Dá pra ser mais extremo do que isso? Uma entrevista com o Dropdead

Um quarto de século fazendo barulho não é o bastante para esgotar o fôlego desta cultuada banda de grind-thrashcore estadunidense, que ensaia sem pressa para um vindouro LP.

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nov 30 2016, 12:15pm

Difícil colocar em termos objetivos a sensação que certas bandas te causam na primeira ouvida. Estava rolando aquela migração do vinil pro CD quando comprei o primeiro Self Titled do Dropdead, com o qual inaugurei o primeiro CD player decente que tive. Com o volume no talo, "Hopeless", a faixa de abertura, explodiu nos falantes, que eram muito potentes — as caixas deviam ter um metro de altura. Foi tipo uma cuspida de fogo, e eu fiquei atônito. O álbum segue com 34 catárticas faixas de cerca de um minuto. Várias, só com perto de trinta segundos, na real. Um acasalamento extremo de hardcore, grind, noise e thrash, intercalando passagens ultrarrápidas e compassadas com um vocal nervosamente berradáço e letras radicais.

Este álbum, de 1993, saiu dois anos após a formação do grupo, em Providence, Rhode Island, Estados Unidos. Desde então, o Dropdead nunca mais parou. Deu uns tempos, como o bom malandro, porém está firme até hoje, na música, na militância política e na mesma cidade. Em sua discografia, constam vários EPs e splits, mas LPs mesmo foram só dois. Os trabalhos mais recentes são os splits com o Brainoil e o Unholy Grave, ambos de 2014.

Li nas redes que eles haviam começado a ensaiar e rascunhar novas debulhações sonoras, e nisso encontrei a deixa para trocar uma ideia com os fundadores do conjunto, o vocalista Bob e o guitarrista Ben. Acompanhe:

Noisey: Qual era o envolvimento de vocês com a música, o punk e a contracultura na época em que formaram o Dropdead, em 1991?
Bob Otis (voz): O Dropdead foi a minha primeira banda de verdade. Antes eu cheguei até a tocar com amigos em alguns projetos, mas a primeira gravação pra valer e a primeira turnê rolaram com esta mesma banda da qual ainda faço parte. Na época de nossa formação, eu estava começando a sacar as coisas do anarco-punk assim como tendo uma introdução a muito das políticas do punk.

Ben Barnett (guitarra): Nos anos 1980 eu estava no rolê do metal, do skate e bmx, quando um belo dia descolei uma fita com músicas do GBH, Subhumans e English Dogs. E as ideias, no que diz respeito às letras, combinavam melhor com o que eu estava sentindo. Era um discurso diferente da maioria das letras das bandas de metal que eu escutava. Com o tempo, fui sendo cada vez mais atraído pelas bandas punk e hardcore, tanto pelo som como pela mensagem.

Por conta talvez da duração de suas músicas, o Dropdead sempre foi muito mais de lançar splits do que álbuns. Desde os discos com o Brainoil e o Unholy Grave, em 2014, o que vocês estão planejando?
Ben: Os splits sempre rolaram com bandas de gente amiga e que respeitamos musicalmente. Acho que não vamos mais fazer nenhum split por um tempo. A proposta agora é trabalhar em um novo disco do Dropdead sozinho. Mas não temos pressa de ficar lançando materiais novos.

Vocês já têm um bom número de sons novos guardados?
Bob: Os caras estão trabalhando em novas músicas no momento. Eu tenho um bloquinho cheio de letras e ideias prontas para a ação.


As questões defendidas pela banda, assim como a abordagem das letras, mudaram de alguma forma desde as primeiras gravações?
Bob: Acho que mantivemos muito de nossas principais bandeiras, como direitos dos animais, direitos humanos, luta contra o sexismo, o racismo, a destruição ecológica, e fomos expandindo, com o tempo, o discurso dentro dessas questões. Torço para que a escrita tenha ficado melhor definida, expressiva, e que transmita mais urgência, ao contrário de algumas letras simplórias que compus no começo. Temos tentado seguir um estilo de vida que esteja de acordo com o que escrevemos da melhor maneira possível. Me considero ativo politicamente. Milito em pról do veganismo, participo de protestos, de resgate de animais e também ajudo a comunidade de pessoas com deficiência cognitiva. Faço o máximo que posso.

Ben: Eu diria que ainda somos 100% aquilo que éramos no começo. Acho que compreendemos melhor hoje, mais do que nunca, as razões pelas quais defendemos as ideias em nossas letras. Nós definitivamente levamos uma vida baseada em nossos ideais e naquilo que propagamos nos shows, nas artes, letras e músicas.

Acho foda quando uma banda dura mais de duas décadas. E o Dropdead nunca anunciou seu fim. Qual é a fórmula para não perder a motivação ao longo de todo esse tempo?
Bob: Nós definitivamente passamos por períodos de inatividade e lentidão. Não foi um lance sangue-no-zóio-25-anos-sem-parar. Talvez isso seja parte do segredo para não estafar. Também tivemos aquelas fases de baixa motivação e conflitos na banda. Somos um grupo de irmãos, e irmãos brigam. Mas, no fim, a verdade de nossas amizades e o entendimento comum do que significa o Dropdead para nós sempre superaram tudo. Teve até uma vez que eu fiquei putaraço com esses caras no meio de uma turnê de seis meses. Ficar longos períodos em quadrados, constantemente exaustos e estressado, dá nisso, e eu sou um cara muito louco [risos], então acabo me sentindo mal mais por ELES do que por mim! O que importa é saber que quando a poeira baixa esses caras é que são os meus amigos de verdade. Eu amo eles pra caralho.

