Precisamos Falar Sobre as Mulheres do Hip-Hop Britânico

Falamos com as diretoras do documentário sobre feminismo e a participação das mulheres na cultura hip-hop do Reino Unido.

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24 setembro 2015, 12:00pm


Little Simz

Artigo publicado originalmente no Noisey Reino Unido.

O termo “artista de hip-hop” é um que você raramente verá usando em referência às britânicas. Quando falamos de hip-hop, o diálogo tende a se direcionar para homens norte-americanos – mesmo o recente interesse comercial no grime gira mais em torno de homens do que nomes como Little Simz, No-Lay ou Shystie, que seguem tão ativas e relevantes quanto seus colegas. Apesar do envolvimento desde o começo dos anos 80 (grupos como Wee Papa Girl Rappers, She Rockers e a Cookie Crew de Clapham) até agora, o papel feminino no hip-hop do Reino Unido tem sido eclipsado, e suas experiências deixadas de lado.

Um novo documentário intitulado Through the Lens of Hip-Hop: UK Women [Através das Lentes do Hip-Hop: Mulheres do Reino Unido, em tradução livre] almeja mudar essa situação. Com entrevistas de diversas mulheres de todas as idades envolvidas em comunidades hip-hop do Reino Unido, o documentário busca destacar e validar vozes femininas por meio de narrativas pessoais e reflexão. Com cada uma das mulheres falando de questões ligadas ao feminismo, identidade, raça e educação, o longa traz à baila a muitas vezes obscurecida, porém não menos presente sensibilidade feminista no hip-hop do Reino Unido, trazendo-a das margens para o centro.


Fotos cedidas pelas cineastas

Dirigido por Silhouette Bushay e Samantha Calliste, Through the Lens of Hip-Hop: UK Women é uma produção totalmente independente sob o estandarte do Curved Marginz Visibility Projects, projeto colaborativo que se estende por meio de um blog, eventos e agora um filme para tratar da ausência de histórias de mulheres negras na Grã-Bretanha.

Fomos à exibição do longa durante o London Feminist Film Festival, seguida de um debate com as cineastas, a rapper de Nottingham Pariz-1 e Chardine Taylor-Stone, escritora, ativista cultural e baterista da banda punk Big Joanie. Quando questionadas quanto ao que as motivou a fazer o documentário, a co-diretora Samantha Calliste respondeu: “Nós [mulheres] estamos presentes e somos parte da cultura hip-hop, e nos articulamos de um jeito todo nosso. Então nos perguntamos: onde estão essas mulheres? Sabemos que elas existem e tem algo a dizer”.

Sedentos por mais, conversamos com Silhouette e Samantha para saber mais sobre a cultura do hip-hop feminista britânico.

Continua.

Noisey: Olá! O que vocês diriam que há de novo ou diferente na cena de hip-hop britânica agora em termos de feminismo?
Silhouette:
Eu era uma criança quando o hip-hop surgiu, então só posso falar desse ponto de vista. Não estava nas boates – conseguia entrar em uma ou outra, mas eu não deveria estar lá! Penso que agora estamos em um estágio diferente do mesmo diálogo. Você tem aí o mainstream e o underground. Se estamos falando do mainstream, então não sei o que rola em termos de feminismo, ainda mais no contexto britânico. Onde estão as mulheres? Não as vejo. Porém, penso que os jovens sentem que podem se expressar mais hoje do que antes. Lhes deram permissão, de certa forma, onde quem fazia isso antes, era considerado rebelde.

Samantha: Concordo. Eu era muito jovem pra participar dos espaços no início, mas agora o que estes espaços me disseram enquanto estávamos lá filmando e conhecendo todas essas jovens é que seu nível de empoderamento é muito maior. Conhecemos muitas jovens que não dão a mínima pro que rola no mainstream. Elas não querem saber, porque o hip-hop é delas. É delas, é válido, e como elas o usam é válido. Então para estas pessoas não importa, até certo ponto, o que rola no mainstream. Penso que o mesmo vale para minha experiência na juventude. Você não buscava validação para participar.

Vocês diriam que as mídias sociais ajudaram no desenvolvimento da cena de hip-hop underground?
Silhouette:
É muito mais fácil pra alguém estourar agora por conta das redes. Mas falando de underground, a galera sempre fez o rolê. Mesmo quando o esquema era arrumar um DJ pra tocar seus discos, o corre sempre existiu. Mas agora o mundo está a um clique de distância. Dá pra criar aquele público ou encontrar gente interessada no que você tem a dizer. Logo, se você vai rimar sobre comunidades queer, vai incluir uma galera que talvez pense que o hip-hop não é pra ela, e isso é poderoso demais.

Li um perfil da Little Simz há pouco e ela disse ter começado a curtir rap por volta dos nove anos de idade através de clubes de jovens. Em meio à pesquisa de vocês, como foi que a maioria das pessoas chegou ao hip-hop?
Silhouette:
Varia pra todo mundo. Para uns, cresceram com aquilo. Meu primeiro encontro com o hip-hop foi no playground, saca? Alguém me mostrou um passo de dança e foi isso.

