“O Recife Só Tem Piorado”, Diz Siba

O embaixador do maracatu guitarrístico fala sobre o novo disco ‘De Baile Solto’ e como as cidades viraram um lugar pior para se viver.

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13 maio 2015, 3:51pm


Todas as fotos por Felipe Larozza

“Paranoid”, do Black Sabbath. Foi essa a primeira música que Siba tirou na guitarra quando tinha uns 14, 15 anos. Pode parecer curioso que o músico pernambucano, conhecido pelo seu trabalho em bandas como Mestre Ambrósio e A Fuloresta, tenha tido uma adolescência roqueira.

“Eu era um roqueirinho de subúrbio”, diz ele, que viu seu caminho no rock mudar assim que entrou em um terreiro de maracatu. “Você cresce achando que maracatu é coisa dos velhinhos, e quando vi o maracatu pela primeira vez, disse: ‘Isso aqui é punk total, isso aqui é rock’”.

Daí que muita água rolou nesse rio. Siba viveu os primórdios do manguebeat, tocou rabeca, mergulhou de vez na cultura popular à frente da Fuloresta até que, em 2012, lançou seu primeiro disco solo, o Avante. O disco marcava oficialmente sua volta à guitarra, sem esquecer, claro, o maracatu.

Corta para 2015. De Baile Solto é o segundo disco solo de Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, o Siba – que ganhou o apelido numa alusão às pernas finas. Mais político e menos confessional que Avante, o novo álbum une guitarra, maracatu e algum pessimismo. Gravado com grana do próprio bolso, De Baile Solto foi produzido pelo próprio músico – “fiz uma produção um tanto frouxa” – e está disponível para download a partir desta terça (13) no site do músico.

Na entrevista, Siba falou mais e melhor sobre conceitos, baque solto, Ocupe Estelita, sua infância, o Recife, Nazaré da Mata e São Paulo. Vai que vai.

Noisey: Quando você virou Siba? O apelido vem de sibito, canela fina? É isso mesmo?
Siba:
O passarinho se chama sibito. O apelido normalmente vem de ‘sibito baleado’. Era [um termo] pejorativo. O cara novo, querendo ser forte, e o apelido dele é perna fina. Não gostava não, mas as amigas começaram a me chamar de siba. Não tenho uma lembrança da época, mas é coisa de quando eu tinha 18, 19 anos.

Você era moleque no Recife quando a começou a se interessar por música? Qual a sua lembrança mais antiga? Tipo, a primeira música de que se lembra?
A lembrança mais antiga de música eu não tenho. Com sete anos, minha mãe me colocou no curso de música do colégio – estudei no Colégio São Bento, em Olinda. Minha primeira infância foi no subúrbio de Olinda. Minha mãe achava que eu prestava atenção nos sons das coisas e minha iniciação musical aconteceu com a flauta doce. Tive essa musicalização bem cedo, não era nada sério, não tinha pretensão, não era um conservatório, mas foi uma musicalização precoce. No ambiente em que vivi não tinha esse negócio de musicalizar a criança – eu sou o mais velho, tenho uma irmã e um irmão. Desde o começo, gostei muito [das aulas de música]. Meu primeiro instrumento foi a flauta doce, queria tocar flauta transversal e me lembro que desde muito cedo já me imaginava músico. Queria estudar música de verdade, mas com 13, 14 anos eu queria surfar e ir pra praia e me afastei desse negócio de estudar música, mas eu já ouvia muita música, tinha uma dependência psicológica de música. Nem considero que houve uma ruptura porque eu parei de estudar, já estava ligado em música e foi um pulo pra ouvir rock e começar a tocar guitarra.

E a guitarra? Quando você começou a tocar? Influenciado por quem?
Entre os 14, 15 anos ouvindo rock, entra uma relação de querer o instrumento. Era uma relação mais séria, embora totalmente improvável do ponto de vista profissional, mas era intenso, foi uma escolha. Eu ouvia rock dos anos 60, 70, um pouco de heavy metal, era um roqueirinho de subúrbio.

Qual a primeira música que você tirou?
“Paranoid”, do Black Sabbath.

Uma curiosidade: por que não rolou a produção do Catatau em De Baile Solto? [Catatau produziu Avante]
Uma coisa não necessariamente leva a outra. Não teria porque ser, mas nada impedia também. Esse foi um disco feito com muito pouco recurso e isso acabou me empurrando a produzir sozinho. Por outro lado, comecei a achar interessante produzir o disco sozinho.

É o primeiro disco que você produz sozinho?
Inteiro só. Sempre produzi sozinho a maior parte e na hora de mixar eu tinha um parceiro. Agora, achei que podia ser interessante. No fim do processo, percebi que produzir sozinho me fez escolher alguns caminhos mais estranhos pro disco.

Como assim?
Fiz uma produção meio frouxa, não sou metódico como produtor e acumulei as funções de guitarrista, cantor, um pouco de executivo também, então nesse bolo acaba que a falta de capacidade de dar conta do processo como um todo. Tem um dado curioso pra o disco, um disco muito inspirado no processo de rua, um processo orgânico não tão racional da música. Tentei ativar essas energias e esses processos que aprendi dentro da tradição. Esse disco foi produzido de um jeito solto, eu não tinha uma ideia de como ele ia terminar. Os momentos mais estranhos do disco têm a ver com isso.

