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Entrevista: Morto Pela Escola

Noisey

By Arthur Dantas

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Como havíamos mencionado por aqui2012 foi um ano joia pro HC nacional. Por conta disso, encomendamos ao especialista, boca-aberta e nosso eventual colaborador Arthur Dantas, uma série de entrevistas com os bons conjuntos musicais do gênero. Ex-fanzineiro que é, ele demorou mais que um jornalista freela pra começar a entregar essas entrevistas, mas parece que agora vai, e teremos uma por semana.

O punk/hardcore recente no Brasil tá tão legal, mas tão legal, que dá pra um dono de loja/galeria de arte montar uma banda cheia de estudante de arte (e um advogado, como agravante), fazer um som foda pra cacete sem soar trucagem performática mauriçola, e ainda ter credibilidade nas ruas. É muita felicidade odara até pra hippie dos anos 70, meu povo. Esse é o Morto Pela Escola, um representante contemporâneo do “hardcore tosco moleque” de Vila Velha, a terra que deu ao mundo Mukeka Di Rato, o Mozine e sua Laja Records, que vira e mexe aparece com alguma travessura nova aqui na VICE.

É mais ou menos assim: se você gosta do Beastie Boys da fase hardcore, você vai amar o Morto Pela Escola — até porque eles falam de coisas que provavelmente têm a ver com a sua vida marromeno, juventude. É sujo? É. É barulhento? Muito. Dá assunto pra azaração? Bom... tenta a sorte. Mas pelo menos é papo reto garantido e você nunca vai ter a sensação que eles tão em cima de um palco só de olho no que tem dentro da tua carteira.

 

O Alex Vieira, além de ter essa loja/galeria de arte e berrar impropérios no Morto Pela Escola, é editor da revista Prego — muito provavelmente a revista mais legal no país a celebrar esse casamento lindo entre artes plásticas low brow e o punk, como já informamos por aqui. Em 2012 eles lançaram um compacto em parceria com o Merda (banda do supracitado Mozine junto com o próprio Alex) e um EP com o singelo nome de Raiva do Mundo. Num chat de rede social, perguntei sobre o sistema educacional brasileiro, tendo em perspectiva o panorama latino-americano, o estado da arte brasileira e seus reflexos na música jovem, a descriminalização das drogas e a arte capixaba de lidar com pessoas de fino trato.

VICE: Por que punks têm esse bode universal com a escola, essa instituição tão nobre da sociedade?
Alex Vieira: Cara, quando o Morto pela Escola estava começando, nós ainda estávamos na escola. Eu era do terceiro ano e a banda ainda se chamava Born to Lose. Esse nome só durou algumas semanas até se tornar Killed by School. Nessa época eu só queria saber de tocar e andar de skate. Pra mim, o terceiro ano era um inferno, maior pressão em ter que escolher um curso pra entrar na faculdade, aula de tarde e em escolas diferentes, enfim, um saco. A gente ouvia muito Scholastic Deth e eles tinham um EP chamado "Killed by School", e nós achamos que se encaixava perfeitamente na ideia do hardcore moleque que a gente queria fazer. Sem contar que essa estética escolar já vinha de antes, nos encartes do F.Y.P e das artes da Recess Records que nós também amamos. Mal sabíamos que o jogo ia virar e a gente iria se tornar professor em algum momento (eu já dei aula, o Raphael também e o Léo Aranha é professor em duas ou três escolas da rede pública).

Você é artista e tal. Vou te pedir um exercício criativo: te dou o nome de um desenhista e você diz que banda punk ele seria. A. Frank Miller; B. Robert Crumb; C. Laerte; D. Ziraldo

Frank Miller - Ramones: Todo mundo conhece, a maioria gosta, aposta sempre no tiro certo ou "quem não gosta, gosta. Quem não gosta, curte".

Robert Crumb - Dead Kennedys: Tem uma coisa mais política e simbólica envolvida. Não dá pra comparar o Crumb com o Jello, mas os dois são escolas pro punk.

Laerte - MDC ou New York Dolls - O MDC foi uma banda que sempre levantou questionamentos políticos e foi uma das bandas que trouxe a questão da diversidade sexual à tona no meio punk. Seria o Laerte o Dave Dictor dos quadrinhos brasileiros? New York Dolls foi só pelo visual mesmo.

Ziraldo - Inocentes: Uma banda punk brasileira que começou boa e foi ficando uma merda.

No Split com o Merda, a música “Vida Lenta (Marcel Duchamp)” tem como versos iniciais "Vida lenta, círculo vicioso / Onanismo horizontal / Viagem de ida e volta pro amortecedor". A pergunta é: quanta maconha você fumou pra escrever isso?
Essa letra é uma poesia do próprio Marcel Duchamp que encontrei na biografia dele que saiu no Brasil. Achamos legal e resolvemos encaixar nessa música.

Já parou pra pensar que, se vocês fossem uma banda punk nos anos 1980 (quem sabe, até nos anos 1990), iam tirar vocês de boy por citar um artista?
Esse é um tipo de preocupação que a gente não tem morando em Vila Velha nos anos 2000. Mas enfim, temos na banda três artistas (formados na UFES) e um advogado, essas associações à arte acabam sendo inevitáveis e acho até que a gente usa pouco disso a nosso favor. No início da banda, a gente fazia mais coisas, tipo criar uns robôs de papelão pra levar pro circle pit, entre outras bobeiras.

Você toca com o Mozine no Merda e com o Léo Aranha no Morto, duas figuraças do punk capixaba. Dá uma explicação científica aí pra ter tanta tranqueira desde sempre na cena local. Se puder contar algum causo que dê pra exemplificar alguma dessas figuras, seria lindo...
Cara, comecei a tocar com o Mozine faz dois anos, e com o Léo faz uns três anos. Nesse curto período já rolou muita história, imagina o que esses caras já não passaram nas épocas do Dr. Mobral [banda em que os dois tocavam juntos]? Eu já conhecia essas duas figuras muito antes de tocar com eles e agora posso comprovar o que me contavam.

Com certeza Vila Velha gerou um tipo específico de humano hardcoreano que só existe aqui. O Léo Aranha é uma figura clássica mesmo, influenciou uma galera por aqui, já tá chegando aos 40 anos e tá no punk desde o final da década de 80. Nunca pensei que um dia eu ia ter banda com o cara. Lembro que conheci ele porque um amigo falou que ele vendia alguns CD-r punks com capas fabricadas em casa e descolei uma cópia da compilação "Possessed to Skate" com Spazz, Charles Bronson e outras bandas clássicas do gênero. Anos depois fui reencontrar o cara na universidade e resolvi chamar pra tocar bateria no Morto Pela Escola, porque o nosso vocalista original tinha deixado a banda e eu tinha resolvido ser vocalista.

Tem uma parada engraçada que eu e o Mozine sempre falamos, que já existe um tipo de "hardcore Léo Aranha". HCLA seria o hardcore tipo finlandês, meio carroça, meio Anti Cimex. No Merda, às vezes a gente fala, "vamos mandar um hardcore Léo Aranha nessa música".

Fora isso, tem aquele lance que saiu num zine antigo aqui do ES, que o pessoal daqui usa nomes de bandas pra exemplificar ações do dia-a-dia, tipo: mandar um Black Flag = fumar um beck, Circle Jerks = punheta, Sick Of It All = sexo... Se não me engano, isso aparece numa letra do extinto Pönvéi. Daria pra escrever um livro sobre o estilo de vida hardcore no ES, fácil.

 

Ouça o Morto Pela Escola aqui.

 

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