Foto: Felipe Larozza

O rock ainda respira (por aparelhos) em Vila Velha

Diferentes estirpes e gerações roqueiras estiveram em peso no primeiro Läjä Festival, que comemorou duas décadas do conglomerado de bagunça rock erguido por Fabio Mozine.

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27 junho 2017, 4:00pm

Foto: Felipe Larozza

Há pouco mais de um ano, o Noisey encontrou uma maneira de invadir o rolê de Vila Velha, no Espírito Santo, na faixa. Com o álibi de cobrir um show do Muddy Brothers, ficamos na bota do Fabio Mozine, o patrão da Läjä Records, afim de gastar a onda da tosqueira cracuda do rock pesado de lá. Bebemos bastante, ouvimos do crust ao brega, rimos e nos abraçamos. Nos demos tão bem que, na última semana, fomos convidados para colar na primeira edição do Läjä Festival, que aconteceu em Vila Velha no último sábado (17). Já estávamos cientes da ideia de realizar o evento desde aquela visita, e ficamos contentes em saber que o Mozine conseguiu botar a parada de pé. Empreender no underground de uma cena insular, afinal, é para poucos. É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana. Sempre.

Water Rats. Foto: Felipe Larozza

O evento foi organizado com o mote de se festejar os 20 anos da Läjä Records. Para isso, Mr. Moz contou com o apoio de marcas parceiras e projetos de incentivo à cultura e fechou o Correria Music Bar, famoso por ser o point dos roqueiros, ou, melhor dizendo, "o reduto dos camisas pretas". O lineup foi preenchido com uma seleta de bandas do catálogo acrescida de dois nomes locais que venceram um concurso cultural com dezenas de inscritos. Ao todo, apresentaram-se naquela noite os conjuntos: Lomba Raivosa, Lo-Fi, Deb and The Mentals, Leptospirose, Merda, Facada, Motosierra, Muddy Brothers, Os Estudantes, Water Rats, Whatever Happened to Baby Jane e Blackslug — essas duas últimas, as vencedoras do concurso.

Foto: Felipe Larozza

Viajamos no ônibus das bandas, um "expresso luxo" que saiu do Memorial da América Latina, em São Paulo — e não do Espaço das Américas, como foi erroneamente informado e causou uma certa bagunça na hora —, em direção ao norte do sudeste do Brasil. Encarar 17 horas num busão não é lá o passeio mais agradável da vida, por isso foi necessário recorrer a paliativos canábicos. No geral o esquema todo foi muito firmeza, o hotel era legal, a comida, idem, os horários, todos cumpridos, inclusive das atrações no festival.

Pogando até umas hora. Foto: Felipe Larozza

A qualidade do som representou, assim como a infraestrutura do espaço, com diferentes ambientes de convívio para vencer a claustrofobia espalhados pela área aberta que emoldura a sala de shows. Em termos de público, o sucesso era nítido. Havia gente chegando desde as 16h até as 23h, além do quê, a maior parte do povo curtiu até o final de boa. Ganhamos mimos, camisetas, discos, brejas jamaicanas, e todos os artistas e a galera da organização foi acolhedora conosco.

Motosierra. Foto: Felipe Larozza

Na nossa humilde opinião, um dos shows mais daora foi o do Motosierra, porque o vocalista Marcos tem a presença de palco digna de uma simbiose entre Iggy Pop vs Mick Jagger vs Lux Interior do terceiro mundo. Outro que rachou o assoalho foi o do Facada, porque os cearenses, ao lado do Test, fazem o melhor grindcore de que se tem notícia no momento e encerraram a noite como a banda que conseguiu organizar com excelência um moshpit de qualidade.

Facada, mosh, suadeira e uma massa sonora dos infernos. Foto: Felipe Larozza

Merece destaque também a apresentação do Deb and The Mentals, que fez um show contagiante, muito marcado pela empatia da vocalista com a plateia. Sempre interativa e movendo-se constantemente de um lado ao outro, Deborah Babilônia levantou o astral da rapeize em momentos como a execução de "Again" e "Feel The Mantra".