Samantha: Acho que há algo de interessante ao observamos o Reino Unido e o histórico de provisões para os jovens – espaços onde você encontra sua tribo e cria. Esses espaços não existem agora.

Como vocês descreveriam a relação do hip-hop com o feminismo em 2015?
Samantha:
Dinâmica e complexa, de uma maneira muito positiva. Acho que reforça o feminismo. Você tem que se fazer um monte de perguntas, porque ama essa cultura em que há uma série de diálogos diferentes sobre seus abismos, sua força, sua beleza – tem tanta coisa rolando no hip-hop que, de forma a se engajar com ele e se rotular como feminista, você tem que ser interseccional nos seus pensamentos. Se você está dançando um som, ele soa ótimo, certo? Mas talvez as letras não sejam lá muito simpáticas às mulheres, então você talvez tenha que refletir sobre isso. Creio que é isso que o hip-hop faz, te torna mais crítica.

Silhouette: Existe a teoria e a experiência na vida real. O hip-hop te faz se afastar da ideologia e idealismo e pensar no que é real. Mas também tem a ver com se sentir bem. O hip-hop pode te dar um lugar em que você pode dizer pra si mesma “não sou perfeita, sou um ser humano e sou complexa” e você pode aceitar e ficar numa boa com isso.

Há pouco li um artigo que sugeria que talvez as mulheres no hip-hop britânico não têm tanta visibilidade porque se preocupam em fazer sua arte ao invés de forçarem a barra pra aparecer como alguns homens e/ou artistas norte-americanos. Qual a sua opinião sobre o tema?
Samantha:
Considero este ponto de vista problemático. Ele sugere que o sucesso para uma mulher no hip-hop significa estar no mainstream. Depende do que você define como o que te torna bem-sucedida, o que faz o seu hip-hop ou sua participação na cultura bem-sucedida. Penso que as mulheres que vimos tem dado duro.

Silhouette: Elas estão em espaços masculinos também. O que pega é a motivação. O hip-hop é maior que a indústria – é um estilo de vida. Algumas pessoas fazem por amor. Sim, eu gostaria de ganhar dinheiro e fazer disso uma carreira, mas temos que pesar as coisas. Não conseguiria respirar se não pudesse me expressar assim. Pra maioria das pessoas, o que tem mais efeito que um papo do tipo “preciso de um contrato”.

Samantha: Se você for ao Lyrically Challenged, evento mostrado no documentário – ele é organizado só por mulheres, está no seu quinto ano e sempre lota. Elas não fazem parte da indústria, elas fazem mixtapes e reúnem a comunidade e rola toda aquela energia no lugar. Isso é sucesso.

O documentário explora o hip-hop enquanto música, dança, terapia e um elo entre amigos e família. Algumas mulheres falaram sobre o gênero enquanto expressão de si, autodescoberta, uma espécie de irmandade ou todas as anteriores. Mas o que o hip-hop significa para vocês duas?
Samantha:
É complicado colocar em palavras, porque pra mim é mais uma emoção que algo tangível. É algo que faz parte de mim, da minha vida, e creio que diversas formas têm mais a ver com a mulher que sou hoje – a forma como me visto, como penso, minha política. Me permitiu ainda jovem falar de coisas como opressão, racismo, aquela sensação de não ter valor porque ouvia aquilo na música. É como sangue. É como respirar, o que soa clichê demais, mas é tão difícil de descrever! É como me movo e o que faço.

Silhouette: Isso ressoa mesmo. Vai soar meio “ai meu Deus” mas é algo bastante etéreo. De verdade. Muito espiritual. Há toda uma filosofia no hip-hop e tudo se perde quando falamos do assunto em nível de indústria. O documentário segue esse espírito. Por mais que falemos da indústria, porque ela existe e faz parte do movimento gostemos ou não, pra mim – eu sou o hip-hop, ela é o hip-hop, nós somos o hip-hop. Não dá pro hip-hop existir sem as pessoas. É isso que ele é. Hip-hop é gente.

Queria finalizar com uma pergunta que vocês fizeram pra todo mundo no documentário: quando você se apaixonou pelo hip-hop?
Silhouette:
Por volta de 1981/82. Estava andando pelo playground e dançando, e me apaixonei pela coisa porque na hora me senti como parte daquilo, quando antes me sentia mais uma forasteira vendo tudo de fora. Cresci e Motown e Lovers Rock e todas essas coisas e esse foi meu ponto de ligação no playground também, mas em termos de voz e política sempre fui rebelde desde cedo. O hip-hop foi o momento em que parei de ligar para o que os outros diziam sobre como deveria ser e fazer. Ele me deu vida.

Samantha: Por mais que estivesse ouvindo o som, não tomei ciência até 1986/87. As lembranças que tenho são de estar nos quartos de amigas ouvindo a Station FM, dançando, ouvindo música e escrevendo rimas. Cresci em um conjunto habitacional e sempre tinha gente jovem na rua até tarde, sentadas pelos muros, ensaiando músicas ou assistindo a Electric Boogaloo e dançando break – tudo isso rolava. É difícil pra mim apontar um momento exato, mas estes anos, com certeza.

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Tradução: Thiago “Índio” Silva