Ben: Acho que todos cultivamos respeito mútuo, e, verdade seja dita, já passamos por um inferno de altos e baixos em nossas vidas. Esses caras são família pra mim. Independente de nossas mais estranhas diferenças, a gente se dá bem e ri de si mesmo quando necessário. Melhores amigos.


Vocês acreditam na anarquia como uma saída para os problemas sociais de hoje?
Bob: Eu sequer acredito que a sociedade esteja pronta pra a verdadeira democracia, esqueça a anarquia. Para isso seria necessário a autogestão, mas o rebanho gosta mesmo é de ser domesticado.

Ben: Eu acredito que as pessoas deveriam ter o direito de viver as suas vidas o mais livremente possível. Não acredito numa ideologia política específica. Sou um cara de viver na prática. Damos um jeito de viver nesse mundo tal qual ele é, nos adaptando para sobreviver, causando o estrago que for possível, e lutando para ser alguém decente no final do dia.

O que vocês pensam de bandas como o Rage Against the Machine, que têm ideias radicais, mas abrem concessões para tocar em eventos patrocinados por grandes marcas?
Bob: É uma faca de dois gumes. Por um lado, é daora que bandas como essas possam tocar para milhares de jovens e passar as ideias de contracultura para um público de massa. Mas infelizmente o mundo corporativo serpenteou para dentro da cena de subcultura musical e este é apenas mais um lugar para as marcas se colocarem como tendência, ou alternativas, e, é claro, acumularem seu todo poderoso dinheiro. Temos muito cuidado com o que tocamos e apoiamos, mas às vezes você tem que dançar um pouco com o diabo se quiser que a sua mensagem chegue em muitas pessoas. Nós já recusamos tocar em festivais como o Scion ou qualquer coisa que promova ideologias/políticas com as quais discordamos, mas já tocamos em alguns festivais de música extrema que tinham marcas de cerveja e coisas assim como patrocinadores. Se há algo de hipocrisia nisso, pelo menos é o diabo que conhecemos.

Ben: Eu acho que existem coisas piores do que isso pra gente se importar. Cabe às bandas decidirem até que ponto elas estão dispostas a fazerem concessões pro negócio rolar. O ideal seria que os eventos acontecessem por seus próprios méritos, sem ter que precisar do dinheiro corporativo, mas se você, como banda/performer, não tem nenhuma mensagem e está só tocando, então provavelmente essa questão não faz diferença. Em alguns casos, a música é só um entretenimento.

Vocês vivem de música? O que fazem pra pagar as contas?
Bob: Eu trabalho com adultos que têm deficiência cognitiva num programa de artes e música aqui em Pawtucket, Rhode Island, chamado RHDI-RI. Não é exatamente um trabalho comum, mas é um ambiente fora do normal onde eu posso agir normalmente. Nunca fui capaz de trabalhar em empregos normais. Trabalhar com pessoas que são consideradas estranhas ou diferentes na perspectiva do senso comum é o que me faz poder ser eu mesmo e me sentir em casa.

Ben: Sou sócio e administro duas lojas de discos, uma em Boston e outra em Providence. É bastante trabalho, mas é muito bom ser o meu próprio chefe. Depois de uma experiência dessas eu nunca mais voltarei a trampar pros outros.

Na banda vocês assumem todos os processos de produção, turnês e promoções?
Ben: É assim que operamos. Mas contamos com a ajuda dos nossos amigos, é claro. Jamais poderíamos concretizar todas as coisas que fazemos sem eles!


O Dropdead é uma banda bastante conhecida no underground mundial. Vocês têm noção dos lugares onde nunca tocaram e nos quais cultivam um público legal?
Bob: Percebo que conseguimos espalhar a nossa música para muitas partes do mundo. Mas essa é a força da internet, e também um atestado de que o hardcore punk ainda segue firme e forte, inspirando toda uma nova geração. Ainda mais hoje em dia, que as pessoas conseguem escutar música ao clique de um botão, de Providence à Indonésia, ou encomendar discos de qualquer parte do mundo. Ficou muito mais fácil transmitir a sua música e mensagem por aí. De qualquer forma, estar na ativa há 25 anos certamente nos ajudou a passar a ideia [risos].

Ben: Pra ser honesto eu não sei direito. Mas tenho certeza de que tem gente que curte o nosso som no mundo inteiro hoje. Quando começamos, o Brian [baterista] e eu costumávamos trocar cartas com gente de todos os lugares. Trocavamos fitas, discos e zines com nossos camaradas de outros países. Sinto que a internet definitivamente tornou as coisas mais fáceis e rápidas. E, também, menos pessoais e especiais. Eu gosto, porém, dessa facilidade de poder compartilhar qualquer coisa criativa.


No momento, vocês são militantes ativos de alguma causa ou coletivo?
Bob: Além do meu envolvimento com a comunidade de deficientes cognitivos, eu também sou ativo no resgate de animais que sofrem maus tratos, num coletivo que vem realizando salvamentos de felinos no último ano e meio, entre gatos de rua e domiciliares. Nós os ajudamos com encaminhamento para tratamento veterinário, castração, e conseguindo lares para eles. Minha namorada e eu somos militantes do veganismo e procuramos nos manter ativos tanto nos protestos com nas ações políticas. Recentemente participamos dos protestos pelos direitos dos animais que rolaram na Costa Leste e das marchas antirracistas do Black Lives Matter, em Providence. Eu tento fazer o que posso para alguém da minha idade.

Ben: Não estou envolvido com nenhuma organização ou causa além do compromisso em viver de acordo com as nossas letras. Já realizamos um monte de eventos beneficentes, e eu pessoalmente já fiz doações para uma série de lutas. Acredito que nisso reside a premissa básica para alguém que quer ser politicamente ativo: viva seus ideais.

O Dropdead está no Facebook e no Bandcamp.

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