase em que as questões mais sexuais, antes retidas, conseguem um respiro aliviado em seu trabalho. Aquela velha e boa forma de curar o próprio interior com a mistura de sintetizadores, instrumentos eruditos, música brasileira e amor. Aperta o play e chega junto pra nossa conversa:

Noisey: Você voltou há pouco tempo de uma passagem pelo Nordeste do país. Como foi a experiência?
SILVA:
Foi muito louco, porque eu nunca tinha subido. Quando fui pro Nordeste, em 2013, foi pro Abril Pro Rock. É um festival grande, então um outro contexto. Agora [foi] fazendo show meu, sozinho, bilhetado. É uma coisa que a gente tava meio assim “vamos ou não vamos, será que vai dar gente no show ou vamo sair no prejuizo?”.

Dá um medo porque você não conhece o público, né?
Pois é, você tem que arriscar. E foi incrível. O público [era] assim, uma galera super legal, cantando tudo do começo ao fim. E o povo lá é engraçado, porque eles não têm vergonha de ser fã, sabe? Se eles gostam, eles gostam, vão cantar muito. É muito louco, diferente. E eu fiquei super feliz de chegar em São Luís do Maranhão, num teatro cheio, e ter gente cantando as músicas. Um negócio meio louco. E a gente sabe que o Brasil é um mercado difícil, né? Tipo, minha irmã mora nos Estados Unidos, então sempre fui muito pra lá. E não só lá, na verdade, na gringa no geral isso também acontece. Tem um circuito mais universitário. Então uma banda mais alternativa consegue rodar tudo, com uma estrutura legal, a galera apoia. Aqui no Brasil é uma coisa um pouco difícil porque a gente tem o mainstream, então tudo que não é isso fica só no circuito underground. Então a gente tá hoje em dia... eu falo a gente porque meu irmão trabalha muito comigo. Ele compõe, ele que fecha os shows e tal. E vejo que hoje eu tô meio no limbo, assim. Porque você não tá no mainstream mas você também não está naquele meio underground. Você fica meio “onde que eu estou?”. É um pouco difícil.

O Vista Pro Mar representa uma fase mais aberta ao sol, à praia, ao mar, aquela pegada indie gostosa que te faz pensar em tons de rosa num quase fim de tarde. Já o Claridão era mais interno e azul. Você ainda está envolvido pelo clima ensolarado ou 2015 começou um pouco diferente?
Completamente! Vou tentar resumir, porque eu falo bastante. Minha criação foi toda protestante, né, meu avô era pastor. E sempre fui muito apegado com a minha família. Sempre fui muito questionador, então rolava essa coisa assim: “Porra, eu amo mas não concordo com tudo que eles estão falando, com a filosofia de vida deles”. Quando comecei a fazer música, pra eles foi meio assustador. “Pô, ele está fazendo uma música que não é erudita, sacra. E aí?”. Quando eu comecei era tudo meio etéreo, ainda muito dentro, muito preso. Por exemplo, a música que a gente lançou com o Lulu Santos há pouco tempo é uma música sensual, que fala de sexo. Eu nunca faria uma música assim no primeiro disco, nunca! Eu não tinha condições, sabe? Psicológicas mesmo, ainda tava me desprendendo de muita coisa da minha criação extremamente protestante. Então vejo que hoje me sinto muito diferente. Sempre gostei muito de R&B e as letras são muito sexuais, né? E é uma coisa que evitei nos meus trabalhos. Quando via que tinha algo nesse sentido eu tirava, deixava tudo naquele âmbito da viagem, meio lisérgico até. E agora estou querendo assumir mais essas partes, essas coisas sexuais. Não fazer uma música explícita, mas deixar aparecer no som, nas coisas. Acho que tá vindo aos poucos e quero que seja de forma natural, não quero forçar nada, tipo “agora eu sou assim”. Vejo uma diferença muito grande do meu começo, Claridão era bem angustiado, ainda tava numa fase tentando entender tudo. Fui pra uma fase mais feliz, aberta, mas ainda bem chapado. E agora estou querendo assumir minhas influências musicais que não trazia antes – sempre adorei hip-hop e R&B. Sempre cortei isso do meu trabalho. Se achava que tava indo por esse caminho, eu voltava pra uma coisa mais indie.

Você acha que era até um jeito de você se definir melhor dentro de um gênero? Evitar essa mistura?
Também, sim. Mas não sei, eu comecei a ver que a música negra, na essência, ela envelhece muito bem. Ela só melhora, nunca fica brega ou datada. Estou numa fase em que só tô curtindo isso. Só nisso que eu dou play.

Continua abaixo...

Sobre o lançamento que você comentou, a música “Noite” com participação do Lulu Santos e do Don L. Eles tiveram uma influência no processo ou fui uma criação meio fragmentada?
O Lulu, quando eu mandei o e-mail pra ele, já mandei a música pronta. A melodia e a letra. Ele topou e falou “vou cantar”. Então ele entrou ali cantando mesmo, só como cantor. Já o Don L foi uma coisa colaborativa mesmo, ele escreveu a rima dele, ele me sugeriu o espaço onde achava melhor entrar. Eu já tinha o esboço dessa música que não conseguia gostar, sabe? Sabia que precisava de outras pessoas pra música ficar completa. Ai cada um trouxe a sua colaboração pra ela ficar pronta.