De Baile Solto é menos confessional que Avante. Qual a questão central pra você na hora de criar esse novo disco, qual história você quis contar?
Não tem uma história que seja igual para todo mundo que vai ouvir, não tem uma história que eu conto e vá te dar um mapa de leitura exato. O disco é uma tentativa de pensar o “estar à margem”. Eu parto da minha relação com o maracatu, que é uma cultura desprivilegiada e marginalizada, parto dessa relação para pensar esse momento que vivemos no Brasil – um momento mundial também de falta de perspectiva de mudança do modo de vida capitalista, esse modelo que a gente tem de consumo, que sabemos que exaurimos até de uma maneira talvez irreversível.

Mas as músicas dialogam entre si?
Talvez essa história possa começar com “Marcha Macia” e terminar com “O Inimigo Dorme”. Com essas duas músicas você conta a história do disco. Todo o resto, está ao redor, somando elementos e contradizendo algumas vezes também. Muitas relações entre as músicas não foram previamente concebidas. “O Gavião”, por exemplo, é uma música antiga, que eu gravei no Mestre Ambrósio e que, posta em relação ao disco, tem um sentido todo outro da época em que ela foi feita.

Em “Marcha Macia”, você fala em toque de recolher e uma nova ordem na cidade. É uma referência ao Ocupe Estelita, no Recife? De Baile Solto também é um disco político?
Essa música parte muito de duas situações que, não parece, mas são situações irmãs e dialogam: a situação do baque solto e do Estelita. São situações de questionamento sobre a força desleal, o poder da grana e da cultura do medo, da gentrificação e do classismo como algo capaz de separar as pessoas. São assuntos que me afetaram igualmente e falam dessa impossibilidade de construirmos um mundo menos segregado, menos ruim de viver – as cidades estão cada vez piores, o Recife só tem piorado. Eu cresci no Recife e todos os bairros em que morei estão piores hoje.

Sim, esse é um disco bastante político, sobre o grande fluxo de grana e poder ir para um lugar que você discorda e te faz pensar negativamente sobre um futuro próximo e longínquo também.

Quando você começou a fazer o De Baile Solto? Você teve dificuldade pra pensar um novo disco depois de Avante?
O Avante foi difícil, era um disco de mudança, era um disco muito pessoal o Avante só virou um show orgânico depois de dois anos. Para transformar o disco em algo orgânico, demorei muito tempo... pra achar os parceiros certos. As coisas têm seu tempo. Eu demorei pra conseguir uma organicidade num disco tão rock. O De Baile Solto começa com as questões de amadurecimento do próprio Avante.

Em De Baile Solto você continua a união do maracatu com a guitarra, mas seu olhar parece mais voltado à música popular.
O disco é um retorno ao que prefiro chamar de volta a uma rítmica. O que tem em De Baile Solto que representa o maracatu e a ciranda importa pouco pra mim. Eu parti dessas coisas todas que são a minha vivência e ritmos que eu domino e queria fazer uma música que tivesse essa mesma organicidade rítmica. Mas é o retorno a essa rítmica que importa, o resto é besteira. As guitarras estão lá e a música do congo acaba entrando como um elemento fertilizante. O ponto central em De Baile Solto é a retomada de uma rítmica, todo o resto é acessório.

Numa entrevista de 2012, você disse que quem gosta de rock e de punk pode muito bem gostar de baque solto. Por quê?
Você pode entender isso pelo som. Quem gosta de rock e de punk gosta de música com uma certa saturação, uma música agressiva e com uma forma de expressão que procura se colocar como contundente, não-acomodada. O baque tem muito isso. O maracatu é um discurso de diferença, é um tipo de gente que se diz diferente pela música, pela poesia, pela forma como dança. O maracatuzeiro diz: “Eu não sou nada disso aí”. Hoje, rock e punk são a cultura maisntream, é a música do império americano. A possibilidade dessa música ser uma música de protesto hoje em dia é mínima. O maracatu tem isso tudo [o protesto e a mudança] de uma maneira mais pura.

Você sente saudades de Nazaré da Mata? E do Recife? São quantos anos em São Paulo?
De volta a São Paulo, estou há uns quatro anos. Mas eu nunca saí total de São Paulo. Já tinha conquistado uma relação com a cidade e uma rede de possibilidades que a cidade oferece. Só foi possível ficar em Nazaré porque tinha esse pé aqui, às vezes São Paulo me salvava.

Estar aqui é mais uma escolha racional, na tentativa de viver da sua música, ou é uma escolha afetiva também?
Eu gosto muito de São Paulo. Fazer o que eu faço é muito o que dá sentido pra minha vida e isso precisa ser viável e é São Paulo que me viabiliza isso. Mesmo pra tocar em Nazaré da Mata o que me viabilizava era ter esse pé aqui e ter todo um trânsito que me permitia estar em Nazaré e só pensar em Maracatu. Mesmo hoje é impossível pensar uma carreira como artista, vivendo do que você faz, sem estabelecer uma ponte constante com São Paulo. Se não você fica refém a um ambiente local que é restrito e restringe.

Avante terminava com os versos da faixa-título, em que você mandava: “Quem parte berrando avante! Pode cair, mas não volta”. Em De Baile Solto na faixa “Meu Balão Vai Voar”, você diz: “Vambora companheiro, que está na hora de arribar”. É menos desembestado, mas você pretende continuar indo? Pra onde?
O ponto central pra mim é conseguir me manter criativo, ativo. Manter uma certa sensibilidade de urgência a cada momento novo. O ponto não é o que eu vou fazer, é como me manter inquieto com alguma coisa. Qual o próximo ponto vai me possibilitar dizer alguma coisa. De Baile Solto mesmo tem tantas leituras e elas me dizem muito de volta. A música vai me mostrar [caminhos] ao vivo e na estrada.

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