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Dois Sons Novos do Don L

By André Maleronka

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A VICE orgulhosamente apresenta duas músicas inéditas do Don L. Já que você está aqui, certamente a coisa mais importante que você pode fazer nesse momento é dar
play nos dois sons abaixo enquanto lê a ideia que o Don trocou com nosso editor André Maleronka com a desculpa dessa première.

ENQUANTO ACABA:

CAFETINA SEU MUNDO:

É estranho pensar no cearense Don L como o segredo mais bem guardado do rap brasileiro já que sua música, desde seu grupo Costa a Costa, nunca pareceu ter motivação ou intenção subterrânea. Óbvio, os temas que ele aborda – e o jeito que ele aborda esses temas – não são material pra Sessão da Tarde, mas ele sempre arranjou soluções sonoras muito atraentes pra ssa treta toda. Ao mesmo tempo, o próprio rap brasileiro nunca precisou realmente dos canais oficiais da grande mídia (se você acha isso, tá mais de chapéu que usuários de Panamá, te aconselho voltar dez casas com rabo entre as pernas pianinho e rezando pra que ninguém tenha percebido).  

Então pensar na obra dele assim pode fazer muito sentido. Vamos lá: o culto ao seu trampo é tamanho que a mixtape Dinheiro Sexo Drogas e Violência de Costa a Costa é eternamente encontrável pra download na rede, e as músicas solo que o Don L soltou online desde então – sejam cartas de intenções como “Essência” ou “Êxodo e Êxito” e “No Baile” ou aquele hino pra mandar lindamente o mundo se fuder – enfeitiçaram, intrigaram e inspiraram amantes, piratas e do contras do Brasil. Divirtam-se. O mundo é nosso.

VICE: Vamos do começo. A mixtape do Costa a Costa, de 2007, é cultuada. Pra muitos está entre os melhores discos de rap brasileiro de todos os tempos, por resolver a equação de letras pesadas X musicalidade. Muita gente quer saber por que o grupo deu um tempo e você saiu solo.
Don L:
São duas coisas diferentes. Tenho essa necessidade de ter um trampo solo. É minha visão, meu conceito de música, de letra, e minhas aspirações em termos de produção... O Gallo também tem as dele. Então é natural que exista o trampo solo de cada um. O Gallo vai participar do meu disco em uma faixa. Mas pra gente se juntar e fazer um disco juntos, precisa conciliar um monte de coisa, e pra isso, todas as pessoas envolvidas precisam estar vivendo um momento de vida compatível, como foi o caso da mixtape. A vida pessoal de cada um deu reviravoltas que levou a gente a seguir caminhos diferentes, prioridades diferentes, mas sempre no maior respeito às escolhas de cada um. Não tô falando de um grupo de rap, tô falando dos meus melhores amigos. No momento certo, a gente concentra pra gravar um disco. Não vai faltar história pra contar.

Na mixtape o tema que amarra as músicas é a saída do tráfico de drogas pela música, e histórias do universo ao redor dessas duas atividades. Do que você está tratando nas suas novas músicas sozinho?
É mais amplo. O nome do disco é Vida Premium. É meio épico. Não quero explicar demais agora, porque quero que as pessoas tenham o impacto do disco. De ouvir faixa a faixa e ter aquela parada que acho que conseguimos fazer na mixtape do Costa a Costa. Acho que vai ter um mesmo impacto. Só que de uma maneira mais ampla.

Ninguém quer viver uma vida ordinária. Todo mundo quer sentir um sabor especial, sentir que vale a pena. Dizem que a gente tá vivendo a era da informação, a sociedade da informação. Acho que essa época já passou. A gente tá vivendo a sociedade da propaganda. O excesso de informação fragmentada se torna simplesmente propaganda. As pessoas buscam informação através da propaganda, e assimilam fragmentos de informação pra gerar algum produto que possam vender, e pagar pela vida que vendem pra eles através de propagandas, e depois fazer propaganda da vida que eles acabaram de adquirir no Facebook, pra que outras pessoas achem que eles fizeram as escolhas certas e assim, comprem o que eles tão tentando vender também através dessa propaganda da vida privada. Tudo se torna propaganda. O rap atual é pura propaganda. Mas isso é só uma parada que veio na minha mente agora... O meu disco não fala só disso e nem exatamente disso, eu tô mentindo. Eu tô, agora, fazendo propaganda do meu disco. Ou talvez esteja sendo sincero demais. Isso não é bom. E agora tô confundindo. Tática de propaganda. Tô confundindo, pra gerar uma expectativa. A verdade é que não posso falar agora exatamente o que é. Preciso fazer mais propaganda, antes.