Deb and The Mentals. Foto: Felipe Larozza

E não podemos nos esquecer de dar grifo ao explosivo Water Rats e ao Muddy Brothers, que com sua arrepiante sonzeira vintage foi capaz de segurar a pista em boa parte cheia até as quatro da manhã. Com apenas guitarra, batera e voz, eles conseguem botar abaixo um baile inteiro. Já o Lomba Raivosa garantiu a diversão jovem com seu talento, carisma e ousadia.

Abaixo, listamos nove constatações que fizemos durante o Läjä Festival. Curiosamente, foi possível notar que várias coisas as quais achávamos que nem existiam mais, ainda existem. Em vã consciência, acreditamos que o rock jaquetinha havia morrido, mas não. Ele respira por aparelhos em Vila Velha.

XXX. Foto: Felipe Larozza

1. Os straight edges ainda precisam provar que são straight edge usando jaquetas escrito "Straight Edge"

O Läjä Festival foi um dos festivais mais sortidos que já presenciamos. De um lado tinha um sujeito com uma camiseta anti-straight edge (o silk era um X na mão com uma tarja de "proibido fumar" em cima, muito bem sacada), e, do outro, um carinha com aquelas jaquetas colegiais bufantes com o escrito STRAIGHT EDGE, em letras garrafais, nas costas. Mano, na moral, ninguém mais dá crédito pro Shelter, porém é verdade: esse tipo de coisa ainda existe! Que loucura. Imagina a pessoa indo no stand do shoppinho e falando: "Então, eu queria bordar isso aqui nas costas dessa jaqueta, com aquela font estilo High School, sabe? Tá aqui no pendrive, salvo em jpg. Quanto fica?"

Bi Coveiro, baixistão da porra. Foto: Felipe Larozza

2. Os baixistas de bandas de rock ainda ficam bêbados demais pra opinar sobre qualquer coisa

Entre uma música e outra, o baixista do Water Rats, Bi Coveiro, começou a discursar sobre usar (ou não) drogas durante o show e defendeu o ato de brigar (desde que seja do lado de fora), sem perceber que um policial fardado entrou no recinto — o que nos faz pensar que:

3. A polícia ainda invade os shows de rock pesado

E fica olhando torto pro palco.

4. O headbanging sincero ainda existe

Dos mais variados estilos, a prática esportiva da porradaria coletiva continua acontecendo em shows de rock, não importando a idade, porte físico e grau alcoólico dos participantes. À frente do palco do Correria, camisas pretas disputavam espaço para sacudir a cabeça parados sem a mínima pinta de poser. Aquelas chacoalhadas de crânio exalavam a sinceridade inocente dos camisas pretas ancestrais. O mais empolgado era um cara que colou com uma peita do Ozzy Osbourne, um boné do Raul Seixas e um patch do Discharge na mochila. Ele estava lá para, de fato, ver o show. Ele não parecia integrado às autoridades da cena, mas são tipos como ele que sustentam a cena comprando altos merchs nas banquinhas. Ele poga, ele finge que sabe a letra, ele pula do palco mesmo sem ninguém pra segurar. Ele amarra a camisa na cintura e esfrega suor nas pessoas. Ele é o headganger sincero.

5. Os bateristas ainda tocam com as mãos quebradas (e se orgulham disso)

É fato que, via de regra, bateristas não param de tocar por uma mão quebrada. Até o Travis Barker já fez isso. É uma verdade irrefutável do mundo do rock e nesse caso não poderia ser diferente. O baterista do Leptospirose, Serginho, tocou o show inteiro com a mão direita imobilizada. Não sabemos o que ele tinha na mão, mas ele afirmou estar orgulhoso do feito: "Toquei 39 de 40 músicas do repertório!"

