Novos Sons

Quão Realista é o Clipe "No Church in the Wild" do Kanye e Jay-Z?

By Alex Miller

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Já estive num monte de protestos por toda a Europa. Já fui enquadrado pela polícia alemã, levei gás da polícia grega e sofri com o kettling nas mãos da polícia metropolitana de Londres. Já fui perseguido por assassinos, fascistas e comunistas. E também gosto muito de vídeo clipes e de rappers, então acho que estou mais que qualificado pra analisar o clipe de “No Church in the Wild”, do Kanye e do Jay-Z.

O clipe foi dirigido pelo Romain Gavras. Esse cara também fez o clipe “Bad Girls” da M.I.A. no começo do ano, então ele é o responsável pelos dois clipes mais comentados de 2012 até agora.

De qualquer maneira, esse vídeo é basicamente um protesto cabuloso numa cidade europeia não especificada. Paris? Milão? Varsóvia? Atenas? Seria maravilhoso se fosse Atenas — a casa das eternas tretas sangrentas.

Ele começa com um moleque jogando um coquetel molotov nos policiais.

Quando um desses cai na vida real, a maneira como o fogo se espalha é realmente insidiosa. Ele sobe pelas superfícies como uma onda. Em Atenas, enquanto filmávamos o Teenage Riot: Atenas pro VICE.com, o fotógrafo e obcecado por rebeliões Henry Langston tirou essa foto de um cara que não conseguiu sair da frente de um coquetel molotov.

Mais assustador que isso são as explosões das bombas de gás. Isso é quando as pessoas enchem garrafas d'água de gás e enrolam com fogos de artifício. O som é muito assustador, se você assistiu o Teenage Riot: Atenas dá pra perceber que as cenas de confronto são temperadas com esse barulho.

Durante todo o clipe, esculturas clássicas testemunham a violência. Talvez eles tenham feito isso pra dar significância e legitimidade históricas aos manifestantes contemporâneos, mas nos protestos estudantis no centro de Londres todas as esculturas foram desfiguradas, não reverenciadas. Acho que isso acontece porque quando você tem 16 anos, está bem louco de fumaça de ônibus e ouve Tempa T, colocar um chapéu idiota no Churchill é hilário.

A multidão é mais descolada que qualquer multidão que já vi na vida. Bem menos crusts que em Berlim e bem menos tiozões que em Atenas. Acho que os manifestantes mais “legais” que já vi estavam nos tumultos de Londres no verão passado. Cada esquina estava cheia de pivetes com máscaras, eles pareciam uns Panteras Negras multiculturais patrocinados pela Nike. Um look foda.

Na vida real um policial teria filmado esse cara e ele seria enquadrado em 48 horas. :(

Essa é mais ou menos a posição que o Henry Langston fica pra tirar fotos. Eu geralmente fico uns bons metros atrás, em pânico.

Os cavalos dão muito medo. Em Berlim fomos perseguidos por eles e a Barbara, da VICE Alemanha, teve que ser puxada por cima de uma cerca por uns crusts numa estação de trem abandonada pra não ser pisoteada. Foi uma merda. Eles também usaram cavalos nos protestos estudantis de Londres, como ninguém teve o crânio esmagado por um casco está além da minha compreensão. E só pra comentar, nos protestos de Berlim, uma limusine virou errado numa rua e teve que ser escoltada pelo meio de centenas de manifestantes anticapitalismo... Rsrs.

Os policiais gregos fazem isso aí quando se movem como uma unidade, depois eles abrem e um cara — como esse aí em cima — corre e espirra gás lacrimogêneo concentrado em todo mundo. Gás lacrimogêneo é terrível. Em Atenas, eu e a Elektra Kotsoni da VICE, fomos perseguidos pela praça central por uns comunistas doidos com paus. Ficamos encurralados contra um muro junto com centenas de outras pessoas, e aí os policiais mandaram gás na gente. Todo mundo ficou cego, tossindo e engasgando. Semanas depois, nossas roupas continuavam tóxicas.

Alguns anarquistas gregos nos disseram que um garoto de lá ficou cego por causa dessas bombas de flash alguns meses atrás.

O mata-leão é muito popular nos círculos policiais. 

Ah, memórias. Lembro quando isso aconteceu no caminho pra Hackney.

 

Na verdade essas cercas funcionam como ímãs de encrenca. Todos os policiais ficam de um lado e todos os manifestantes chacoalham ela do outro. Eventualmente elas abrem e todo mundo toma borrachada na cabeça.

 

Nunca vi usarem um machado. Se eu visse ia me cagar de medo [ O Henry acabou de me dizer que já viu isso em Camden durante as revoltas do ano passado. Ele confirma que se cagou todo].

De volta ao ano passado, lembro de receber uma ligação do Henry contando que ele tinha ido tirar umas fotos dos tumultos em Camden à meia-noite, aí o carro dele foi cercado e que eles tiveram que acelerar pra cima da multidão de moleques retardados. Acho que era isso que eles queriam fazer com o carro.

Isso aqui é bem foda. 

Todas as desordens que já presenciei acontecem em ondas. Os indivíduos avançam, depois recuam, a polícia corre pra eles, depois volta. Só ocasionalmente você vê uma verdadeira luta policiais versus plebe — como quando os estudantes tentaram invadir a King Charles Street e a polícia mandou eles darem o fora (com cassetetes). 

A polícia desse clipe tem uma mistura bem estranha de equipamentos e aparelhagem de defesa. É um mix dos equipamentos esteticamente mais fodas e autoritários: lançadores de gás lacrimogêneo norte-americanos, macacões verdes gregos/chilenos, escudos balísticos da SWAT misturados com escudos altos ingleses, cercas de separação gregas e canhões de água alemães.

Mas os manifestantes ganham, porque eles têm uma porra de um elefante.

Acho que como o Romain é grego, o vídeo foi provavelmente inspirado pelos protestos da Grécia. Mas aquele clipe mais antigo do Justice, “Stress”, sugere que ele também passou um bom tempo na França sendo inspirado pela violência dos subúrbios parisienses em 2005. Achei esse vídeo muito legal. Uma feminista das antigas muito sábia, cujo nome me escapa agora, disse uma coisa mais ou menos assim: “O trabalho do artista é fazer a revolução parecer uma opção atraente”. E esse vídeo com certeza faz isso.

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