Como você vê falar de amor e sexo no rap? Fora alguns exemplos isolados (e nisso encaixo o seu trabalho e o próprio Costa a Costa), isso ainda não foi bem resolvido pelo rap brasileiro, principalmente pra tratar de sexo. Você vem numa pegada que dosa bem sacanagem e romance. Acha que é um tema difícil de abordar no Brasil? Por quê?
Não acho difícil. Acho que sou um cara sacana e romântico, deve ser por isso [risos]. Mas geralmente não me identifico com a forma que a maioria dos caras fala de mulher, nem no rap, nem na maioria dos outros estilos de música. Às vezes escuto e sinto que não falaria assim com uma mulher, se quisesse dizer tal coisa pra uma mulher. Às vezes, não com esse tom. Às vezes, não com essas palavras. Às vezes, eu simplesmente nunca diria isso [risos]. Geralmente acho muito estúpido, ou muito fresco, ou muito clichê, ou alguma combinação dessas três coisas.

Acho que, musicalmente, “Enquanto Acaba” têm paralelos tanto com “Sonho Meu” do Xis quanto com “Não Existe Amor em SP” do Criolo, pela liberdade e confiança em fazer uma música com andamento mais lento. Já a letra trata de algo completamente diferente, e na batida 3/4 cabe tanto dançar uma valsa a dois quanto cantar o refrão de “Hip Hop Hooray”. O que você queria realizar ao compor esse som?
Muita honra ser comparado ao Xis e ao Criolo, ainda mais com essas duas músicas, que considero clássicos, mesmo a do Criolo que é recente. Sobre o que eu queria realizar, sinceramente não penso tanto assim quando tô compondo. Não calculo tanto assim. Tenho um conceito geral do disco, do que quero em termos de produção. E saber o que quero em termos de produção, pra mim, é encontrar a música que possa me ajudar a transmitir o sentimento que trago nas ideias, que é na verdade, o reflexo do momento que tô vivendo e o que eu tô pensando sobre a vida. Nesse caso aí, só me dei conta de que a batida era em 3 tempos quando alguém falou. Não que eu não saiba o que é uma batida em três, mas porque eu tava tão absorvido quando fiz a música, que não pensei nisso. Tava fazendo outra coisa e ouvindo um disco antigo, aí pirei no som, botei no repeat umas 30 vezes, depois fiz um loop, e comecei a escrever o que eu tava sentindo, o que a música me trazia, só com o sample. Só depois fui produzir a música valendo. Às vezes não percebo nem alguma coisa ou outra que eu digo, tipo, não exatamente o impacto que pode ter. Faço música como se tivesse num divã, como se ninguém tivesse ouvindo, é como se tivesse falando pra mim mesmo ou pra alguém em especial. Às vezes fico com vergonha de mostrar pra alguém pela primeira vez, porque é muito pessoal. O flow também, eu não calculo, vou ouvindo e entrando na música, tentando fazer parte dela como os outros instrumentos fazem. O refrão é meio blues se você prestar atenção, mas não pensei nisso tipo: vou fazer um refrão meio blues. Foi o tipo de melodia que encontrei pra transmitir o que eu tava sentindo.

Você acha que “Cafetina Seu Mundo” desenvolve a vazada “Blim Blim” de alguma maneira?
Não tinha pensado nisso. Mas acho que o sentimento é parecido. Mas acho que falo de uma maneira mais ampla sobre esse sentimento. É aquele momento em que você olha no espelho e percebe que o mundo tá te pedindo pra ser um bom rapaz, mas é como uma garota safada se fazendo de santa e dizendo "para, para", quando na verdade o que ela quer dizer é "não para, não para, não para"... [risos] Gostei dessa parada, acho que vou usar numa letra.

Em “Cafetina Seu Mundo” você cita o filme O Homem que Virou Suco, que trata dum poeta nordestino confundido com um operário assassino ao chegar a São Paulo. De algum jeito isso é um medo? Pergunto isso porque você já tratou disso anteriormente, em “Êxodo e Êxito”, de 2010, em que você parecia anunciar sua mudança pro Sudeste.
Não que seja um medo. Mas é um dilema. É o Aderaldo (se me recordo bem do nome), em contraste com Tony Montana saindo de Cuba pros Estados Unidos. Eu só queria fazer poesia, mas não sou laranja pra aceitar virar suco.

Você falou da sociedade da propaganda. Você enxerga uma censura inerente a esse momento da sociedade?
As coisas não são discutidas além de um nível superficial. Não dá tempo. Uma coisa acontece, gera um buzz, e quando você acha que vai rolar uma discussão real em torno disso, já existe outro fato mais importante, porque aquele ali já passou, já vendeu, já deu o que tinha que dar de audiência, vendeu o suficiente em publicidade. Superficialidade e velocidade. Todo mundo correndo a mil, querendo chegar no mesmo lugar, com os mesmos sonhos, e não tem espaço pra todo mundo. Mas todo mundo quer garantir o seu. Então ninguém quer se opor ao que é legal, ao que é cool, da moda. A "opinião" do momento. De acordo com cada grupo que cada um quer pertencer. Um monte de máquina achando que tem vontade. Retuitadores de ideias das quais ninguém faz ideia do que se trata.

Você diz aqui que faz as coisas instintivamente, e acho que trata de drogas dum jeito muito natural e nada sensacionalista ou moralista. Pode falar um pouco sobre isso?
É realmente natural, e só penso sobre isso depois que as músicas tão prontas. Aí vejo que falo disso naturalmente, como falaria com pessoas inteligentes, ou que pelo menos não são estúpidas. Não subestimo a inteligência das pessoas. A gente vive numa sociedade que trata as pessoas todo tempo como idiotas. E o resultado disso é que elas muitas vezes se tornam realmente idiotas.