Essa sua abertura com o rap agora, você gostou do resultado? Pretende fazer isso mais vezes?
Gostei muito. Assim, é engraçado, acho que nunca falei disso com ninguém. A galera me vê assim, tocando violino, tocando piano, instrumentos bem eruditos... Muita gente já me perguntou “ah, mas sua família é rica?”. Porque no Brasil tem um pouco disso, né, só tem acesso a esse tipo de formação quem tem uma família com grana e tal. E minha família é mega simples, a gente mora exatamente em Vitória no pé do morro. Sabe? Perto de uma favela. Perto da minha casa tinha escola de samba, tinha baile funk, tinha igreja evangélica, tinha de tudo. Só que a minha mãe é professora da UFES. Então sempre foi essa coisa mais erudita com aquela mistura toda ali. Cresci no meio disso. Não sou um cara como muita gente da MPB que eu conheço que tem aquela coisa mais “ai, o funk”. Nariz empinado, só gosta de música de elite. Adoro várias coisas até de funk mesmo, o André Paste é um dos meus melhores amigos. E a gente ouve coisas juntos e pensa “caralho, isso é muito foda”. Acho incrível. Estou gostando muito dessa experiência de trazer isso pro meu som, não ficar tão fechado dentro de um gênero. Essa coisa chiquezinha demais. “Sou muito fino, só faço coisas pra classe A”. Acho que não é por aí, a gente tá num país tão plural. Pra mim é inevitável trazer isso pro meu trabalho, mas quero que aconteça de uma forma madura e natural.

O Don também tem uma pegada que combina com a sua vibe, então ficou uma coisa natural, não ficou forçado. Você já conhecia o trabalho dele?
Quando ele lançou a mixtape Caro Vapor/ Vida e Veneno eu ouvi muito, muito. Aí depois de um tempo parei de ouvir e tal. E é engraçado, acho ele um artista muito inteligente. Você vê o show dele... lembro uma vez que ele fez uma versão em cima de uma música do Gil Scott-Heron, começou a rimar na música e achei genial. Ele é um cara que olha muito pra frente. O rap brasileiro ainda é muito old school. A galera tem um pouco de medo e joga sempre num campo seguro. O Don é um dos que mais flerta com essa coisa contemporânea, além de ser muito bom no flow, na rima.

Li numa entrevista que você era muito cauteloso com co-criações, por temer o processo e que o resultado fosse decepcionante. Esse sentimento mudou?
Embora eu seja calmo, bem tranquilo, relax, também sou muito control freak. Bem controlador com trabalho, sempre em cima de todo o processo. No começo era impossível chegar pra alguém e falar “compõe comigo, pega aqui essa parte e faz o que você quiser”. Eu ficava meio te dirigindo, sabe? E no fim você tava só executando uma ideia que eu tava te dando. Estou aprendendo a largar a mão com isso. Com o Don foi uma coisa inédita. E quando ele me mandou, eu falei “pô, adorei”. Gostei da experiência de ser menos controlador. Quando você chama um artista pra trabalhar com você, tá lidando com ego, sabe? Então pra você fazer uma coisa comigo e eu virar pra você [e dizer] que não ficou legal é tão difícil, sabe? É uma relação complicada. Componho só com meu irmão, o Lucas é o único que faz as letras comigo. Mas é meu irmão sabe? Posso falar que odiei, ele não vai se ofender com isso. Mas, sei lá, vou chamar o Nando Reis pra compor comigo. O cara escreve há 20 anos, fez milhões de hits. Aí ele faz uma coisa que eu acho que não coube pra mim, não ficou legal pra mim. Como você fala isso pra um cara desses? É difícil mesmo. É uma relação que ainda estou aprendendo a lidar.

E a gente pode esperar mais novidades de você esse ano, então?
Ah, eu estou tocando o “Vista Pro Mar” faz um ano e pouco. E ainda toco as músicas do primeiro disco. Então eu tô precisando muito me reinventar, precisando muito. Quero fazer um disco diferente, que me empolgue, que traga outro humor pro trabalho, outros ares. Já comecei a compor músicas novas, só não sei quando isso vai tomar corpo, mas quero que seja logo. Hoje em dia a gente não pode demorar mais tanto, tem muita coisa acontecendo. Estou trabalhando já, mas é difícil, nunca tive isso de tocar, fazer bastante show e compor ao mesmo tempo. Antes, quando eu escrevia as músicas, estava totalmente em ócio. Podia compor chapado, ficar um dia sem fazer nada e esperar uma super ideia. Agora não tem mais esse dia sem fazer nada.

É que virou um trampo.
Isso é um perigo, sabe? Você não pode perder a sua motivação. Se não você vira um robô, as músicas viram um tédio.

Você acha que ficou mais disciplinado por conta dessa mudança no processo criativo?
Estou querendo. Estou tentando. É uma coisa difícil pra mim, nunca fui muito disciplinado. Sempre fui bem caótico, nunca fui de estudar muito. Sempre fui aquele que prestava atenção na hora certa e pegava as coisas certas e POW. E sempre tive muita facilidade com música. Só que criação não é assim. Criação é um processo doloroso, você tem que ficar ali gastando. E eu já não acredito mais nessa coisa de inspiração. Gosto muito de biografia e todos os compositores que gosto muito, e fui ler a biografia, eram do tipo que trabalhavam igual pedreiros da música. Todo dia ali, lapidando, até sair uma coisa boa. Então ando tentando fazer mesmo, sentar e fazer. Eu só preciso disso. Tá indo, tô melhorando...

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