Ignez Capovilla da banda Whatever Happened to Baby Jane. Foto: Felipe Larozza

6. As minas ainda são minoria na programação

Os lineups dos festivais roqueiro jaquetinha ainda são predominantemente masculinos. No Läjä Festival não foi diferente. Mesmo com duas bandas que tinham minas na formação, Whatever Happened to Baby Jane e Deb and The Mentals, o que se via na pista não se espelhava no palco. Tinha bastante mulher no show, mas pouco som feito por mulher reverberando nas caixas.

7. Carnistas e veganistas podem se unir pela mesma causa: beber cerveja

A Läjä Records conseguiu o feito de unir duas marcas vilavelhenses bastante opostas entre si para dar suporte a este evento: a loja de produtos veganos Veganza e o restaurante especializado em carnes Alcides Carnes y Tragos. O cardápio para as bandas variava entre obscenas, suculentas e mal passadas costelas bovinas e enormes hambúrgueres de soja, ervilha, berinjela e outros quejandos. Tá certo que os vegetarianos não ganharam camiseta com estampa que pudesse rivalizar com o trocadilho "Out of Salad", da peita distribuída pelo Alcides às bandas e imprensa. Mas pelo menos todos tinham algo em comum: o álcool. Descobrimos as maravilhas da cevada jamaicana.

8. Os caras do metal extremo nem espalham a destruição

O pico estava cheio de manos com indumentária black metal, crust, grind, death… Mas a despeito do visual malvadão, tratava-se dos camisas pretas mais amenos e good vibes no espaço. Os próprios caras do Facada, fora do palco, são mais tranquilos e amistosos do que se possa imaginar. Não sabemos como é possível nego fumar tanta maconha e detonar um som tão energético e debulhador como aquele.

Foto: Felipe Larozza

E o que foi o metaleiro satânico que chegou com um terrível bafo de Flamejante (Drink verde que vende no pico. Custa R$ 4 e te arranca o topo do crânio se exagerar) na nossa bota fazendo o gênero bêbado emocionado? Lá de longe ele gritou para o vocalista e guitarrista do Water Rats: "Aê Capilé! Você gosta de Behemoth? Gosta nada! Você só toca esses sonzinhos aí…". Bateu aquela noia de pensar que ia rolar treta, mas depois de uma pausa e já atravessando o nosso papo, o cara lançou: "Brincadeira, mano, eu era muito fã do Sugar Kane na minha adolescência. Vocês mudaram minha vida!". E caiu em lágrimas de alegria, agarrando o pescoço do músico. Parecia impossível fazê-lo parar de lançar perdigotos e falar sobre como o Sugar Kane o fez suportar o tédio da juventude em Santos. Mas o Capilé conseguiu uma hora lá e fomos ver o show do Merda. Concluímos: um monte de gente que ostenta pentagramas já deve ter curtido New Found Glory um dia quando menino punhaca.

O maravilhoso Locabus. Foto: Felipe Larozza

9. Não dá mais pra fazer o estilo Cameron Crowe

Não fique pensando que você, aspirante a jornalista de música, vai se formar e viver umas aventuras acompanhando bandas na estrada, imerso naquele clima que inspirou a matéria da Rolling Stone que virou o filme Almost Famous. Nada disso! Esqueça as orgias, os pactos de sangue, as intensas fritações e viagens alucinógenas, a imprevisibilidade das coisas, os comportamentos estranhos, os transes sugeridos por aqueles textos do Finatti pra Dynamite nos idos de 2002. Viajamos de São Paulo a Vila Velha, ida e volta, no buso dos artistas, e o esquema foi bem tiozão: breja, sono, tem carregador de iPhone aí?, um dog chamado Cosmo amolecendo corações e o Marcos do Motosierra falando mais que o homem da cobra da Praça da República. A maior transgressão constatada se pá foi a turma emendando um beck no outro nas paradas e defumando o banheiro do veículo.