Todo mundo fala de drogas como se tivesse falando com uma criança. É ridículo. Até porque as crianças tão jogando videogames que simulam a vida de assassinos e soldados em guerra. As drogas tão aí e fazem parte da nossa vida social e, aliás, fizeram parte de todas as sociedades de que se tem notícia. Mas a nossa sociedade resolveu tratar disso como um tabu, e aí gerou uma curiosidade maior. E uma curiosidade reprimida, um prazer reprimido, se torna um fetiche. Você pode embarcar fundo demais nisso e não voltar. Você pode morrer. Mas isso pode acontecer com muita coisa, não só com as drogas. Tem gente que embarca numa de celebridade e nunca mais volta. Tem gente que não consegue andar a 80 numa moto que pode alcançar a velocidade de 320. Algumas pessoas morrem. Aliás isso é um direito delas também. Mas ninguém tá preocupado com isso. Tão preocupados mesmo, é com o risco de uma pessoa se tornar improdutiva. O crack tá sendo discutido agora, não é porque existe uma preocupação com os usuários. É porque muita gente tá viciada, e se tornando totalmente improdutiva e, o que é pior, dando prejuízo pro Estado. Isso fora o incômodo de convívio com pessoas viciadas numa droga escrota. Já no caso do cigarro, por muito tempo se achou que era OK que as pessoas se matassem fumando. Não era problema. Começou a virar uma preocupação de Estado quando notaram que isso era um prejuízo pros cofres da saúde pública, e os impostos não tavam mais valendo o prejuízo. É tudo uma questão de lucro ou prejuízo. Se existisse realmente uma preocupação com a saúde e bem estar das pessoas, eles proibiriam metade dos venenos que se vende nas prateleiras dos supermercados. São coisas que matam mais, dão mais doenças e menos prazer. Mas não atrapalham a produtividade. E geram mais lucro que prejuízo. Então enquanto permanecer assim, não é um problema.

Ontem conversei com o Marcílio do Programa Freestyle sobre suas músicas, que você vem desenvolvendo uma espécie de "rap maduro" em seu trampo solo. As músicas que saíram parecem mostrar um processo de autoconhecimento, o que tem te influenciado nisso? Discos, livros, pessoas?
Eu sou um buscador. Tô buscando a felicidade plena. Um estado superior de consciência. Mas sabendo que posso morrer sem encontrar, tô tentando aproveitar o caminho. Procurando viver a vida no limite. Extrair o máximo. A gente vive num mar de mentiras. Mentiras sobre o mundo, sobre as coisas, sobre nós mesmos. A gente aprende a mentir e repetir mentiras, e criar novas teorias baseadas nas mentiras que a gente aprendeu, sem nunca se perguntar de onde vieram essas ideias e quem foi que disse que isso é verdade, e sem nunca botar essas ideias à prova. A gente acredita demais nas propagandas. Um dia desses uma pessoa perguntou em que eu acredito. Disse que, a princípio, não acredito em nada. Acredito nas possibilidades. Então escolho as que me interessam e boto elas à prova. Eu desconfio das instituições, então não sou religioso. Admiro a poesia que existe em algumas religiões, nos livros sagrados. Mas no momento que um conjunto de ideias sobre nossas possibilidades como seres humanos ganha um líder, uma hierarquia de poder, e se torna uma instituição, já perde 50% da minha credibilidade. Os três primeiros capítulos de O Quarto Caminho, de Ouspensky, têm algumas ideias que me introduziram nesse caminho do autoconhecimento. Algumas coisas do Osho também. Mas tô buscando ainda. E testando. Vendo o que funciona pra mim. Tô procurando. Não tenho grandes ídolos. Nem grandes teorias. Observo o que as pessoas dizem, e comparo com o que elas realmente vivem ou viveram. O que tenho são grandes sonhos, enxergo grandes possibilidades, e tento. Gosto de ler de tudo, romance, contos, poesia... E tenho muito amor pelos discos. A música é minha melhor amante.

Cara, fala a real: é bom misturar tequila com licor?
Pô, é bom pra caralho, flambado. Tem que botar o licor primeiro e a tequila por cima, devagar, sem misturar, porque a graduação alcoólica é maior. Aí você pega um isqueiro e toca fogo, e bebe com um canudo grosso enquanto queima. Isso a dois é bem louco. E rápido [risos]. Ah, e tem que ser com um isqueiro elétrico. Um dia desses paguei mó mico tentando com um Zippo. Não consegui. Mas bebi assim memo.

Ficha técnica:

Enquanto Acaba:

Produção e mixagem: Don L

Bateria: Pepeu e Billy Gringo

Masterização: Renato Pinto

Participação especial: Flora Matos

Cafetina Seu Mundo:

Produção: Don L

Mixagem: Luiz Café

Masterização: Renato Pinto

Download:

Enquanto Acaba

Cafetina Seu Mundo

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